“Esta sou eu, como realmente sou”: fotógrafa registra sua própria transição de gênero

Em 2015, Allison Lippy compreendeu quem ela sempre foi, e registrou a si mesma pela câmera para entender sua jornada como mulher transgênero.

Dois momentos diferentes: uma imagem do meu rosto em período pré-operatório à esquerda, retratando meu antigo eu em 2014, e um rosto já no período pós-operatório à direita, tirada em 2018, após minha cirurgia de feminização facial. As fotos representam pontos de chegada e partida de uma jornada representada pela transformação de uma imagem e as mudanças que estão por trás de todo o processo. Usar a arte como uma forma de dar sentido ao que eu passei e para a trajetória pela qual estava passando foi terapêutico e me deu uma nova percepção.

Foto de Allison Lippy
Por Allison Lippy
Publicado 30 de jun. de 2022 14:48 BRT

Demorei 27 anos para perceber que eu era transgênero e mais um ou dois meses para decidir realizar a transição física. Levei ainda menos tempo para entender que deveria registrar minha transformação — para mim mesma e para qualquer outra pessoa que precise vê-la.

Vou começar a contar minha história do início.

Aos 27 anos, esta fotografia (à esquerda) marcou o primeiro dia da minha transição, em 7 de abril de 2015. A foto do meio, tirada em 18 de maio de 2015, revela uma desconexão entre mim e meu antigo eu. A fotografia à direita, tirada em 25 de julho de 2015, representa minha compreensão da pesquisa de que hormônios e bloqueadores hormonais causariam mudanças físicas. Não sabendo como isso afetaria meu corpo especificamente, havia uma profunda ansiedade do desconhecido, pois os resultados variam de pessoa para pessoa.

Foto de Allison Lippy

Crescendo em Baltimore na década de 1990 e início da década de 2000, eu não sabia que as pessoas poderiam ser outra coisa além do gênero que lhes foi atribuído no nascimento. Não havia recursos ou referências naquele momento para que eu pudesse compreender quem eu era. 

No entanto, havia pequenos indícios queer, um sentimento de ser diferente, algo intangível. Eu nunca compartilhei nem tive a oportunidade de explorar esses sentimentos até meus 20 e poucos anos. Quando eu tinha 21 anos, me deparei com vídeos de mulheres trans no YouTube falando sobre suas transições. Voltava aos vídeos de tempos em tempos para ver suas atualizações, o que me deixava curiosa. Eu dizia a mim mesma que isso era apenas uma pesquisa para uma história que eu queria escrever sobre identidade trans. Eu ainda não estava pronta para confrontar a verdade sobre mim mesma.

Em 22 de agosto de 2015, eu estava muito empolgada; queria registrar a minha evolução durante um longo período. 

Mudei-me para Nova York em 2011. Manter minha mente e corpo ocupados trabalhando na indústria fotográfica me distraiu da introspecção. Em 2015, eu estava sentada no consultório da minha terapeuta quando ela casualmente mencionou uma pessoa — uma celebridade que se assumiu trans. Não me lembro qual era o contexto dessa conversa. Eu acho que nem estava prestando atenção ao que ela estava dizendo. Mas eu me lembro de ter pensado: “nossa, que interessante”.

Esse comentário banal foi a faísca que me forçou a parar de ignorar o que estava me incomodando tanto em meu subconsciente. Quando estava em casa, sozinha com meus pensamentos, refletia sobre minha identidade. E eu me perguntei várias e várias vezes: “será que eu sou trans? Eu sou uma mulher?”, e respondia a mim mesma que provavelmente não. Então eu pensei: “talvez eu seja”. Minha concepção mudava toda hora, mas com o passar dos dias e semanas, a resposta ficou clara: “Sim, eu sou mulher”.

Finalmente, percebi que precisava aceitar quem eu era.

 

À esquerda: No alto:

2 de janeiro de 2016. Houve dias em que eu senti profundamente o peso da discrepância entre como eu me via na esfera física e como isso não se alinhava com minhas expectativas. 

À direita: Acima:

26 de março de 2016. Os efeitos que os hormônios produzem no corpo humano por si só, sem intervenção cirúrgica, podem ser bastante significativos. Com o passar do tempo, minha pele começou a amolecer, o tecido mamário começou a se desenvolver e as diferenças físicas se tornaram mais visíveis.

fotografias de Allison Lippy
Desde o início da hormonioterapia, passando pelas cirurgias de feminização facial e mudança de sexo, meu corpo passaria por suas mais extremas transformações. As que se seguiram ocorreram entre 2015 e 2017.

