Esta médica salvou milhares de pessoas em um hospital subterrâneo na Síria

Durante a devastadora guerra civil, Amani Ballour atendeu vítimas de ataques aéreos e químicos, e as lembranças a atormentam ainda hoje. História deu origem ao documentário "The Cave", indicado ao Oscar®.segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

O BARULHO DE um trovão; um avião sobrevoando; uma batida na porta. Amani Ballour tem medo de barulhos altos. Os sons a lembram dos aviões de combate e dos grandes bombardeios que a fizeram fugir com relutância da Síria, seu país natal, em 2018.

A pediatra de 32 anos não encontra alento no silêncio de seu apartamento de poucos móveis, em Gaziantep, na Turquia. Na quietude, ela se lembra dos jovens pacientes que chama de “minhas crianças”, daqueles que sobreviveram e de muitos outros que não.

Por dois anos, de 2016 a 2018, Ballour administrou um hospital de campanha subterrâneo conhecido como Caverna (“The Cave”, em inglês), em sua cidade natal, Ghouta Oriental, perto de Damasco, a capital síria. Lá, ela testemunhou crimes de guerra, incluindo o uso de armas químicas e bombas de cloro, além de ataques aéreos a hospitais, que tinham como alvo locais de refúgio e pessoas que já estavam feridas.

“Não havia local seguro”, diz Ballour. “Imagine ser vítima de um ataque aéreo, você é tratado no hospital e depois bombardeado lá também. O hospital foi atingido muitas vezes. Perguntaram-me quantos ataques. Acredite, eu não consegui contar todos.”

A história deu origem ao documentário The Cave, produzido pela National Geographic e dirigido por Feras Fayyad. O filme está indicado ao Oscar® de melhor documentário em 2020, e a cerimônia de premiação ocorre no domingo, 9 de fevereiro. Em 2018, Fayyad foi indicado ao Oscar® por Últimos Homens em AleppoThe Cave, produzido por Kirstine Barfod e Sigrid Dyekjær, narra a angustiante história de Ballour, que luta para oferecer tratamento e conforto em um hospital subterrâneo em meio à guerra.

Como administradora da Caverna, Ballour era responsável por uma equipe de cerca de 100 pessoas em uma cidade sitiada por tropas leais ao presidente sírio Bashar al-Assad. Durante anos, itens essenciais, como alimentos e suprimentos médicos, foram restritos ou proibidos de entrar na cidade rebelde de Ghouta Oriental, parte do sistema ditador de “submissão ou fome” de Assad, forçando Ballour e outros a contrabandearem mercadorias.

Os aviões de guerra de Assad e, a partir de setembro de 2015, os aviões de combate da Rússia fizeram o hospital se esconder ainda mais no subsolo, em um labirinto de túneis e bunkers.

Não perca: The Cave, no National Geographic
O documentário indicado ao Oscar® estreia 3 de fevereiro, às 21h.
The Cave estreia 3 de fevereiro, às 21h, no National Geographic. Reprises 4 de fevereiro, às 23h20; 7 de fevereiro, às 21h45; 8 de fevereiro, às 23h20; e 9 de fevereiro, às 18h.
 

A filha mais nova de uma família de três meninas e dois meninos, Ballour diz que desde a infância sonhava em “fazer algo diferente”, em vez de se tornar uma dona de casa como suas irmãs mais velhas, que se casaram na adolescência ou ainda na casa dos 20 anos de idade. Com vontade de estudar engenharia mecânica, ela se matriculou na Universidade de Damasco. Mas a pressão da sociedade e a oposição de seu pai a levaram a mudar para o curso de medicina, uma disciplina que era considerada “uma carreira mais apropriada para uma mulher, mas no campo da pediatria ou ginecologia”, ela conta.

Ballour escolheu tratar crianças e ignorou os diversos críticos que, zombando dela, diziam “‘pendure seu diploma na cozinha quando se casar.’ Eu ouvi essa frase tantas vezes”.

