Como manter a saúde mental das crianças durante o coronavírus

Esse pode ser um momento assustador para as crianças. Mas não há problema em reconhecer isso – além de ser algo saudável a ser feito.

terça-feira, 14 de abril de 2020,
Por Jenny Marder
Embora seja menos provável que as crianças fiquem doentes pelo coronavírus, estamos apenas começando a entender ...

Embora seja menos provável que as crianças fiquem doentes pelo coronavírus, estamos apenas começando a entender o que a pandemia pode significar para a saúde mental e o bem-estar emocional delas.

Foto de Jose Luis Pelaez Inc / Getty Images
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Na semana passada, em Chicago, um garoto de 14 anos fez uma lista dos membros de sua família descrevendo quem ele acreditava que viveria e morreria. Em Cincinnati, um garoto de seis anos temia que, se não conseguisse comemorar seu aniversário com seus amigos, não ficaria mais velho. Enquanto isso, minha filha de três anos teve mais escapes das necessidades fisiológicas nos últimos dias do que do início do ano até antes de iniciarmos o nosso confinamento.

Os sintomas físicos do novo coronavírus estão bem documentados. Os efeitos na saúde mental, nem tanto. E, embora seja menos provável que as crianças fiquem doentes, estamos apenas começando a entender o que a pandemia pode significar para a saúde mental e o bem-estar emocional delas.

É muito para uma criança processar. Há a interrupção das atividades normais, a separação repentina dos amigos e, claro, o medo do próprio vírus. Essas dificuldades se tornam ainda maiores para aquelas crianças que dependem de refeições fornecidas pela escola ou cujos membros da família estão doentes ou acabaram de ficar desempregados.

Então, como podemos ajudar nossos filhos nesse período de mudanças e incertezas? Veja o que os profissionais de saúde mental e os especialistas em cuidado parental têm a dizer e como nós, pais, podemos ajudar.

Cada criança reage de uma forma

Entre as crianças, a reação à pandemia tem muitas variações. Alguns estão gostando da novidade de ter que ficar longe da escola, ao passo que outros estão sentindo “um nível de medo que se aproxima do pânico”, descreve John Duffy, psicólogo clínico de Chicago.

“As crianças estão me dizendo que estão com medo do desconhecido”, diz Duffy, autor de Parenting the New Teen in the Age of Anxiety (Como criar o novo adolescente na era da ansiedade, em tradução livre). “Elas sentem esse tipo de presságio, que algo terrível está prestes a acontecer. E elas sentem que têm controle limitado sobre a situação.”

Os especialistas também observam algumas diferenças entre crianças menores e mais velhas, bem como crianças que já podem estar lidando com depressão e ansiedade.

Os pais de crianças pequenas podem notar apego excessivo ou regressão, como mais escapes das necessidades fisiológicas ou comportamentos de busca de conforto, como chupar o dedo. A interrupção da rotina pode ser especialmente difícil para crianças pequenas, que sentem grande conforto quando há consistência.

Os pais de crianças mais velhas devem esperar mudanças de humor e irritabilidade. Para elas, o distanciamento social pode ser a verdadeira dificuldade. “Pré-adolescentes e adolescentes mantêm a estabilidade emocional ao interagir com outras pessoas”, diz Duffy. A separação dos colegas pode parecer “horrível” e nada natural.

As crianças têm extrema consciência de seus próprios corpos, além da segurança de si mesmas e de seus familiares, disse Rachel Herbst, psicóloga que lidera serviços integrados de saúde comportamental no Hospital Infantil de Cincinnati. E elas conseguem perceber que os adultos ao seu redor estão sob uma situação de estresse. “A ansiedade é muito mais contagiosa do que qualquer vírus e as crianças absorvem isso”, disse ela.

Os pais de crianças que foram previamente diagnosticadas com depressão e ansiedade podem considerar a atual pandemia especialmente desafiadora. Não ajuda o fato de que os métodos indicados para proteção – lavar e higienizar as mãos constantemente – também acabem provocando ansiedade. Há um elemento de obsessividade e pensamento compulsivo para que nos sintamos seguros, disse Duffy.

“Não importa quão sensatos tentemos ser, algumas crianças são muito sensíveis à mensagem e precisarão de ajuda para voltar ao normal quando a crise aguda passar”, disse Tara Peris, professora associada de psiquiatria e ciências biocomportamentais do Instituto Semel de Neurociência e Comportamento Humano da Universidade da Califórnia Los Angeles (UCLA). Peris também é codiretora do Programa de TOC, Ansiedade e Transtornos de Tique na Infância da UCLA.

A ansiedade é frequentemente descrita como uma reação que ocorre mesmo na ausência de ameaça. Mas no momento atual, algumas das ameaças são bem reais. Isso significa que algumas das respostas padrão ao pensamento ansioso podem precisar de ajustes, explica Peris. “Já orientei crianças que apresentavam ansiedade e depressão antes da pandemia, dizendo ‘É normal ficar ansioso em resposta a uma situação nova e assustadora. Suas emoções estão presentes por um motivo, e nossa ansiedade é natural, normal e necessária.’” A chave, disse ela, é encontrar uma maneira efetiva de gerenciar esses sentimentos.

