Meio Ambiente

Como o gado pode ajudar a salvar os pássaros das Grandes Planícies

Fazendeiros e ambientalistas se unem para controlar o declínio de pradarias e pássaros canoros. Terça-feira, 8 Janeiro

Por Molly Loomis

É UM ABAFADO dia de verão na região central de Montana, nos Estados Unidos. Aqui, no coração do Big Sky country, não importa quão quente esteja, jeans azul e botas de cowboy são a regra para se proteger contra o vento chicoteante e a ameaça de nuvens de tempestade que se materializam sem aviso no horizonte.

O fazendeiro Bill Milton examina suas terras com o biólogo de vida selvagem Dan Casey, a partir de uma acidentada estrada de terra delineada na paisagem salpicada de verde e dourado, a 80 quilômetros de Billings. Correndo pela estrada no Prius de Casey, estamos na margem ocidental das Grandes Planícies do norte, onde pradarias de grama baixa já dominaram a paisagem. Casey aponta para um pássaro do tamanho de uma maçã do lado direito da estrada.

É uma escrevedeira-de-peito-preto, cujos machos exibem peito de cor preta brilhante, adornado por um colarinho em marrom intenso. Antigamente, o animal era abundante nas pradarias de grama baixa e mista que costumavam ser aparadas naturalmente por bisões e incêndios florestais. Contudo, a população de escrevedeirasreduziu em mais de 80 % nos últimos 50 anos.

Não é apenas essa espécie que está com problemas, diz Casey, coautor do volume Birds of Montana (Pássaros de Montana, em tradução livre), mas também o grande plano de gestão de aves do estado. Segundo Casey, desde 1970, os pássaros canoros do campo das Grandes Planícies reduziram em quase 70 %,  um colapso que compete com aquele da população de insetos e peixes marinhos. As mudanças climáticas, práticas desatualizadas de pastoreio e a urbanização são fatores definitivos que contribuem para o declínio, mas a intensificação da agricultura é a principal responsável.

Felizmente, há um reconhecimento cada vez maior do problema, e alianças historicamente improváveis estão se formando entre conservacionistas como Casey e fazendeiros como Milton—que podem beneficiar todos os lados. Um exemplo é o Northern Great Plains Joint Venture (NGPJV), um grupo de 15 entidades cujo objetivo é proteger e restaurar os habitats de pássaros nativos, coordenado por Casey. Liderado pelo Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos, 21 outras Joint Ventures abrangem a América do Norte.

"Precisamos que mais pessoas se sintam moralmente obrigadas a se importarem com espécies além da humana ou aquelas com grandes olhos e pelos," diz o professor William Lauenroth, da Escola de Silvicultura e Estudos Ambientais da Universidade de Yale.

Dois lados da estrada

Embora esses pássaros sejam transitórios e de certa forma imperceptíveis, eles podem ser avistados por um olhar treinado—e os serviços econômicos que prestam aos humanos incluem dispersão de sementes, predação de insetos, polinização, isso sem falar da sinfonia de seus cantos.

Ao entrarmos no carro, Casey explica as diferenças entre o lado esquerdo e o direito da estrada. O lado esquerdo é dominado por espécies não nativas, como alfafa e trevos, surgindo como uma mistura de tons de oliva, verde e verde acinzentado. O lado direito, em que vemos bem mais pássaros, parece mais marrom e murcho—mas na verdade é mais sadio e conveniente para a vida selvagem.

Uma inspeção mais atenciosa do solo do lado esquerdo revela um terreno duro e praticamente vazio. “Não há gramíneas para as aves construírem seus ninhos”, explica Casey. Espécies de plantas locais que antes sustentavam o ecossistema foram expulsas por plantações exóticas.

O lado direito da estrada, embora menos verdejante, inclui uma combinação de espécies nativas, como grama azul, grama-de-búfalo e artemisia frigida. Humo em decomposição da estação anterior forra e protege o solo, em um tom mais escuro devido à umidade que retém. Em comparação com o outro lado, essa terra é mais resistente aos extremos climáticos, a doenças e insetos indesejáveis—e proporciona mais alimento, habitat e serve como depósito de carbono, água e nutrientes importantes.