Em 2011, quando a onda de protestos árabes pacíficos chegou à Síria, Ballour estava cursando o quinto ano de medicina e faltava um ano para ela se formar. Os protestos rapidamente chegaram a Ghouta Oriental. Ballour participou de uma manifestação, mas não contou à família, certa de que seus pais “teriam sido um milhão por cento contra [porque] estavam com muito medo de que algo pudesse acontecer comigo”. Em outro protesto, ela filmou breves trechos, mas ficou com medo de divulgá-los. “Eu tinha pavor de ser presa”, diz ela. Ainda assim, a experiência foi emocionante. Parecia “que eu estava respirando liberdade, foi incrível. Foi tão empoderador dizer simplesmente “não” ao que estava acontecendo nesse país que havia sido governado por um único regime por décadas”.

Até aquela época, os Assads — Bashar e seu antecessor, seu pai Hafez — haviam governado a Síria com mão de ferro por mais de quatro décadas. Ballour se lembra que quando criança sabia que “era proibido falar de certas coisas e mencionar o nome do presidente, Hafez al-Assad, com qualquer outro intuito que não fosse elogiá-lo [porque] as paredes tinham ouvidos”. Ela sabia pouca coisa sobre o massacre de Hama de 1982, quando as forças de Hafez al-Assad mataram milhares de pessoas, insurgentes e civis, em uma insurreição islâmica de curta duração. “Meus pais não nos contaram sobre o massacre de Hama, mas deveriam ter contado”, diz ela.

Quando Bashar al-Assad sucedeu seu pai em 2000, Ballour se perguntou por que os sírios não poderiam eleger um líder com um sobrenome diferente. “Quando perguntei, me disseram para ficar quieta, pois alguém poderia nos ouvir”, diz ela. “Foi muito assustador.”

Enquanto o estado sírio reprimia violentamente os protestos, espancando manifestantes com bastões semelhantes a chicotes e disparando gás lacrimogêneo e balas reais em direção à multidão, Ballour se envolveu na situação, que ficava cada vez pior, mas não como manifestante. Nos primeiros anos da revolução síria, as forças de segurança frequentemente vasculhavam os hospitais em busca de manifestantes feridos. Aqueles que procuravam tratamento médico corriam o risco de serem presos — desaparecendo nas prisões do regime — ou pior, poderiam acabar mortos no local. Clínicas secretas surgiram silenciosamente em casas, mesquitas e outros lugares.

Ballour se lembra de ter sido chamada em casa pelos vizinhos para tratar seu primeiro paciente, que havia sido ferido em um protesto. Foi no final de 2012 e ela havia acabado de se formar. “Era um menino que havia levado um tiro na cabeça. O que eu poderia fazer por ele? Ele estava morto”, ela diz. “Ele tinha cerca de onze anos”.

Seu primeiro trabalho como voluntária não remunerada foi tratar feridos em um hospital de campanha instalado em um prédio não acabado que, de acordo com o regime, seria um hospital. Ela era uma dos dois médicos em tempo integral que trabalhavam lá. O outro era o fundador da clínica, Salim Namour. Cirurgião geral, 26 anos mais velho que Ballour, Namour se lembra de ter conhecido a jovem logo após ela se formar. “Ela se apresentou e se ofereceu para ajudar”, lembra Namour. “Muitos médicos experientes estavam fugindo em busca de segurança, mas aqui estava essa jovem formada que escolheu ficar para ajudar.”

Na época, a instalação consistia em uma sala de cirurgia e um pronto-atendimento no porão. Em breve, o local seria expandido, ganhando uma rede de abrigos subterrâneos e seria conhecido pelos moradores como Caverna. Foram acrescentadas enfermarias, incluindo pediatria e medicina interna. Mais médicos, enfermeiros e voluntários se uniram à iniciativa. O hospital tinha máquinas e equipamentos que haviam sido retirados de hospitais danificados perto das linhas de frente e suprimentos médicos contrabandeados pagos por ONGs internacionais e sírias na diáspora.

Ballour não era cirurgiã de traumatismo, mas quando as vítimas chegavam, até veterinários e oculistas tratavam os feridos. Ela teve que aprender rapidamente, não apenas medicina de emergência, mas como lidar com os horrores de uma guerra selvagem. As primeiras vítimas em massa que ela viu foram corpos carbonizados. Mesmo anos depois, ela consegue se lembrar claramente “do cheiro de pessoas queimadas a ponto de não serem mais reconhecidas, e algumas ainda estavam vivas. Foi a coisa mais chocante que presenciei na época, ainda não tinha experiência, era recém-formada. Fiquei tão chocada que não consegui fazer o meu trabalho. Mas então vi muitos massacres, muitas mortes e mergulhei no trabalho”.

