Areia de Marte parece entrar em ponto de ebulição

Processos geológicos descobertos recentemente podem ajudar a explicar como a água cria canais sazonais nas encostas áridas de Marte.

Durante os últimos anos, cientistas observaram ansiosamente a superfície de Marte, encantados por canais marcados na paisagem que parecem fluxo de água salgada.

Mas um novo estudo mostra que essas formações, e outras parecidas com ela, podem ser esculpidas por um processo que não se parece com nada visto na Terra: água de degelo em ebulição que lança sujeira ao redor como pipoca estourando.

O inesperado processo geológico, descrito na revista científica Nature Geoscience, foi recriado em laboratório durante a simulação de um dia em Marte. A descoberta poderia explicar a cadeia de encostas recorrentes no planeta, canais enigmáticos que fizeram os cientistas planetários coçarem suas cabeças desde sua descoberta em 2011.

A cor escura dos canais, o crescimento gradual e os chãos cheios de depósitos de sal sugerem que a água salgada ainda flui em Marte, potencialmente fornecendo habitats de vida no árido solo marciano.

Mas como exatamente os canais se formam permanece um mistério, principalmente porque a superfície do planeta é extraordinariamente hostil a água líquida. A atmosfera de Marte é seca e mais de 50 vezes mais rarefeita que o ar no pico do Monte Everest.

Nessas condições, a água ferve em temperaturas tão baixas quanto 0ºC, segundo Marion Massé, o novo líder do estudo da Universidade de Nantes, na França.

“O que não temos em Marte são câmeras de vídeo observando essas características, seria incrível se tivéssemos", disse a co-autora do estudo, Susan Conway, da Universidade de Nantes. “Não sabemos o que está acontecendo em pequenas escalas de tempo. Como se formam? Como crescem?”

Sob pressão (só que não)

Para testar como a água flui no canais das encostas marcianas, Massé, Conway e seus colegas colocaram simluaram a situação na Grande Câmara de Marte da Universidade Aberta da Inglaterra. A instalação é uma câmara de descompressão de aço semelhante às usadas por mergulhadores.

Em pressões atmosféricas e temperaturas de cerca de 20°C, água de degelo de um cubo de gelo escorreu por uma rampa revestida com uma fina camada de solo arenoso, escurecendo a areia sem movê-la.

Mas uma vez que a equipe replicou a instalação com as pressões atmosféricas de Marte, algo inesperado aconteceu: a água derreteu, infiltrou-se no solo e então começou a ferver, lançando areia da encosta para uma pilha na frente da linha da água.

Conforme a ebulição continuou, a pilha continuou instável, por fim esparramando pela colina e formando um pequeno cume. A água continuou a fluir colina abaixo, passando o cume e criando pilhas adicionais e picos. Esse processo eventualmente formou canais de cumes elaborados, com cerca 30 centímetros de extensão, que se pareciam muito com linhagens de encosta.

Embora os pesquisadores soubessem que a água iria ferver nas pressões atmosféricas de Marte, seu efeito no movimento de areia os surpreendeu. “Nós não estávamos esperando isso,” disse Conway. “Nós nos esprememos ao redor das câmara, dizendo, ‘Uau, isso é tão legal! Vamos esperar que isso não seja um evento único.’”

O que esperar?

Massé e Conway afirmam que o processo descoberto, que também funciona com água salgada, sugere que mesmo uma pequena quantidade de água pode mover grandes quantidades de areia, e reforça a ideia de que água líquida esculpe a linhagem de encosta, embora talvez não do jeito esperado originalmente.

Os especialistas, porém, estão mais cautelosos principalmente porque o desenho do experimento era bem simplificado. Jennifer Hanley, do Observatório Lowell, especialista sobre como o gelo se comporta em outros mundos, aponta que o experimento foi conduzido com apenas a temperatura ideal do verão marciano. Mas a cadeia de encostas também é formada durante a primavera de Marte, quando as temperaturas da superfície estão mais frias.

Uma grande barreira para resolver de vez o mistério é que não existe um jeito seguro de ver a cadeia de encostas de perto. Mesmo o Mars Reconnaissance Orbiter da NASA (Orbitador de reconhecimento de Marte), que possui a câmera de maior resolução em órbita no planeta, não possui uma visão nítida o suficiente.

E nem pense em usar um rover para olhar mais de perto. A NASA não pode conduzir seus robôs para a cadeia de encostas por causa do risco de contaminar os locais com vida terrestre, acabando com os testes em busca de vida marciana ou até incentivando uma invasão alienígena microbiológica.

“Sabemos de organismos que poderiam viver nesses ambientes altamente salinos", disse Hanley. “É bem tentador, mas como conseguimos ir e olhar essas coisas sem influenciar, ou até introduzir vida?”

Ainda assim, “acredito que seria um bom uso dos dados de laboratório para entender algo que não temos certeza", adicionou. “Definitivamente é algo a ser considerando [quando] ao tentar compreender esses fluxos de líquido."

Siga Michael Greshko no Twitter.

Publicado originalmente em 2 de maio de 2016

Continuar a Ler