Quer tirar fotos mais bonitas nas viagens? Pense como um pintor de paisagens

Com tintas, telas e olhos criativos, artistas revelam como enxergar — e documentar — a natureza e os espaços urbanos.

Por Katy Kelleher
Fotos de Greta Rybus
Publicado 14 de ago. de 2021 07:00 BRT
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O artista Tim Wilson pinta na costa do Maine como parte de um projeto com duração de um ano que documenta os locais ermos deste estado norte-americano.

Foto de Greta Rybus

A natureza não exige sua atenção como fazem os outdoors, ou semáforos, ou as pessoas com suas roupas chamativas e pensamentos íntimos. As paisagens não são estáticas, mas não se movem tão rápido quanto o restante do nosso mundo. Até mesmo as paisagens urbanas, com suas constantes demolições e reconstruções, são o pano de fundo de grande parte da arte que consumimos, seja em vídeo ou fotografia. Mas se pararmos e nos concentrarmos, como fazem os pintores de paisagens, perceberemos que há profundidade no mundo que nos cerca e histórias que se desenrolam nas folhagens, no solo e até mesmo no lixo.

Os pintores de paisagens veem o mundo de maneira diferente da maioria dos turistas. Seus olhos foram treinados para buscar o horizonte, observar a luz e compreender as variações sutis do clima. 

Faz parte do trabalho, explica o pintor Timothy Wilson. Há dois anos, Wilson trabalha em uma série de imagens inspiradas nas paisagens do Fundo Patrimonial da Costa do Maine. Ele já visitou dezenas das reservas naturais mantidas pelo fundo na costa do Maine, pintando em penhascos, ilhas e pântanos — até mesmo no seu caiaque. 

Wilson aproveita os parques como qualquer outro turista, com os olhos abertos para as maravilhas da paisagem acidentada. Mas, em vez de tirar uma foto e publicá-la no Instagram, ele para e monta um cavalete. “Isso me impede de ficar olhando o celular”, conta ele. “Em vez de ficar verificando o aparelho constantemente, eu olho para a paisagem. Fico imerso. É uma sensação maravilhosa.”

Pintores como Timothy Wilson encontram inspiração em cenários ao ar livre, como a costa rochosa do Maine.

Foto de Greta Rybus

Não é preciso ser um artista para admirar as paisagens naturais. Qualquer pessoa pode parar e se maravilhar com o pôr do sol. Mas pensar como um paisagista pode ajudar os turistas a aperfeiçoarem sua capacidade de ver o que está ao redor. Da próxima vez que pegar a estrada, certifique-se de levar com você um caderno — ou até mesmo o celular — para registrar o entorno. Qualquer viagem pode se tornar um retiro para artistas, se você permitir.

Escolha seus passos

Para absorver uma paisagem, seja um deserto ou um pântano, o primeiro passo é encontrar um local com uma perspectiva vantajosa. “Quando estou trabalhando, carrego meu próprio peso e o peso do meu equipamento”, observa Wilson. “Embora eu goste da fluidez da terra, não gosto de caminhar por áreas de areia úmida para chegar até o local onde vou pintar. Gosto de ter chão sólido sob os meus pés.” 

Em vez de se preocupar em afundar na lama ou escorregar em algas marinhas, Wilson coloca seu cavalete no topo de uma colina de fácil acesso, sobre uma rocha plana e seca, ou em um lugar onde as algas já secaram. “Para ser um bom observador da natureza, é preciso escolher o local ideal para se posicionar.”

O mesmo é válido para fotógrafos amadores. Compor uma boa imagem leva tempo, mesmo que for apenas para publicar no Instagram. Vale a pena encontrar um lugar fora da trilha principal, parar e refletir sobre o mundo ao redor.

Wilson frequentemente retrata o mar em suas pinturas, o que confere às suas obras uma linha de horizonte bastante nítida. Embora seu processo seja diferente, a pintora paisagística April Gornik, da cidade de Nova York, também cria imagens fortes e temperamentais que parecem atemporais (e, de vez em quando, um pouco assustadoras). Primeiro, ela observa o mundo ao seu redor; depois, pinta uma paisagem em seu estúdio. “Quando viajamos”, afirma ela, “nos deslocamos deliberadamente. Portanto, precisamos mudar de posição. É saudável para as pessoas.”

Enquanto Wilson escolhe seus passos, literalmente, Gornik defende que os viajantes devam encontrar um lugar tranquilo, uma sensação de conforto em meio ao desconforto. “A paisagem é o outro, o outro derradeiro”, explica ela. “Arte é se arriscar, conhecer, encontrar a si mesmo.”

A maioria dos turistas prefere dias claros e ensolarados, mas o mau tempo também pode ter seu lado positivo. O céu nublado cria uma qualidade de luz diferente, valorizada tanto por pintores de paisagens quanto por fotógrafos de retratos. Paisagens um pouco sombrias e lúgubres aparecem nas obras dos Florida Highwaymen, um grupo de pintores negros de meados do século 20. 