Em 21 de agosto de 2013, Ballour e seus colegas dedicados enfrentaram um novo horror: armas químicas. O ataque de Sarin a Ghouta Oriental matou centenas de pessoas. Ballour se lembra de correr para o hospital na calada da noite, passando por pessoas mortas e vivas, esparramadas no chão, para chegar à sala de suprimentos e começar a tratar os pacientes. “Não sabíamos exatamente o que era, apenas que as pessoas estavam sufocando. Todos eram considerados casos de emergência. Um paciente que está sufocando não pode esperar e todos estavam sufocando. Salvamos aqueles que conseguimos. E aqueles que não conseguimos atender a tempo, morreram. Não conseguimos dar conta.”

No ano seguinte, Namour formou um conselho médico local com os 12 médicos restantes e eles atendiam uma população de cerca de 400 mil pessoas presas em Ghouta Oriental. O conselho incluía dois dentistas e um oculista. Nem todos os membros do conselho trabalhavam na Caverna, mas juntos decidiram eleger um administrador para o local que ficaria no cargo por seis meses, com possível prorrogação para um ano. No final de 2015, Ballour decidiu se candidatar. “Não via por que não poderia atuar como administradora, principalmente se fosse apenas devido ao fato de eu ser mulher. Eu sou médica e eles (os dois administradores anteriores) são médicos. Eu sempre estive no hospital desde o primeiro dia, sabia o que era necessário, tinha ideias para expandi-lo, tinha um plano.”

Seu pai e irmão se opuseram, considerando que Ballour já passava todos os dias e muitas noites na Caverna. “Meu pai temia por mim, mas eu não podia voltar para casa”, diz Ballour. “Não havia médicos suficientes. Ele me disse que as pessoas não me aceitariam, que eu enfrentaria muitos problemas. No dia seguinte, me candidatei e fui eleita administradora do hospital.”

Ballour assumiu o cargo no início de 2016, alguns meses depois que os ataques aéreos aumentaram com a chegada da Força Aérea Russa no céu de Ghouta Oriental. A reação de alguns pacientes e de seus familiares foi rápida e previsível. “O que ouvi de muitos homens foi: ‘O quê? Ficamos sem homens no país, por isso uma mulher foi nomeada?’ Uma mulher. Eles não diziam uma médica, mas uma mulher.”

Uma mulher delicada e gentil, com um rosto que lembra um retrato renascentista, Ballour enfrentou homens conservadores patriarcais — principalmente pacientes e seus parentes — que desafiavam sua autoridade para administrar um centro médico em tempos de guerra.

“Eu costumava responder de maneira enfática”, diz ela, referindo-se aos homens que lhe diziam que seu lugar era em casa. “Eu não ficava em silêncio porque quando você tem razão, você tem razão. Alguns dos homens diziam que era perigoso, que a área estava cercada, que era um trabalho difícil que deveria ser feito por um homem. Por quê? Uma mulher também pode fazer, e eu o fazia.”

Ela recebeu total apoio da equipe do hospital, incluindo Namour. “Não podia aceitar essa conversa [sexista]”, diz ele. “Eu dizia aos homens: Ela está aqui conosco, trabalhando dia e noite sempre que precisamos dela, enquanto alguns dos médicos homens que conhecemos fugiram para áreas controladas pelo regime para trabalhar em segurança. Quem você prefere? Não se trata de gênero, mas de ações e habilidades, e a Dra. Amani trouxe muitas mudanças positivas para o hospital.”

Ballour expandiu a Caverna, aprofundando seus bunkers e cavando túneis com interligação a duas pequenas clínicas médicas na cidade — e ao cemitério. “Precisávamos enterrar os mortos, mas era perigoso demais na superfície”, diz ela. “Não conseguíamos nos movimentar acima do solo.”

Conforme o cerco fechava e os aviões faziam barulho no alto, Ballour podia simplesmente sair pelos túneis, mas ela não o fez. “Como eu poderia sair?”, diz ela. “Por que eu estudei medicina e foquei nas crianças se não para ajudar as pessoas? Estar lá quando elas precisam de mim, e não sair quando eu achar conveniente.

