Primeira mulher negra a pilotar nave espacial relata sua jornada no espaço

A astronauta Sian Proctor, da SpaceX, conta sobre sua dedicação ao longo da vida para participar de viagens espaciais, a alegria e os desafios de estar em órbita e a esperança de um futuro menos desigual.

Publicado 16 de out. de 2021 07:15 BRT
Sian Proctor visita o Space Camp na cidade de Huntsville, no estado do Alabama, EUA. Como ...

Sian Proctor visita o Space Camp na cidade de Huntsville, no estado do Alabama, EUA. Como membro da missão Inspiration4, a geocientista e artista se tornou a primeira mulher negra a pilotar uma espaçonave em setembro deste ano.

Foto de John Kraus, Inspiration4

Sian Proctor não desiste — era apenas uma questão de tempo até que ela alcançasse o objetivo de voar em órbita. Apaixonada por viagens espaciais desde criança, a geocientista, artista e pilota de avião de 51 anos recentemente se tornou a primeira mulher negra da história a pilotar uma espaçonave.

O pai de Proctor ajudou a guiar as missões do Programa Apollo em órbita da estação de rastreamento da Nasa em Guam. Ele recebeu um agradecimento pessoal de Neil Armstrong e muitos objetos de recordação da Nasa. Como Armstrong, Sian Proctor queria ser astronauta. Para isso, ela obteve um certificado de doutorado, uma licença para pilotar e uma certificação SCUBA — requisitos comuns entre os candidatos a astronauta.

Em 2009, Proctor chegou à última fase do disputado processo seletivo de astronautas da Nasa. Quando a Nasa rejeitou sua candidatura, parecia que seu sonho de visitar o espaço poderia não se realizar. Então ela optou por uma missão semelhante: em 2013, passou quatro meses no Havaí como membro de uma equipe em uma simulação do habitat de Marte.

Mas agora, Proctor não apenas entrou em órbita: a pilota entrou para a história. Ela conseguiu uma vaga na missão Inspiration4, uma missão tripulada somente por civis, após impressionar a banca de juízes com seu veio artístico, seu talento e seu empenho para promover o que ela chama de espaço Jedi — uma visão justa, equitativa, plural e inclusiva de exploração espacial para a humanidade.

“Poucos de nós foram para o espaço”, afirma Proctor sobre a comunidade negra. “Eu pensei: o que eu poderia fazer para ampliar o acesso e inspirar pessoas a seguir esse caminho?”

No último mês de setembro, Proctor e seus companheiros de equipe orbitaram a Terra em uma cápsula Dragon da SpaceX durante três dias e ajudaram a arrecadar mais de US$ 200 milhões para o hospital especializado em pesquisas em pediatria St. Jude, com sede em Memphis. Os outros tripulantes a bordo foram o comandante da missão, Jared Isaacman, que financiou a viagem; o especialista em missões, Chris Sembroski, que ganhou a vaga por sorteio; e a médica Hayley Arceneaux, sobrevivente de câncer infantil. Ao longo da viagem eles ouviram um pouco de música, fizeram atividades científicas e ficaram maravilhados com o sol radiante enquanto viviam a experiência extrema e estressante de viagem espacial.

Como o tema deste ano da Semana Mundial do Espaço, promovida pela ONU, aborda a presença de mulheres em viagens espaciais, a National Geographic conversou com Proctor sobre sua viagem, seus companheiros de tripulação, qual foi o problema do banheiro da espaçonave e a mensagem que ela espera que a missão Inspiration4 deixe para as pessoas.

Qual é a sensação da gravidade zero?

É incrível. Estou sonhando muito com isso. Nessas últimas duas semanas em que estou de volta, sonhei que vivia no espaço em pelo menos metade das noites. Foi maravilhoso porque me trouxe de volta a sensação de estar levitando. É difícil descrever, mas se você já sonhou que estava voando ou algo do tipo, a sensação é parecida.

Você embarcaria nessa jornada novamente?

Eu ficaria até por mais tempo. Três dias não foram suficientes. Essa é a grande questão.

Por quê?