Toda a confusão que eu sentia fez sentido; todas as peças do quebra-cabeça se encaixaram pela primeira vez. Tudo simplesmente se encaixou. Confiante e animada, comecei a me mover mais rápido para recuperar o tempo perdido.

Fui primeiro ao meu terapeuta, para ouvir sua opinião, e depois à minha mãe, que foi minha rocha durante toda a minha transição. Tenho a sorte de que todos na minha vida — incluindo meus pais, irmão e amigos —realmente aceitaram.

À esquerda: No alto:

20 de abril de 2016. Cinco dias depois de passar por um procedimento invasivo e doloroso conhecido como cirurgia de feminização facial (CFF), apontei a câmera para mim mesma. Essa cirurgia altera a estrutura óssea para remover os traços formados pela testosterona para moldar o crânio no desenvolvimento fetal. Ainda vendo elementos de minhas antigas características, percebi que levaria um tempo para meu “novo” rosto se estabelecer sobre meu crânio reconstruído.

À direita: Acima:

28 de maio de 2016. Este é o primeiro vestido que eu tive, ganhei de presente de outra mulher e amiga trans. Quando eu ainda não estava nem no meio do caminho da minha transição, eu me sentia como um trabalho inacabado ambulante. 

fotografias de Allison Lippy
À esquerda: No alto:

22 de maio de 2017. Deixei de cortar meu cabelo por algum tempo, e demorou um pouco para que ele crescesse até um comprimento em que eu me sentisse mais confortável. Ter um corpo feminino não é a totalidade de quem eu sou. Para mim, ser uma mulher feminista é ser um indivíduo, onde escolho meu próprio caminho do que é certo para mim e para o meu corpo.

À direita: Acima:

Autorretrato. 

 

fotografias de Allison Lippy

Fundamentalmente, devo minha própria existência aos meus ancestrais trans, especialmente pessoas queer indígenas, negras, asiáticas, latinas e POCs. Eles estavam nas ruas e em nossas comunidades fazendo o trabalho duro, abrindo caminho para o resto de nós descobrirmos e vivermos autenticamente como realmente somos. Pioneiras, como Marsha P. Johnson, Sylvia Rivera e inúmeras outras, se levantaram e lutaram por nossa comunidade em um momento em que a visibilidade e a representação eram praticamente nulas.

Poucos meses depois de me assumir, comecei a tomar hormônios — e a produzir autorretratos. Fotografar a mim mesma foi uma maneira de entender onde comecei e aonde iria chegar. Como fotógrafa, nunca tendo visto imagens positivas de pessoas trans quando criança, senti que tinha a responsabilidade de contar minha história através da minha própria perspectiva queer.

29 de maio de 2022. Sendo uma mulher trans, que por acaso também é fotógrafa, percebo a importância da autorrepresentação e como isso pode ser uma ferramenta poderosa na narrativa. Ver a história de uma pessoa queer de sua própria perspectiva lança luz sobre o que de outra forma poderia passar despercebido.

Não tenho a intenção de representar todas as pessoas trans. Assim como não há uma forma específica de ser humano, não há uma maneira certa ou errada de realizar a transição. Cada um de nós trilha seu próprio caminho.

Meu caminho foi a transição médica. Em 2016, passei por cirurgias de feminização facial e redesignação de gênero. A cirurgia de feminização facial reconstruiu meu crânio, raspando o osso para remover os traços moldados pela testosterona. Embora isso possa parecer extremo, imagine descobrir quem você realmente é e depois olhar no espelho e ver outra pessoa. As cirurgias foram dolorosas, mas a jornada para ser você mesmo sempre inclui alguma dor, às vezes mental e física.

É difícil olhar para as fotos antigas da família agora. Eu gostaria de ter sido eu antes. Mas quando olho as fotos do início desse projeto, vejo uma pessoa que está em uma jornada para ser quem realmente é. E quando vejo as fotografias do fim da trajetória, penso: “Esta sou eu, como realmente sou. Não tenho arrependimentos”.

Allison Lippy é uma fotógrafa do Brooklyn cujo trabalho explora a convergência de identidade, cultura e ciência em espaços de transição. Siga-a no Instagram

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