Nat Geo Podcast | Episódio 7: Regenerar é preciso

André Carvalhal entrevista a engenheira ambiental Aline Matulja e o pesquisador e explorador da Nat Geo Thiago Silva sobre regeneração, processo fundamental do meio ambiente.

Por Redação National Geographic Brasil
Publicado 6 de set. de 2022 20:00 BRT

André Carvalhal (apresentador): Olá! Eu sou o André Carvalhal, escritor, especialista em design para a sustentabilidade e apresentador do Nat Geo Podcast, que tem o propósito de pensar em caminhos para uma vida mais sustentável. E, gente, chegamos ao sétimo e último episódio dessa temporada, e que temporada, né? Eu espero que vocês tenham curtido e aproveitado tanto quanto eu. Eu aprendi muito com todos os encontros e todas as participações que a gente teve aqui e as trocas incríveis que ocorreram. Eu realmente espero que vocês tenham aproveitado. E eu fiquei muito pensativo em relação a esse ciclo que se encerra hoje, e, que como todo ciclo, não é o fim, né? É um recomeço de tudo. Então eu fiquei com vontade de, nesse episódio final, a gente falar de um processo fundamental para os ciclos da natureza que é a regeneração ou a restauração, como algumas pessoas falam também.

A gente já falou aqui que chegamos num ponto limite no qual não basta só preservar e fazer as coisas de um jeito diferente, é preciso começar a regenerar tudo aquilo que já foi degradado, senão, não tem futuro. E nesse sentido, há um conjunto de iniciativas que podemos implementar para estimular a regeneração dos nossos ecossistemas e é sobre isso que a gente vai conversar aqui hoje. Para fechar a nossa temporada com maestria, eu tenho aqui comigo dois especialistas que vivem profundamente os seus trabalhos com o meio ambiente, a engenheira ambiental e comunicadora Aline Matulja e o pesquisador e explorador do National Geographic Brasil, Thiago Silva. Olá, pessoal!

Thiago Silva: Olá, tudo bem?

Aline: Oi, André. Oi, Thiago. Muito obrigada por esse convite. Estou super feliz de estar aqui.

André Matulja: Imagina! A gente também está super feliz de estar com vocês aqui hoje. E, Aline, eu vou começar agora com você. Você aí que é uma mulher que busca viver de maneira mais harmônica com a natureza, com o meio ambiente e que colabora com pessoas e empresas que buscam o início de um novo ciclo, de uma vida mais sustentável.

Esse é o bloco em que a gente começa investigando o cenário atual, e eu queria entender com você o que que você sente que são as maiores dificuldades das pessoas e das organizações que você trabalha e que estão buscando uma transição para uma vida mais sustentável? 

Aline: André, obrigada por essa pergunta e acho que ela é pertinente justamente porque falar de regeneração não é só falar sobre regeneração. Regeneração é um conceito que ele propõe que a gente mais do que fale, do que pense e que pratique inclusive, ele propõe que a gente sinta, que a gente intua e que a gente se relacione com o mundo. Então, eu me proponho a ser um ser coletivo, né? E aprendo isso muito com os povos da floresta.

Eu acho que o maior desafio da gente, e aí vou me colocar dentro desse desafio, é justamente observar se o que a gente cria, se os projetos que a gente cria, as iniciativas, os programas de governo inclusive, as formas de operar as nossas indústrias e negócios, se eles estão partindo com uma roupagem de regeneração, mas de uma mesma matriz que gerou todo o pensamento e que gera o lugar onde a gente está hoje. Romper com esse modus operandi do pensamento como ocupante de um lugar supremo dentro de tudo o que a gente faz é o maior desafio.

André: Com certeza, Aline. A gente falou muito isso aqui nos episódios anteriores, que não é só a gente mudar o modelo, a gente precisa mudar o pensamento, né? A gente precisa mudar a forma de pensar, de sentir, de enxergar e de ver tudo que está à nossa volta. E você usa um termo que eu acho muito interessante que é o da vida biodiversa, e eu queria que você contasse aqui para a gente, para as pessoas que estão nos ouvindo, o que que você entende como essa vida biodiversa e o que seria o contrário disso, né, uma vida não biodiversa, principalmente quando a gente fala desse respeito aos ciclos e à regeneração da vida.

Aline: Eu acho que a vida biodiversa, eu gosto de usar esse termo e eu tenho até ampliado ele um pouquinho mais, falar da vida socio e biodiversa, porque o contrário disso é o que a gente conhece, né? A gente conhece uma vida em que uma cultura, né, também hegemônica, que é colocada assim, nesse lugar, né, em que só um tipo de seres humanos, né, só uma fração da humanidade exerce o poder sobre nossas finanças, sobre o nosso poder, sobre a nossa natureza, sobre gênero inclusive, né, e sobre o conhecimento, essa é a vida monótona, né? É uma vida que, como a Vandana Shiva sempre diz, é a vida da monocultura das mentes, né?

