O que podemos aprender com a árvore mais antiga de Paris

A árvore simbólica, levada de Appalachia, nos Estados Unidos, para a França, mostra a propagação de espécies invasoras, mesmo às sombras da Catedral de Notre-Dame.

Por Robert Kunzig
Publicado 24 de jul. de 2021 16:00 BRT
Pilar de concreto sustenta uma acácia-falsa (Robinia pseudoacacia), a árvore mais antiga de Paris, na Praça ...

Pilar de concreto sustenta uma acácia-falsa (Robinia pseudoacacia), a árvore mais antiga de Paris, na Praça René Viviani.   

Foto de KEYSTONE/GETTY IMAGES

Da janela do meu apartamento consigo ver o topo de uma árvore não tão alta, mas muito marcante, que ocasionalmente me distraía do motivo pelo qual vim a Paris. Sei que a árvore é notável porque uma placa a identifica como a mais antiga da cidade, plantada em 1601. Uma acácia-falsa (Robinia pseudoacacia), originária de Appalachia, nos Estados Unidos. 

Contudo, diversos motivos tornam essa data de 1601 duvidosa. Mas parece provável que a árvore de fato tenha sido plantada no início do século 17 por Jean Robin, jardineiro de uma sucessão de reis franceses. A árvore sobreviveu a guerras e revoluções e, no meio deste ano, nasceram belas folhas em toda a sua copa. Como um velho soldado ferido — o tronco cheio de cicatrizes é mantido em pé por suportes de concreto — acabou sendo a precursora de um exército invasor: desde o século 17, acácias-falsas norte-americanas se propagaram pela Europa e certamente pelo mundo. 

Na Europa Central, principalmente, silvicultores se apaixonaram pela espécie. Acácias-falsas crescem rapidamente em terras desmatadas para obtenção de lenha, protegendo o solo da erosão. Mais recentemente, no platô Loess, no noroeste da China, foram plantadas acácias-falsas em mais de 10 milhões de hectares durante as últimas décadas para combater uma das piores erosões de solo na face da Terra. A madeira da acácia-falsa também é valiosa, não apenas para lenha, pois ela é rígida e resistente. Quatro séculos depois de Robin ter plantado a árvore proveniente dos Estados Unidos em seu jardim, Robinia foi estabelecida como a única madeira “europeia” que pode ser utilizada para fabricação de móveis de jardim sem a necessidade de tratamento com pesticidas — uma alternativa sustentável à teca tropical (Tectona grandis) importada.  

O problema é que a acácia-falsa não permanece apenas onde é plantada. É uma espécie extremamente invasora que se propaga pelo solo subterrâneo. Assim como outra precursora resistente, a Ailanthus altissima, popularmente conhecida como árvore-do-céu, que foi levada da China para a América no século 18, ocasião em que, mais uma vez, botânicos parisienses ofereceram uma ajuda fundamental. Jardineiros norte-americanos se apaixonaram pela beleza do ailanto, que cresce praticamente em qualquer lugar, mesmo entre rachaduras em pavimentos — e foi inspiração e personagem principal do livro A Tree Grows in Brooklyn (“Uma árvore cresce no Brooklyn”, em tradução livre). Mas Troy Farrah relatou recentemente para a Nat Geo que cientistas buscam avidamente uma maneira de extinguir a espécie também apelidada de “árvore do inferno”, pois destrói a biodiversidade, depositando suas esperanças em um fungo recém-descoberto. 

O mundo está sofrendo as consequências das nossas ações. Cientistas tchecos recentemente analisaram a propagação da acácia-falsa no sul da Europa e concluíram que: “nossos resultados confirmam que é difícil definir se a Robinia deve ser cultivada, estimulada e amplamente tolerada ou erradicada por ser uma espécie invasora perigosa”. Eles afirmam que essa definição dependerá de cada caso e da região. 

A cerca de 152 metros ao norte da árvore mais antiga está o real motivo da minha visita a Paris: a catedral de Notre-Dame. Um portal para os séculos 12 e 13, mas também para o século 19, quando foi completamente reformada. No momento, com o objetivo de recapturar esses fragmentos da história, a igreja está sendo reconstruída após o incêndio catastrófico de 2019 que causou a queda das torres através de suas abóbadas altas. A acácia-falsa pendente que raramente é notada no pequeno parque do outro lado do rio Sena é um lembrete de que, na vida, também é raro podermos desfazer as escolhas difíceis que tomamos, podemos apenas tentar lidar com elas da melhor forma.

Continuar a Ler

Você também pode se interessar

Meio Ambiente
Por que ‘miniflorestas’ estão surgindo nas grandes cidades
Meio Ambiente
Flor nunca antes documentada desabrocha em uma das árvores mais raras do mundo
Meio Ambiente
São vários os projetos de plantio de árvores. Qual você deve apoiar?
Meio Ambiente
As árvores nos arquivos fotográficos da Nat Geo marcam momentos únicos
Meio Ambiente
Cultivar a maior e mais fétida flor do mundo é tarefa árdua

Descubra Nat Geo

  • Animais
  • Meio ambiente
  • História
  • Ciência
  • Viagem
  • Fotografia
  • Espaço
  • Vídeo

Sobre nós

Inscrição

  • Assine a newsletter
  • Disney+

Siga-nos

Copyright © 1996-2015 National Geographic Society. Copyright © 2015-2021 National Geographic Partners, LLC. Todos os direitos reservados