Espaço

Esta pode ser a rocha mais antiga da Terra — e ela foi trazida da Lua

A descoberta é a primeira deste tipo feita pelo homem, ou talvez indique que precisamos repensar a imagem que temos do interior lunar. Quinta-feira, 31 Janeiro

Por Michael Greshko

Cientistas podem ter encontrado a rocha intacta mais antiga da Terra — na Lua. Um estudo publicado na revista científica Earth and Planetary Science Letters informa que uma das rochas coletadas pelos astronautas da Apollo 14 em 1971 contém um fragmento da antiga crosta da Terra, de mais de 4,011 bilhões de anos.

É possível que o fragmento tenha se formado em uma bolsa de magma no interior da Lua antiga, que estranhamente continha água. Mas os autores do estudo acreditam que seja mais provável que a rocha tenha se formado na crosta terrestre de nosso planeta e tenha sido lançada à Lua pelo impacto de um dos diversos meteoros que bombardearam a Terra no início dos tempos.

Nesse caso, o fragmento é uma das rochas mais antigas da Terra já encontrada. Os minerais mais antigos encontrados na Terra são de Jack Hills, na Austrália, e têm até 4,4 bilhões de anos. Contudo, essas datas têm sido alvo de controvérsias, e se realmente os minerais tiverem essa idade, eles são restos de rochas que desintegraram há muito tempo. Por outro lado, o fragmento trazido pelo Apollo 14 é muito mais preservado.

"Tecnicamente é uma 'rocha', ao passo que [os minerais] de Jack Hills são cristais isolados e sem contexto", escreveu por e-mail o principal autor do estudo, Jeremy Bellucci, pesquisador do Museu Sueco de História Natural.

A descoberta complementa o legado científico da missão Apollo, e ainda coloca a Lua como a principal arquivista do sistema solar. Como a Lua é bastante antiga, não possui oxigênio e é geologicamente inativa, sua superfície registra o histórico das colisões ocorridas no início do sistema solar—e provavelmente inclui detritos que foram enviados para lá de outros mundos durante uma colisão. Acredita-se que até 0,5% dos detritos da superfície lunar tenha primeiramente se formado na Terra, e pedaços de outros planetas rochosos, como Vênus ou Marte, provavelmente são lançados à Lua também.

Mas a rocha trazida pela Apollo 14, caso sua origem terrestre seja confirmada, seria a primeira do seu tipo a ser retirada da Lua e levada às mãos dos cientistas.

"Se isso for verdade, é uma descoberta bem fascinante", afirma Cornelia Rasmussen, pesquisadora da Universidade do Texas em Austin, que estuda a química das crateras da Terra formadas por colisões. "Nós não temos nenhum registro de rocha dessa época na Terra, o que significa [que a descoberta] nos abre uma porta para uma época que não podemos realmente estudar aqui".

Cavando fundo

Coletada pelo astronauta Alan Shepard da Apollo 14 em 06 de fevereiro de 1971, a rocha que provavelmente possui um pedaço da Terra—antes batizada de 14321—é uma das maiores que as missões Apollo trouxeram da Lua.

A pedra, que é do tamanho de uma bola de basquete, pesa quase 9 quilos. É um tipo de rocha chamada breccia, uma espécie de colagem formada por pedaços de diversas rochas diferentes e mais antigas. O impacto que formou a cratera Imbrium, uma das gigantes manchas negras no lado próximo da Lua, provavelmente soltou essa grande rocha e a arremessou ao local de aterrisagem da Apollo 14.

A maior parte dos seus componentes, chamados de clastos, possui uma cor escura. Mas um pedaço se destaca por ser estranhamente brilhante, com uma composição semelhante aos granitos encontrados na Terra. Para descobrir a origem dessa parte diferente da rocha 14321, a equipe de Bellucci realizou uma nova amostragem na rocha e focou nos minerais em seu interior, chamados zircônios.

"O zircônio é um mineral incrivelmente duro, robusto e resistente", diz o coautor do estudo David Kring, cientista sênior do Lunar and Planetary Institute. "Então, se a procura for por uma relíquia dos processos geológicos mais antigos, o zircônio é um bom ponto de partida".

Quando a equipe analisou esses zircônios e o quartzo adjacente, foi descoberto que o excêntrico clasto havia se formado em condições que teriam sido bastante estranhas na Lua, na época. Primeiro, os zircônios se formaram em magmas ricos em oxigênio que eram bem mais frios que os magmas normalmente encontrados na Lua.

Além disso, o clasto parece ter se formado sob pressões apenas encontradas na Lua há mais de 160 quilômetros abaixo da superfície. Porém a colisão que, de acordo com os cientistas, pode ter formado a 14321, provavelmente não atingiu mais de 72 quilômetros de profundidade no solo lunar. Se o clasto se formou a uma profundidade tão grande, como ele chegou até a superfície?

Os pesquisadores logo perceberam que as intrigantes propriedades do clasto fariam total sentido se, em vez disso, ele tivesse se formado na Terra. Cerca de 19 quilômetros abaixo da superfície da Terra, os magmas são influenciados por níveis de temperatura, pressão e oxigênio assim como os que formaram o misterioso clasto. Quando Bellucci elaborou um gráfico que comparava os zircônios da Terra com os da Lua, as semelhanças se tornaram claras.

"Foi bem no meio do campo terrestre, e eu disse 'nossa... que incrível!'" conta Bellucci. "A partir daí, tudo virou uma bola de neve".

Procurando por mais amostras

Submeter as amostras a mais pesquisas poderia confirmar a interpretação de Bellucci. Também é possível que outras rochas lunares atualmente no acervo da humanidade contenham pequenos pedaços da Terra antiga.

"Tenho certeza de que iremos achar mais amostras e tenho a impressão que isso irá incentivar outras pessoas da área a fazerem o mesmo", diz Kring.

Amostras recém-coletadas da Lua também ajudariam—e podem logo chegar aqui. Por exemplo, a próxima missão lunar da China, Chang'e-5, deve retornar com amostras. Mas por enquanto, o trabalho realizado nos materiais trazidos pela Apollo está fundamentado. Embora os legisladores dos Estados Unidos tenham chegado a um acordo para financiar o governo dos EUA temporariamente, a interrupção atual prejudicou a vida de muitos cientistas—inclusive dos autores do estudo.

A partir de quinta-feira à noite, afirma Kring, "o meu instituto fechará as portas. Não poderemos fazer a ciência que essa descoberta exige".

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