Felizmente, os tratamentos baseados em evidências para ansiedade e depressão podem ajudar as crianças a reconhecerem e lidarem com pensamentos preocupantes, praticarem novas habilidades de enfrentamento em situações difíceis e aliviarem os sintomas físicos. E esses tratamentos não se limitam a crianças propensas à ansiedade – essas são estratégias que todos nós poderíamos usar agora, disse Peris.

À medida que avançamos nesse estranho novo normal, veja algumas sugestões de especialistas sobre como podemos ajudar a saúde mental de nossos filhos.

Transpareça calma, mesmo se precisar fingir

Dar o exemplo é muito importante agora, disse Ty Hatfield, coautor de ParentShift: Ten Universal Truths That Will Change the Way You Raise Your Kids (Mudança na parentalidade: dez verdades universais que irão mudar a forma como você cria os seus filhos) e cofundador do programa de pais Parenting From the Heart. As crianças aprendem conosco como lidar com o estresse e resolver problemas quando as coisas estão difíceis.

Isso significa que os pais devem se cuidar. Se tiver tempo, exercite-se. Tome um banho quente. Escute música. Leia um livro. Escolha algo que funcione para você. E gerencie a exposição às notícias e às redes sociais.

“Assistir às notícias não é cuidar de si mesmo”, disse Hatfield.

Estabeleça uma rotina flexível

Ela não precisa ser detalhada em intervalos de 15 minutos, com cartões didáticos, aulas de francês e belos trabalhos de artesanato. Mas a estrutura faz com que as crianças se sintam seguras, especialmente durante os períodos de turbulência.

“Não seja exigente demais com o cronograma”, disse Peris. “Todos nós já tivemos situações em que nossos filhos interromperam nossas ligações e apareceram no meio de uma chamada no Zoom. É a vida real em toda a sua glória. Mas uma rotina consistente é algo que os pais podem fazer para preservar a saúde mental de todos.”

Seja honesto, mas não conte a eles mais do que precisam saber

Para crianças mais novas, seja sucinto e vá direto ao ponto. Deixe as perguntas da criança orientarem a conversa. Mas seja honesto, Duffy disse: “As crianças ficarão mais ansiosas em qualquer idade se sentirem que você não é previsível”.

Diga a elas o que você sabe e não sabe. Mas equilibre isso, dizendo que muitas pessoas estão trabalhando na situação e o distanciamento social é eficaz para contornar o problema. Tranquilize-as de que estão seguras e protegidas.

E o mais importante, segundo Linda Hatfield, coautora do ParentShift e cofundadora do Parenting From the Heart, é reconhecer os sentimentos delas. Por exemplo: “Parece que você está preocupado com o fato de poder ficar doente.” Ou “Imagino que você esteja triste por não poder brincar com seus amigos hoje”.

“As crianças carregam um conjunto de sentimentos”, diz ela. “Quando você se comunica com elas utilizando uma linguagem sensível, isso as ajuda a se sentir ouvidas, vistas e compreendidas. Isso as ajuda a sentir que o mundo faz sentido, que a outra pessoa as compreende.”

O tempo passado em frente às telas tem seus altos e baixos

Este não é o momento de demonizar as telas. Os pais precisam delas para conseguirem trabalhar. E as telas podem fornecer uma fonte de conexão e conforto muito necessária.

Michelle Icard, autora do livro Middle School Makeover, possui um grupo no Facebook com pais de alunos do ensino fundamental. E na semana passada, ela notou uma tendência interessante nessa faixa etária: um retorno a filmes e programas de televisão do início da infância. Desenhos animados da PBS, por exemplo, ou o filme Annie. “Acredito que este é um momento tão incerto e há grande conforto em voltar a essas coisas da infância”, disse Icard.

Ainda assim, muito tempo nas telas pode deixar as crianças agitadas e ansiosas, diz Duffy. Ele recomenda não mais que duas horas por dia, no início e no fim do dia. A única exceção de Duffy: um filme em família. “Se a família toda estiver assistindo a um filme, você fará algumas piadas, algumas lembranças que podem criar resiliência ao longo do tempo”, disse ele.

Tempo ao ar livre é um antídoto para as telas

“O contrapeso ao tempo passado em frente às telas é o movimento e as atividades físicas”, explica Duffy. Então passe tempo ao ar livre. Caminhe. Corra. Brinque de pega-pega. Construa fortes. Incentive brincadeiras ao ar livre em que é necessário usar a imaginação.

“Eu recomendo os adultos a considerar o que acontece quando ficamos em frente às telas por um longo período de tempo”, disse Duffy. “É possível sentir a tensão e a agitação depois. E o alívio que sentimos quando paramos e nos envolvemos de outra maneira é muito saudável, crucial e importante.”

A boa notícia é que, do ponto de vista da saúde mental, podemos ter outras perspectivas sobre o que está acontecendo agora, disse Emily King, psicóloga licenciada em Raleigh, Carolina do Norte, especializada em autismo, TDAH e ansiedade.

As crianças norte-americanas possuem muitos compromissos, o que pode levar ao estresse e à fadiga, disse ela. Crianças com autismo, em especial, podem se beneficiar com uma pausa na escola, que pode ser demais para elas e talvez até mesmo longa demais.

Para manter nossa família saudável, todos estão sendo solicitados a desacelerar e reavaliar, afirma ela. “É possível que a situação nos leve de volta à nossa essência para entendermos o que é realmente importante.”