No primeiro dia, não estava me sentindo muito bem. Muitas pessoas sentem náusea espacial simplesmente por estar em um ambiente diferente. Depois, no segundo dia, sentem-se melhor, mas ainda com a cabeça um pouco pesada. Mas, no terceiro dia, eu já acordei cantarolando; tudo estava perfeito. Eu tinha me adaptado, estava bem, e fiquei tipo, ‘o quê? Eu tenho que voltar para casa?! Não, não, não!’ Então, eu acredito que o ideal seria uma missão de cinco dias com a cúpula da cápsula Dragon.

Mas você não ficou nem um pouco assustada durante o lançamento ou pouso?

Não, não fiquei. Como pilota, tenho tarefas a cumprir. Quando entramos em órbita, monitoramos o sistema porque há algumas tarefas que devemos fazer caso o computador de bordo não funcione como esperado. Uma das atividades mais importantes é o lançamento do drogue e dos paraquedas principais — se eles não dispararem de maneira automática, conforme programado, é possível entrar e acioná-los manualmente.

Foi a coisa mais linda ver quatro paraquedas funcionando perfeitamente e se abrindo. Por causa deles não morreríamos nos chocando violentamente contra o oceano.

E o nervosismo na plataforma de lançamento?

Foi uma das coisas que simulamos muito. Todo mundo estava bem tranquilo. Estávamos sentados esperando, já em contagem regressiva, e nesse momento vem o pensamento: ‘isso realmente está acontecendo. Então vamos lá!’. Ligam-se os motores e começa a melhor viagem da sua vida.

A cúpula — basicamente uma janela em formato de uma abóboda gigante — foi uma novidade para essa viagem. Como foi olhar para a Terra através dessa ‘janela’?

Essa foi, sem dúvida, a melhor parte do nosso voo. Nenhum de nós havia percebido que, devido ao formato da cúpula, conseguiríamos ver toda a esfera do nosso planeta. E foi de tirar o fôlego e de arrancar suspiros. É muito difícil descrever.

Eu queria poder estender minha mão e girar nosso planeta. Fiquei pensando em como os humanos estão moldando esse retrato em movimento. Temos um grande impacto no planeta. Nossas ações são relevantes. A Terra é absolutamente belíssima. É brilhante! E também tem a lua, que estava bem próxima!

Alguns dos astronautas da Nasa que viajaram na cápsula Dragon disseram que é muito apertada, até mesmo para duas pessoas. Como foi para você viajar com outras três pessoas durante três dias? Ficou mesmo apertado?

Não. E isso é interessante, porque realmente não tínhamos muito espaço. A cúpula aumentou o espaço, o que foi legal, mas acho que parte disso é por nunca termos feito uma viagem melhor que essa! Não tínhamos o ônibus espacial ou qualquer outro veículo espacial como parâmetro. E então, quando olhamos para as cápsulas Apollo e Gemini, pensamos, ‘eles viajaram ali?’ A cápsula Dragon é como o Cadillac das estações espaciais. É espaçosa! Acho que é tudo uma questão de perspectiva, entende?

E o que aconteceu com o banheiro? O alerta sobre o problema esteve em diversas manchetes de jornais.

Tivemos um problema com o ventilador. Acho que transformaram isso em um caso maior do que realmente era. Recebemos o alerta, checamos e descobrimos uma solução para que pudéssemos continuar em órbita com nossa missão. Humanos descobrindo como viver e trabalhar no espaço.

O gerenciamento de resíduos é fundamental no espaço. E a Nasa acabara de projetar um novo banheiro para a Estação Espacial Internacional, muito mais acessível para as mulheres.

Isso ajuda muito. Obrigado, Nasa! Uma das coisas que percebi é que os projetos espaciais são construídos — muitas vezes — para os homens. Precisamos pensar de maneira mais ampla. E essa é uma questão sobre a qual devo parabenizar a SpaceX, porque eles produziram cada um de nossos trajes espaciais especialmente para nós. Então não me senti como se estivesse me encaixando em algo existente; personalizaram um traje especialmente para mim. Eu amo meu traje espacial.

Você vai poder guardar o seu traje?