O número diário de vítimas chegou a centenas. O hospital era alvo frequente de ataques aéreos que abalavam as estruturas da Caverna, uma vez destruindo uma ala, matando três pessoas e ferindo outras. Em uma ocasião, Ballour havia acabado de sair de uma ala para o corredor quando foguetes atingiram o local atrás dela. “Eu não conseguia ouvir nada nem enxergar nada. O corredor estava cheio de poeira espessa suspensa no ar.” Quando a poeira se dissipou, ela encontrou seus colegas mortos: “Seus corpos estavam em pedaços.”

Ambulâncias foram atingidas e equipes de resgate foram mortas enquanto tentavam remover os feridos. A última tentativa de Assad em Ghouta Oriental, em fevereiro de 2018, incluiu um ataque químico com cloro. “O cheiro de cloro era devastador”, lembra Ballour. “Não tenho palavras para descrever como era, o que passamos, mas quero que as pessoas entendam por que partimos. As pessoas estavam cansadas e com fome. Muitos se renderam, incluindo combatentes que largavam suas armas e iam em direção aos soldados do regime. O exército estava chegando cada vez mais perto de nós. Eles não estavam longe, tivemos que fugir. A gente tinha medo de que nos matassem caso chegassem até nós.”

Uma Comissão de Inquérito da ONU sobre a Síria relatou posteriormente que as forças sírias e aliadas cometeram crimes de guerra e crimes contra a humanidade durante o cerco e a retomada de Ghouta Oriental. Os métodos de guerra de Assad em Ghouta eram “bárbaros e medievais”, afirmou o relatório da ONU, incluindo “o cerco de maior duração da história moderna, que existiu por mais de cinco anos”.

Em 18 de março de 2018, Amani Ballour e sua equipe evacuaram os feridos e abandonaram a Caverna, mas antes a médica passou em todas as salas para se despedir. “Pensei em todas as pessoas que passaram pelo hospital. Eu era criança quando o prédio que se tornaria o hospital foi construído e mais tarde trabalhei nele por seis anos. Fomos sitiados lá, atacados, salvamos e perdemos vidas naquele lugar. Eu tenho tantas lembranças, a maioria dolorosa, mas também tivemos bons momentos. Foi extremamente doloroso deixar o hospital.”

Ela foi embora com nada além de algumas roupas em uma mochila, deixando para trás o querido jaleco branco que usava desde que era estudante de medicina. “Estava tão ensanguentado que eu não pude levá-lo comigo”, lamenta ela. “Foi muito especial para mim.”

Ballour e vários membros de sua família e colegas, incluindo Namour, inicialmente fugiram para a vizinha Zamalka, um subúrbio de Damasco, mas também houve bombardeios por lá. Dez dias depois, Ballour estava novamente em movimento, desta vez para a província de Idlib, no noroeste da Síria, na fronteira com a Turquia, o último local comandado pelos rebeldes no país. Ela nunca havia estado em Idlib antes. Ela passou de cidade em cidade na província, mas não havia como escapar dos aviões de guerra.

Ela se ofereceu para ajudar um pediatra no hospital de campanha de um vilarejo, mas não conseguiu ficar mais do que algumas horas nas instalações. “Quando olhei para as crianças em Idlib, lembrei-me das minhas crianças e do que aconteceu com elas. Eu não conseguiria passar por isso de novo. Estava esgotada psicologicamente e cansada.”

Em Idlib, ela também estava cansada de ouvir pessoas, principalmente combatentes islâmicos, culpando a ela e outros em Ghouta Oriental pelo que eles chamaram de “rendição” ao regime. Depois de três meses em Idlib, ela fugiu para Gaziantep, na Turquia, em junho de 2018. Ela se casou com uma ativista de Daraa, com quem se comunicava enquanto estava em Ghouta, mas que nunca havia conhecido.

Agora, ela está segura, mas não está feliz. O sol do inverno atravessa as janelas de seu apartamento. Ela não está mais no subsolo, mas vive com a amargura de ser refugiada em uma terra estrangeira, lutando para suportar o fardo das circunstâncias as quais ela sobreviveu e com lembranças daqueles que não sobreviveram, principalmente as crianças.

“Fecho os olhos e consigo vê-las”, diz ela. “Há crianças que não consigo esquecer, é impossível esquecê-las. Havia crianças que eu tratava na pediatria (devido à asma e outras doenças) e depois as via feridas. Era como trabalhar em família. Eu não conseguia olhar nos olhos delas durante o atendimento. Às vezes eu não aguentava, desmoronava.”

