Cultura

Como uma obsessão por frutas me levou a uma aventura inesquecível

Tudo começou com um agricultor, um mercado e um pêssego - e acabou me levando por uma viagem ao redor do mundo. Terça-feira, 12 Junho

Por Daniel Stone

Havia um homem gritando alto, com um tom de voz animado, e eu percebi que ele estava falando comigo. Percorrer as fileiras do Davis Farmers Market, no Vale Central da Califórnia, estados Unidos, é ter a chance de ficar cara a cara com algumas frutas da mais alta qualidade do planeta e os especialistas que as cultivam. Eu tinha 18 anos, estava na faculdade, e esse homem, um fazendeiro chamado Steve, exigia que eu experimentasse seus pêssegos.

Cerca de um ano depois, minha colega de quarto me disse, com delicadeza, que eu poderia estar viciado em frutas. Eu regularmente voltava da fazenda de Steve com dezenas de quilos de pêssegos, cerejas e maçãs. Eu pegava, podava e afugentava as aves, e, em troca, recebia frutose. Ele me ofereceu um emprego em tempo integral com a promessa de dirigir um caminhão e vender frutas nos mercados de fazendeiros do norte da Califórnia, além de poder comer todas as frutas que eu quisesse. Mas eu recusei. Eu queria ser repórter por um ano e disse a ele que voltaria logo.

Por isso, era bastante previsível que eu acabasse encontrando David Fairchild, um homem que havia conseguido fazer das frutas o seu trabalho. Li em um livro antigo que Fairchild, um espião de alimentos do final do século 19, viajou pelo mundo para encontrar plantações exóticas que não existiam nos EUA. Ele foi o homem que trouxe seus primeiros abacates, couve e mangas aos EUA, e ajudou a implementar as famosas cerejeiras de Washington, D.C. Nas reuniões com amigos, eu tagarelava sobre os maiores feitos de Fairchild, e quase sempre um deles dizia: “Puxa, nunca me ocorreu que alguém trouxesse essas coisas para cá”.

Por três anos eu segui as viagens sem precedentes de Fairchild. Eu vasculhei seus memorandos botânicos, seus diários, seus manifestos de viagem. Eu visitei seus netos na Nova Escócia, que me mostraram uma pasta de arquivos que diziam PESSOAL. "Não achamos correto compartilhar essas cartas", disse uma de suas netas. Mas eventualmente eles o fizeram. E fiquei sentado a noite toda lendo as cartas de amor de um homem que provavelmente nunca as teria escrito se soubesse que um estranho as colocaria em um livro.

As pessoas do século 19 raramente deixavam suas cidades natais e, no máximo, viajavam pelo país. Fairchild viajou mais longe do que a maioria das pessoas vivas hoje. Java foi um dos primeiros lugares para onde ele foi - ele cruzou o mundo para ver as palmeiras e os estranhos frutos dos trópicos. Ele navegou para Fiji, as chamadas Ilhas Canibais, e bebeu kava com homens que já haviam comido carne humana. No Chile, ele pegou uma fruta peculiar conhecida como pera de jacaré, cujo interior é verde e liso. Mais de um século depois, a pera de jacaré é conhecida hoje como abacate, uma fruta que possui um fã-clube e uma loja hipster no Brooklyn.

A vida de Fairchild foi uma aventura inimaginável. Ele comprou plantas da realeza egípcia e encantou os cultivadores de lúpulo da Bavária, um grupo que pouco confiava nas pessoas e que mantinha guardas para proteger seus campos. Ele testemunhou a morte, superou doenças e foi preso por espionagem. Ao todo, ele viajou para mais de 50 países - todos por terra ou de barco. Ao longo do caminho, ele comprou algodão de luxo no Egito, pequenos abacaxis na África do Sul, melancias na Argentina e cajueiros no Oriente Médio. Depois de cada viagem, ele voltava para as costas americanas em um navio lento e barulhento, esperando chegar antes que as sementes ou as mudas secassem.

Muitas vezes, quando estou escrevendo um artigo ou lendo um livro, olho pela janela e me pergunto como minha vida seria diferente se eu fosse um pouco mais como Fairchild. Se, em vez de escrever sobre frutas, eu as cultivasse e tornasse os novos frutos, como os mangostões, as jacas e as pitaias, mais acessíveis a mais pessoas.

Steve, meu amigo fazendeiro, ainda me liga algumas vezes para dizer que a oferta ainda está de pé, que há um caminhão esperando por mim. No verão passado, passei alguns dias na fazenda, minha peregrinação anual para colocar um pouco de sujeira sob minhas unhas. Antes de partir, Steve me perguntou se, só desta vez, eu poderia levar cerca de 360 kg de pêssegos até um mercado que ficava a algumas centenas de quilômetros dali. Nós carregamos meu carro e partimos. Enquanto meu pequeno Mazda tremia por conta do peso, eu apenas sorria, me esgueirando pela janela o tempo todo.

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