Eles praticavam a chamada “pintura rápida” e vendiam seus trabalhos do porta-malas de seus carros, ao longo das principais rodovias. Frequentemente, capturavam céus tempestuosos, palmeiras castigadas pelo vento, ondas quebrando na costa e rios ligeiramente impetuosos no interior. Os Highwaymen não eram necessariamente caçadores de tempestades, mas seus trabalhos retratavam o estado da Flórida como um ambiente atmosférico turbulento, repleto de calor, água e vida.

O artista Tim Wilson pinta em seu estúdio no Maine (na imagem) e ao ar livre.

Foto de Greta Rybus

Segundo Wilson, olhar para o céu e observar as nuvens é bastante eficaz. “Pintar é uma ciência”, diz ele. “O ar muda o que você vê. Objetos mais próximos têm uma aparência mais quente devido à forma como as partículas de luz refletem. Quando as tempestades vêm, tudo muda.”

Kim Do, pintor de paisagens que mora no Vale do Hudson, no estado de Nova York (mas que já trabalhou em todo o mundo), também diz que “adora retratar o clima em suas pinturas”. Ele acrescenta, “nós, humanos, vivemos no fundo de um oceano de ar. Somos as lagostas do nosso planeta. Olhamos para cima e observamos o clima.” O artista conta que pintar o céu o faz sentir-se conectado aos paisagistas que vieram antes dele, como o famoso pintor britânico John Constable, conhecido por seu jeito temperamental em retratar as nuvens.

Procure cor, encontre beleza 

Noa Charuvi divide seu tempo entre Jerusalém e a cidade de Nova York, dois ambientes urbanos ricos em história e pobres em áreas verdes. No entanto, suas pinturas de paisagens conseguem capturar a energia de ambas as cidades e a vasta beleza de seus edifícios. Durante suas caminhadas diárias pelo Brooklyn, ela frequentemente encontra canteiros de obras, para e tira fotos. “Muitas vezes sou atraída por uma cena porque encontro um enorme potencial para a beleza”, comenta ela. “Nos canteiros de obras, sou atraída por determinadas cores.”

Charuvi ressalta que até mesmo um arranha-céu em construção ou uma zona de demolição é capaz de fornecer um arco-íris de inspiração: o amarelo brilhante da fita que isola as áreas, baldes laranja para misturar cimento, tijolos vermelhos e madeira inacabada em tom dourado. “Os materiais que embalam janelas e materiais para isolamento térmico geralmente são beges, rosa ou azuis”, diz ela. “Tudo começa pela cor.”

Encontrar paletas significa que Charuvi consegue extrair alegria de qualquer cena, não importa quão banal ela seja. Ela também gosta de ver a história conforme ela acontece. As cidades estão sempre mudando. Prédios são demolidos, outros são construídos. Para Charuvi, ao pintar paisagens, é possível “dar sentido ao infinito” que nos rodeia. “Isso nos conecta”, salienta ela. 

É algo de que todos nós podemos nos lembrar quando estivermos explorando o mundo. Há beleza no cotidiano, na decadência, nas ruas movimentadas e nos sinais da vida humana. Você não precisa conseguir uma imagem perfeita da Torre Eiffel toda vez que viajar à Paris — às vezes, é mais interessante capturar os passageiros no metrô ou os pombos nos telhados das casas.

Leve o tempo que precisar

Absorver e capturar o entorno leva tempo. Talvez essa seja a maior lição que os viajantes podem aprender com os pintores. Para fazer arte ou apreciar profundamente um lugar, é preciso diminuir o ritmo para observar, habitar e imaginar. Uma boa foto não é tirada somente porque estamos apreciando uma bela cena. É preciso tempo para descobrir, como diz Wilson, “o feng shui de uma paisagem”.

“O ato de aguardar e contemplar requer treino”, explica Do. “Eu estava pintando em Barbados certa vez e a cada hora mais ou menos chegava um ônibus com turistas. As pessoas desciam do ônibus, tiravam uma foto e iam embora.”

Do passou um dia inteiro naquele local, observando as pessoas irem e virem. Talvez alguns dos turistas tenham conseguido uma bela foto, mas a viagem deles não foi planejada para a contemplação imersiva da qual os artistas tanto gostam. Todos os pintores ouvidos nesta reportagem enfatizaram a importância de deixar o mundo entrar. É preciso absorvê-lo, abraçá-lo e ser abraçado.

“Quando pintamos, adquirimos uma certa consciência do que está ao nosso redor”, comenta Do. “Estamos imersos em nossos ambientes. Isso nos embala, nos envolve. Quando sentimos isso, é quase como se estivéssemos no útero do nosso planeta.” Suas pinturas são evocativas e repletas de detalhes, e quando olhamos para uma das paisagens da série Oculus de Do, nos sentimos imersos. Segundo ele, esse é exatamente o objetivo. É por isso que viajamos, é por isso que fazemos arte. Para ter essa sensação de conexão profunda e intensa.

Tudo isso pode acontecer de repente, mas não acontece depressa.

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