Do local onde estamos, as pradarias parecem vastas. Embora seja uma sombra do que já foi, sua remanescência abrange mais de 72 milhões de hectares, cinco estados e duas províncias. Mas do ponto de vista de um pássaro—como a escrevedeira ou qualquer uma das outras quatro espécies nativas de pássaros canoros que o NGPJV visa proteger—o cenário maior é um fragmentado emaranhado de agricultura, terras de fazendas e desenvolvimento. O habitat essencial que esse ambiente proporciona para diversas espécies e sua crescente fragilidade normalmente passam despercebidos.

“Geralmente, há mais consciência com relação à destruição de florestas tropicais no Brasil do que do habitat que mais sofreu mudanças em nosso continente”, diz Casey.

Perda de pradarias

Entre 2015 e 2016, as Grandes Planícies perderam mais de 2,6 milhões de hectares de pradarias anteriormente intactas para o cultivo. Monoculturas de trigo, milho, soja e canola são, sem dúvidas, as principais utilizadoras da terra cultivável, e com a demanda mundial de grãos prevista para dobrar até 2030, a pressão está se instalando. Além de tudo isso, o desenvolvimento urbano e a exploração de energia também carregam sua parte de culpa.

Embora venerado como o celeiro dos Estados Unidos, as Grandes Planícies nunca receberam as mesmas proteções que as atrações mais convencionais do país, como as florestas.

“É fácil observar uma floresta primitiva e identificar o que a torna primitiva, com suas grandes árvores com várias estruturas”, diz Casey, descrevendo as florestas temperadas do Noroeste Pacífico. Mas as pradarias também apresentam um alto nível de complexidade, o que permite que muitas espécies façam desse local a sua casa.

“A escrevedeira de McCown gosta da grama um pouco mais baixa; a escrevedeira-de-peito-preto um pouco mais alta; a escrevedeira-dos-gafanhotos gosta dela ainda mais alta. Essa variação não existe na monocultura”, explica Casey. Esse é o motivo de as práticas agrícolas modernas serem tão prejudiciais para esse ambiente e para as espécies que nele habitam. Além disso, monoculturas roubam os nutrientes e a umidade do solo, e, em parte, é por isso que desfazer seus efeitos negativos é algo tão difícil.

“Pode-se pastar os campos, cometer alguns erros de gestão e esperar que a recuperação ocorra em uma década. Mas uma vez que as camadas do solo são removidas—é um processo que provavelmente leva séculos ou milênios para a recuperação”, explica Lauenroth, especializado em ecologia do campo. Embora as gramíneas possam se recuperar rapidamente, as plantas herbáceas, plantas que não produzem flores, chamadas de ervas, e a capacidade do solo em armazenar nitrogênio e carbono podem levar mais de um século para começar a se regenerar.

Pássaros canoros migratórios, também chamados de Passeriformes, dependem de locais diferentes para atender suas necessidades específicas de procriação, locais de invernada e jornadas, o que os torna indicadores precoces de desequilíbrio ambiental em cada uma dessas áreas. Mas as indicações não são boas. Os pássaros canoros do norte, como o Anthus spragueii, pardal-de-baird, pardal-americano e escrevedeiras, exibem o maior e mais abrupto declínio de qualquer grupo de espécies em todo o continente. Sofreram uma redução de 65 a 94 por cento desde 1960.

Em Chihuahua, México, que serve como região de invernada para muitos desses pássaros, os campos estão sofrendo modificações por arados em velocidade ainda maior que em Montana. Mas o trabalho de Casey com as populações de pássaros prioriza a proteção das planícies do norte em particular.

Ele enfatiza que os pássaros têm que se reproduzir cedo para que a espécie sobreviva. “É nisso em que estamos colocando nossos esforços—na perda do habitat de procriação,” diz Casey. Com mais de 80 por cento das planícies do norte sendo terras particulares, a chave do sucesso de Casey e NGPJV é o trabalho em conjunto com os proprietários das terras. E o foco recai sobre os fazendeiros.

Onde o bisão vagueia

As planícies, incluindo seus pássaros canoros, evoluíram juntamente com um animal que tinha hábitos de pastagem relativamente semelhantes aos do gado de corte moderno: o bisão. Grandes ungulados, como o bisão, influenciaram o ambiente através de resíduos corporais, chafurdamento e o impacto de seus cascos.