Não. Se eu pudesse, doaria para o Museu de História Afro-Americana, nos Estados Unidos, para servir de inspiração para as novas gerações. Imagino o impacto que isso poderia ter. Mas a SpaceX tem um modelo de reutilização, e isso é importante para a redução de custos. Portanto, esses trajes espaciais são reutilizados como trajes de treinamento para futuras tripulações.

Uma das coisas que adorei na sua mensagem é a sua conexão com a arte.

Eu me sinto muito sortuda, sabe? Sou uma geocientista treinada. Mas quando me inscrevi para ir ao espaço no Inspiration4, eu relatei que era preciso enviar uma artista e poeta para essa missão. É muito importante para a humanidade ir ao espaço. E a humanidade em nós está na arte, na música, na dança, nas expressões e na cultura que levamos conosco. Não é apenas a ciência, a tecnologia, a engenharia ou a matemática que nos leva até o espaço.

E pensando em missões espaciais de duração mais longa, esse aspecto humano se torna muito mais importante.

Essa é uma das razões pelas quais eu digo que estamos escrevendo a narrativa da viagem espacial humana neste exato momento. Jared trouxe uma perspectiva de como poderíamos, até certo ponto, estabelecer um padrão de pensamento sobre viagens espaciais humanas. Que é possível explorar as estrelas, mas também é possível fazer o bem aqui na Terra durante o processo. E é por isso que devemos nos empenhar por um espaço Jedi — um espaço justo, equitativo, diverso e inclusivo. Isso é algo que só depende de nós. Portanto, precisamos estar focados para criá-lo.

Há alguma coisa que você gostaria de ter em mente antes de embarcar nessa jornada?

Aprendi por meio desse processo a perdoar mais a mim mesma. Eu estava preocupada em não ser boa ou inteligente o suficiente, ou pensava que, de alguma forma, iria estragar tudo e que acabaria perdendo essa oportunidade. E nada disso aconteceu! Com a função de pilota da missão, eu deveria ser uma engenheira de sistemas, e eu não era engenheira. Eu sou uma pilota, mas um avião monomotor não é a mesma coisa que uma cápsula Dragon. Eu gosto de dizer que fui para a escola SpaceX, que é como ir para Hogwarts, onde há magia e mistério e tudo mais, e ficar pensando que não sou uma feiticeira!

Mas você é uma feiticeira.

Eu sou, sei disso! E eu amo!

Você é de Grifinória?

Eu sou de Grifinória. O engraçado é que Harry Potter era um tema recorrente entre os membros da equipe. Jared era o único que não tinha assistido aos filmes, então fizemos o teste das casas com ele. Dois de nós são de uma casa de Hogwarts e os outros dois de outra. Tem algum palpite?

Há outro de Grifinória. Hmm. A outra casa é a Corvinal?

Não... você deve ter imaginado que Jared poderia ser da Corvinal. Então a Hayley seria de qual?

Eu acho que Hayley poderia ser de Grifinória? Ela é corajosa.

Não.

Lufa-Lufa?

Sim! Hayley é uma lufa-lufa total, por completo.

Então Hayley e Chris são da Lufa-lufa.

Sim. E Jared e eu somos Grifinória. Agora vou ver o Harry Potter montado em um dragão de uma maneira completamente diferente. Eu tenho minhas asas de dragão!

Algo mais sobre essa experiência, ou a maneira como você reagiu a ela, te surpreendeu?

Acho que o importante foi estar na casa dos 50 anos e conseguir participar disso. A lição que eu tiro dessa experiência, para mim e para mulheres mais velhas, é: não desista dos seus sonhos. Você pode pensar que depois de criar seus filhos, ou por estar na casa dos 40, 50 ou 60 anos, a melhor parte da sua vida já passou e que está velha demais para realizar os sonhos da infância.

Mas não é verdade.

Eu quero ser uma porta-voz, não só das mulheres e meninas negras, mas de todas as mulheres. Nós vivemos mais do que os homens. É muito importante entendermos que nossos anos dourados podem ser nossos melhores anos. Porque temos muito mais sabedoria nessa idade, não é mesmo? Ao chegar na casa dos 50 anos pensamos: não me arrependo de nada do que fiz. A fênix ressuscitou. Eu sou quem eu sou e sou muito mais sábia do que quando tinha meus 20 ou 30 anos.

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