Fotografia

Observe a vida dos gatos de rua em diversas partes do mundo

Livro de crônicas fotográficas retrata a 'grande odisseia' dos bichanos de rua, do Marrocos ao Japão. Sexta-feira, 4 Janeiro

Por Kristin Hugo
Fotos de Tuul and Bruno Morandi

Por 18 anos, Tuul e Bruno Morandi fotografaram pessoas, cidades e paisagens ao redor do mundo. Durante suas viagens, sem querer, eles começaram a colecionar fotos de uma outra criatura: gatos de rua com rostos amigáveis.

No livro de Tuul e Bruno, La Grand Odysée des Chats (“A Grande Odisseia dos Gatos", em tradução livre), felinos relaxam em frente às construções azuis de Chefchaouen, no Marrocos, saltam entre ruínas na Grécia e observam curiosamente pescadores no Japão, aguardando por uma oportunidade de se alimentarem dos restos de peixes.

Os próprios Morandis adoram gatos. Na verdade, eles dedicaram o livro a Mujira, o gato deles de 10 anos de idade, que Tuul descreve como "lindo e amigável".

Os dois foram atraídos pelos carismáticos felinos durante suas viagens a trabalho e não conseguiram deixar de fotografar os gatos que avistavam pelo caminho. Quando já tinham acumulado fotos suficientes, eles perguntaram ao editor se poderiam montar um livro. O editor concordou e eles começaram a documentar essas criaturas semisselvagens com um foco diferente.

Os fotógrafos comparam o ato de fotografar gatos ao de fotografar humanos. "Para nós, é quase a mesma coisa", diz Tuul Morandi. "Pois somos um tipo de fotógrafo que gosta de tirar fotos do momento presente, da vida cotidiana nas ruas". Antes de interagirem diretamente com os fotografados, os Morandi tentam capturar momentos autênticos e verdadeiros de pessoas e animais agindo naturalmente. Depois disso, eles conversam com as pessoas e, se os gatos permitem, também acariciam e interagem com os animais.

Os Morandis observaram que os gatos tendem a ter os mesmos hábitos mesmo em cidades diferentes. Contudo, como os humanos, alguns gatos são mais tímidos do que outros. Ao passo que gatos "selvagens" normalmente sentem medo e se distanciam dos humanos, alguns gatos sem dono que vivem nas ruas e nas comunidades são dóceis. "Às vezes, os gatos são realmente tímidos, mas, no Japão, a maioria dos gatos que conhecemos são sociáveis", afirma Tuul. "Eles sabem que os humanos são bons. Talvez seja o relacionamento que eles têm com as pessoas que os alimentam". 

No Japão, as pessoas são especialmente boas com os gatos, que até mesmo têm um "relacionamento especial" com os pescadores, conta Tuul. Acredita-se que os animais trazem sorte e há templos onde as pessoas podem adorá-los. Os gatos são uma espécie de atração turística—o país tem cerca de doze "ilhas de gatos".

Cultura, religião, história e lendas fazem parte da percepção que o público tem dos gatos de rua. Acredita-se que o profeta Muhammad dava sermões com seu amado gato Muezza no colo e quando ele percebia que o animal dormia sobre suas vestes, cortava as mangas de seu manto em vez de perturbar Muezza. "Em grande parte dos países islâmicos, como Marrocos e [Turquia], as pessoas têm um relacionamento especial com os gatos", explica Tuul, "porque o profeta amava, amava gatos".

Contudo, nem todos gostam de gatos de rua. Na maioria dos lugares, gatos selvagens são considerados predadores invasivos e podem prejudicar a vida silvestre local, para a preocupação dos ambientalistas. Sabe-se que gatos que vivem fora de casa matam muitos animais silvestres e, em 2013, um estudo com uma meta-análise publicado na revista científica Nature Communications tentou quantificar o número de mortes. O estudo sugeriu que gatos domésticos com acesso livre às ruas matam de 1,3 a 4 bilhões de pássaros e de 6,3 a 22,3 bilhões de mamíferos por ano nos EUA.

O estudo, entretanto, foi controverso e os resultados foram criticados e considerados "precários" por alguns. Isso porque não há registros formais da quantidade de gatos que vivem nas ruas dos EUA, e estudos sobre o comportamento dos felinos tendem a ser realizados em locais com uma densidade extraordinariamente alta desses animais. Desta forma, obter uma estimativa precisa é quase impossível. Em um outro artigo, pesquisadores acreditam que essa controvérsia exista porque os amantes dos gatos estão "negando a realidade".

Para manter a população de gatos de rua sob controle, algumas organizações utilizam programas Trap, Neuter, Return, ou TNR (programas de castração e devolução de animais). Voluntários castram animais de rua que não conseguem um lar permanente e, assim, os gatos podem viver tranquilamente nas ruas sem se reproduzirem. Em teoria, programas de castração realizados em quantidade suficiente levariam a uma lenta e pacífica extinção de gatos de rua ou pelo menos estabilizariam a população. Entretanto estudos descobriram que os gatos se reproduzem tão rapidamente que programas de castração somente seriam eficazes se 75 por cento ou mais dos gatos em uma determinada área fossem castrados por ano.

Apesar da controvérsia ao redor do impacto ambiental causado pelos gatos, pessoas em todo o mundo gostam da companhia dos felinos. Em Lamu, uma ilha próximo à costa do Quênia, gatos de rua fazem parte da história e da cultura do local. Na Grécia, os animais são protegidos por lei. Nas fotos dos Morandi em que pessoas aparecem, ou elas estão casualmente ignorando os animais ou estão ativamente os acariciando e os segurando no colo.

"Os gatos [fazem] parte da vida dessas pessoas nas ruas", conta ela.