Cultura

Você acha que seu corpo está infestado de insetos? Você não é o único.

Mais pessoas estão procurando entomologistas para diagnosticar sensações aparentemente inexplicáveis de parasitas andando em seus corpos. Terça-feira, 26 Junho

Por Erika Engelhaupt

Há alguns anos, um homem começou a contar a seus familiares uma história horripilante: há insetos vivendo dentro de mim.

Esses insetos, ele disse, têm carapaças duras que estalam quando são esmagadas. Ele pode senti-los se movendo em seu corpo, especialmente dentro de seu nariz e nas partes íntimas. No começo, sua família lhe disse, gentilmente, que não era possível, mas ele simplesmente passou a tentar convencê-los com mais veemência.

Para coletar “amostras”, o homem cavoucou seu nariz com uma pinça, tirando pedaços de tecido e cartilagem até abrir um buraco no septo; agora ele assobia quando respira. Depois de inúmeros testes e nenhum sinal de insetos subcutâneos, seus médicos pareciam ter desistido.

Ele apresenta os sinais clássicos do que os cientistas chamam de parasitose ilusória, ou síndrome de Ekbom, uma crença inabalável, porém incorreta, de que o corpo do paciente está infestado com alguma coisa.

Durante anos, entomologistas insistiram que essas ilusões não são tão raras quanto os psiquiatras e o público podem pensar. E, agora, um estudo da Mayo Clinic sugere que eles estão certos. O primeiro estudo de base populacional sobre a prevalência da doença sugere que cerca de 27 entre cem mil americanos têm delírios de infestação todos os anos. Isso significa que cerca de 89 mil pessoas nos Estados Unidos, nesse exato momento, estariam sofrendo da doença.

Para muitas vítimas desses delírios, a infestação toma a forma de insetos ou ácaros, geralmente minúsculos e frequentemente mordendo ou rastejando na pele. Outros relatam sentir vermes ou sanguessugas ou algum tipo de parasita desconhecido.

Muitos dos pacientes, no final das contas, acabam aparecendo no escritório de um entomologista. E, conforme os entomologistas lhes explicam, apenas dois tipos de artrópodes de fato infestam os seres humanos: piolhos e ácaros que causam sarna. Ambos são fáceis de identificar e provocam sintomas característicos. Percevejos ou pulgas podem infestar uma casa, mas eles não chegam a viver realmente no corpo humano ou dentro dele; eles apenas se alimentam de nós e vão embora. Da mesma forma, existem ácaros que vivem em nossa pele, especialmente no rosto, mas eles são uma parte normal do corpo de todo mundo, muito semelhantes a bactérias que vivem em nossas entranhas.

Muitas vezes, realmente existe um problema médico oculto que provoca as sensações de coceira ou deslocamento do bicho e que levam as pessoas a acreditarem que estão infestadas. Alergias, alimentação, estresse, condições nervosas e reações a muitos remédios comuns podem ser causas de base. Essa é uma das razões para não se desprezar as reclamações dos pacientes. Mas o que geralmente começa com uma coceira ou outro problema dermatológico ou neural torna-se uma obsessão, muitas vezes com insetos.

“Existe uma ansiedade predominante em relação aos artrópodes”, diz Gale Ridge, entomologista da Estação Experimental Agrícola de Connecticut. “Por isso, quando as pessoas acreditam que foram mordidas, elas naturalmente assumem que só pode ser isso. É quase instintivo”.

Chamadas desesperadas

Ridge tomou conhecimento do homem que se queixava de insetos no nariz quando um membro da família lhe mandou um e-mail descrevendo seu problema. Ridge estuda percevejos e dirige o escritório que lida com questões do público, e ela diz que, nos últimos anos, insetos invisíveis vêm ocupado muito do seu tempo. Só no ano passado, pelo menos 300 pessoas a procuraram convencidas de que estavam infestadas de insetos, ácaros ou outros insetos rastejantes.

Cada uma das histórias é única, mas com fortes semelhanças, diz Nancy Hinkle, entomologista da Universidade da Geórgia que também trabalhou com a doença. Um traço comum costuma ser chamado o sintoma do saco selado – os pacientes fazem grandes esforços para coletar amostras dos “insetos” de seus corpos e lares, entregando sacolas que geralmente estão cheias apenas de poeira, fiapos, pelos e cascas de pele.

Outra semelhança é uma palavra que eles usam: desesperados. “Eles me ligam e dizem, Dr. Hinkle, você tem que me ajudar, estou desesperado”. Normalmente, a essa altura, eles já passaram por vários médicos.

Se nenhuma causa física é encontrada para os sintomas, qualquer médico – até mesmo um médico da família – pode prescrever medicamentos para tratar pensamentos delirantes. Mas depois de seis meses tentando identificar a causa de sua angústia, diz Ridge, é mais difícil influenciar as pessoas para tais tratamentos.

“Muitos pacientes não os tomam”, diz o dermatologista Mark Davis da Clínica Mayo, autor do recente estudo sobre infestações ilusórias. “Eles dizem: você está dizendo que eu não passo de um louco, e eu não sou”.

Em 2012, Davis e seus colegas relataram 147 casos de infestação ilusória vistos na Mayo Clinic durante sete anos. Ele não conseguiu pensar em nenhum paciente que soubesse ter superado as ilusões com sucesso. Frequentemente, ele disse, eles vêm para clínica esperando ser diagnosticados com um novo tipo exótico de infecção, e saem daqui decepcionados, nunca mais se ouve falar deles.

A internet, no entanto, muito provavelmente serviu para aumentar a legião de infestados. Blogs e sites sobre várias infestações, muitos dos quais são dedicados a teorias da conspiração e explicações biologicamente impossíveis, oferecem aos pacientes um senso de comunidade, mas também reforçam os delírios e muitas vezes tentam vendê-los soluções picaretas.

Terapia com insetos

Tanto Ridge quanto Hinkle dizem que começam todos os casos que chegam até elas procurando por insetos ou ácaros reais. Isso pode significar examinar dezenas ou centenas de supostas amostras. Se não consegue encontrar qualquer evidência de insetos, um entomologista deve proceder com cautela. Hinkle diz que aprendeu com a experiência que mencionar profissionais de saúde mental é a última coisa a se fazer – as pessoas simplesmente ficam com raiva.

Ridge diz ter obtido bons resultados conversando com a família de um doente. Uma vez, ela diz, “acabei com 11 membros de uma família em uma mesa redonda”. Esse apoio ajudou o homem a optar por fazer o tratamento de que precisava.

Tanto Hinkle quanto Ridge são claramente empáticas, mas também está claro que andar nessa corda bamba diariamente – tentando persuadi-los do impersuadível – causou um impacto emocional.

“Às vezes eu não consigo me desligar”, diz Hinkle. “Não consigo dormir”. Ela fica deitada na cama lembrando de uma mulher com quem conversou naquele dia, pensando que ela provavelmente está tomando um banho de cloro agora.

“Você poderia passar o resto da sua vida estudando a parasitose delirante”, adverte Hinkle. E, de certo modo, ela está fazendo exatamente isso. Depois de anos procurando por insetos que não estão lá, “ou você ri um pouco ou fica louca”.

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