Como os ungulados moviam-se livremente pelo ambiente, o mosaico de vegetação que se seguia encorajava uma diversidade de espécies de pássaros, cada uma adequada para um diferente nicho de grama. Assim como o bisão, os pássaros cumprem um papel essencial no ecossistema, dispersando sementes, controlando insetos e reduzindo as ervas daninhas.

Quando pastam e são revezados de forma sustentável entre os campos para dar tempo de a terra se recuperar, gados, como os de Milton, podem imitar os impactos do bisão nativo e, na verdade, fazem mais bem do que mal ao ecossistema. De acordo com Lauenroth, os dados corroboram esse conceito há mais de 40 anos, mas a economia, a tradição e o conhecimento limitado desaceleraram a transição para métodos de pecuária mais sustentáveis. O NGPJV está trabalhando com fazendeiros para reabilitar e proteger ainda mais a saúde do campo enquanto mantêm a viabilidade de seus sustentos, realizando parcerias entre o Serviço de Conservação de Recursos Naturais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e o financiamento privado. Enquanto isso, organizações como a American Bird Conservancy e sua correspondente mexicana, Pronatura Noreste, implementaram programas de sustentabilidade semelhantes em quase 28 mil hectares em fazendas nas regiões de invernada de pássaros no Deserto de Chihuahua.

Ao passarmos por uma elevação de arenito amarelo corroída, Milton desacelera para mostrar o local em que avistou dois tristes-pias fazendo um ninho recentemente, numa área em que havia realizado o plantio de plantas nativas dois anos antes.

“Para usar esse pasto, teremos que instalar cercas temporárias; isso não é algo que todos desejam fazer”, pois exige mais trabalho manual, diz Milton, referindo-se a um dos obstáculos do sistema rotativo de pastagem que está utilizando.

Mas o lado positivo de mudar sua dependência para pastagens nativas é que Milton não está gastando tanto dinheiro com a aplicação de substâncias químicas e pode passar mais tempo ajudando seus bezerros. E o mais importante, a fazenda e, dessa forma, Milton e sua futura família, se tornam mais resilientes. “Essa parece a forma mais eficiente de se criar animais”, diz ele. “Trabalhar com o ambiente e manter os negócios agradáveis”.

Campos rotativos

Mais tarde, na fazenda de Milton, ele modela carne moída de uma de suas vacas Black Angus em bifes de hambúrguer, antes de nos servir hambúrgueres. Milton explica que, durante muito tempo, o estilo predominante de gestão das pastagens se baseava em cada pasto tendo descanso de dois anos a cada três anos.

Mas, no começo da década de 1960, proprietários de fazendas corporativas começaram a aumentar a intensidade, pastando todo ano e pulverizando herbicidas e pesticidas na vegetação para maximizar a produção.

Como consequência, a diversidade de espécies dos campos despencou, levando à condição degradada de grande parte da pradaria de grama baixa atual. Para prosseguir com a estratégia global de pastagem, Milton diz que os fazendeiros precisam praticar “flexibilidade, adaptabilidade, colaboração e imaginação”.

O que Milton diz pode muito bem valer para pássaros canoros, organizações de conservação e comunidades de fazendeiros. Implementar mudanças em grande escala requer tempo, energia e dinheiro—muito dinheiro. O NGPJV ajuda fazendeiros com financiamento para caixas-d'água, cercas, queimadas prescritas e a conversão de terra cultivada e pastagens não nativas de volta às gramíneas tradicionais. Essas medidas não apenas beneficiam os pássaros, também ajudam a armazenar e filtrar a água, fortalecer o solo contra erosão e a capturar carbono.

“Algumas pessoas vão pensar que você se vendeu por estar trabalhando com a The Nature Conservancy, World Wildlife Fund”, diz Milton, referindo-se à corrente de conflitos de longa data entre muitos fazendeiros e ambientalistas. “Você tem que apenas ignorá-los”.

Quando questionado sobre como seriam as pradarias sem os pássaros canoros, a voz já suave de Milton fica ainda mais baixa. “Até mesmo os pássaros de colarinho azul mais abundantes aqui — a cotovia-ocidental ou a pardal-americano —são adoráveis”. diz. “O que é tão triste nessa época do ano é que me ocorre: ‘Ah, meu Deus, tenho que esperar até março para ouvir isso de novo’”.

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