Ela ainda tem pesadelos e cada barulho mais alto a faz lembrar de um avião de guerra. Ela conta que durante as tempestades, se o marido não estiver em casa, ele liga para ela para tranquilizá-la, afirmando que o barulho não é de um ataque aéreo. Ela conta as conversas que teve com alguns de seus jovens pacientes, como Mahmoud, de cinco anos, que perdeu uma mão ao ser atingido por estilhaços, e, chorando, perguntou a Ballour por que ela havia cortado sua mão. “O que eu poderia dizer quando ele me perguntou isso? Eu chorei muito naquele dia.” E também teve um garoto que perdeu o braço na altura do ombro. “Ainda posso ouvi-lo me chamar, me pedindo para ajudá-lo.”

Na Síria, diz Ballour, ela se sentia útil, como se estivesse fazendo a diferença. “Aqui, às vezes sinto que não sou nada.” Ela passa seus dias trabalhando como voluntária em um grupo de mulheres sírias e estuda inglês na esperança de imigrar para o Canadá. Ela já enviou diversos pedidos de visto, mas todos foram negados.

“Honestamente, a palavra refugiado é um rótulo difícil de assumir. Amo meu país, meu lar, minha vida na Síria, minhas lembranças, mas por que nos tornamos refugiados? As pessoas devem perguntar o que há por trás da palavra “refugiado” e por que fugimos. Sou uma refugiada porque fugi da opressão e do perigo. Eu não queria ter ido embora. Preferiria ter ficado em Ghouta, apesar de tudo. Fomos sitiados e bombardeados, mas persistimos por seis anos, não queríamos sair. Foi um momento extremamente difícil. ... Desejo que as pessoas que apenas nos olham como refugiados perguntem do que fugimos e por que saímos. É uma palavra dolorosa, mas não tive escolha. Acredito que não tive escolha.”

Ballour pretende continuar praticando medicina, mas não como pediatra. Em vez disso, ela planeja mudar para a radiologia e justifica: “Não tenho mais condições psicológicas de atender pacientes, principalmente crianças”. É um sentimento que Namour entende. “Sou cirurgião e passei a vida em salas de cirurgia, mas depois da amarga experiência pela qual passamos, depois da desumanidade e do sofrimento que vimos em Ghouta, não suporto ver sangue ou estar em uma sala de operações,” conta ele, “embora, para mim, a cirurgia seja uma técnica, como um pintor trabalhando em um retrato. Nós sobrevivemos a dias muito difíceis.”

Ballour está encontrando outras maneiras de ajudar seu povo. Ela está envolvida em um fundo, chamado Al Amal (Hope), para apoiar líderes mulheres e trabalhadoras médicas em zonas de conflito. Ela é uma forte defensora que acredita ser necessário ajudar os milhões de sírios deslocados que vivem em cidades-tendas na Síria e os milhões que se tornaram refugiados para além da fronteira de seu país.

A guerra na Síria deixou de ser retratada nos jornais, mas Ballour está determinada a contar para as pessoas sobre as atrocidades que ela testemunhou em uma guerra de quase nove anos que está longe de terminar. “Não quero contar histórias para fazer as pessoas chorarem e ficarem chateadas, quero que elas ajudem”, diz ela. “Ainda existem tantas pessoas que precisam de ajuda.”

E depois, há a questão da justiça. A criança cujos pais estavam com muito medo de lhe contar sobre o massacre de Hama é agora uma médica determinada a divulgar amplamente seu testemunho dos ataques químicos a Ghouta Oriental. “Devo contar o que eu sei a organizações que, um dia, esperançosamente, considerem o regime responsável por esse crime”, diz ela. “Eu presenciei. Aconteceu.”

“A única coisa que me ajuda é saber que estávamos do lado certo, do lado certo da história, porque fomos contra a injustiça”, afirma ela. “Minha consciência está limpa. Eu tinha um dever para com as pessoas e o cumpri da melhor maneira possível, com os recursos que tinha à disposição. Contudo, às vezes, me arrependo de ter saído e me culpo, mas depois digo que não tive escolha. Essa é a verdade sobre os sentimentos conflitantes dentro de mim. Eu tentei ajudar, e isso me ajuda, o fato de eu ter me envolvido com trabalho humanitário.”

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