Então eu acredito que, tomando como mestra a Amazônia ou outros ecossistemas que temos no Brasil, né, de maior biodiversidade do mundo, o que eles nos ensinam é que esse maior banco, esse maior patrimônio que nós temos, ele nasce da cooperação entre seres muito diferentes, né? E dentro, se a gente traz isso como analogia para dentro da nossa própria espécie, eu acredito que é um mundo muito sociodiverso, onde a gente também aprenda a escutar a ciência indígena, por exemplo, né? A reconhecer que os Yanomami tem uma ciência que não está diplomada, que não está na Academia Brasileira de Letras. Quando a gente começar a reconhecer essas outras cores, a gente vai começar a conversar sobre regeneração.

André: Thiago, agora eu queria ouvir você um pouquinho, que é cientista, pesquisador e tem grande parte do seu trabalho voltado para a Amazônia. Enquanto a Aline estava falando sobre a floresta, eu fiquei me lembrando de uma série de notícias ruins que a gente tem recebido de lá e eu queria que você contasse para a gente se você acha que é factível a ideia de que a Amazônia pode chegar num ponto tal de devastação que a sua regeneração vai ser impossível.

Thiago: Então, é uma hipótese, né, essa questão de savanização, mas acho que é importante essa discussão do que é regeneração, né, especialmente do ponto de vista biológico, ela é bem interessante porque quando você pensa em regeneração, você está pensando em reconstrução, seria como uma volta a um estado anterior, né? Mas as comunidades biológicas, elas são muito dinâmicas, então às vezes é difícil definir o que que é o estado original, né? Se a gente vai recuperar, restaurar, a gente vai restaurar até que ponto? Quando? Por exemplo, é o estado original de agora, é o estado original da última glaciação, é o estado original do oeste da Amazônia, do leste da Amazônia, né?

Especialmente num ecossistema super diverso, né, como a Amazônia, a gente tem aí cinco mil... Doze mil espécies aí de plantas, né, como é que você define... Qual é aquela... "Ah, agora restaurou porque as espécies voltaram", você não vai ter as doze mil espécies no mesmo local, né, então isso é muito difícil. Então, o importante, né, e isso é um ponto de vista meu, mas acho que vários ecólogos concordam, é que às vezes mais importante do que regenerar a estrutura, né, dizer "Ah, são as mesmas espécies", é você regenerar ou manter as funções, né, então, mesmo que você perca uma espécie, ganhe uma outra espécie, não seja exatamente o que era antes, se o sistema ainda funciona da maneira esperada, por exemplo, consegue suportar os mesmos tipos de plantas, de árvores, os mesmos tipos de animais, tem a mesma sazonalidade, então, né, a gente poderia dizer que ainda está...

E a savanização seria uma transição para um sistema diferente, onde, por exemplo, seria mais parecido com o Cerrado ou uma Caatinga. Então não é que você... Não é que ficou pior, mas você perdeu o que era aquela floresta tropical e aí você perde todas as funções ou, como, né, a gente chama, acho que quanto mais relacionados à sociedade humana, todos aqueles serviços ecossistêmicos da floresta tropical úmida você perdeu porque você não tem mais floresta tropical úmida. Então, a ideia da restauração é você tentar manter ou recuperar essas funções, esses serviços originais, né? E, mas é possível, é possível você chegar a um ponto onde é... Especialmente para a Amazônia, porque as escalas são muito grandes, né, as escalas de tempo, as escalas de espaço, os volumes de, né, quantidade de espécies, biomassa, quantidade de água é tudo muito grande, é muito... Se você perturbar o sistema a um ponto em que há uma transição dessa, seria muito difícil você voltar.

Por exemplo, qual que é a base da discussão da savanização? É que se você remover uma quantidade, né, um limiar de floresta, você afeta essa regeneração da chuva a tal ponto que a floresta não se mantém mais como floresta úmida, e aí, como é que...  Isso são coisas, por exemplo, 30%, 40% da Amazônia, né? Como é que a gente conseguiria restaurar 40% da Amazônia, regenerar 40% da Amazônia, se os processos naturais não estão mais lá? É como se você atingisse um equilíbrio diferente, né, então aquilo vai continuar sendo uma floresta seca, né? E aí você teria que ter uma intervenção climática da mesma magnitude de remover 40% da Floresta Amazônica para talvez permitir que aquela floresta úmida voltasse, né? Então é bem complicado.

Mas é uma hipótese porque é uma questão muito complexa, né, essa relação entre sazonalidade hídrica e funcionamento da vegetação, mas é uma coisa preocupante porque a gente gostaria muito de prevenir e ter certeza que não vai acontecer ao invés de, né... Essa acho que é a grande dificuldade de ser biólogo hoje em dia, é que você mais documenta, né, os eventos, do que você realmente prevê ou tenta prevenir ou tenta controlar. Então eu espero que a gente não esteja só documentando a savanização da Amazônia.

André: Maravilhoso. Aline, agora a gente chegou no bloco, que eu mais gosto, que é quando a gente começa a explorar algumas soluções e pensar, propor alguma coisa mais prática, e eu sei que você é muito boa nisso. Então, eu queria que você falasse para a gente um pouco como que você enxerga que deve se dar essa transição para um modo de vida mais voltado para a regeneração ao invés daquele que é pautado da degeneração, que eu adoro também quando você fala isso. 

Aline: Vamos lá, vamos lá. O olhar que eu tenho tido esse ano, que foi o olhar de dentro das comunidades, né, das aldeias, visitei diversos povos que moram dentro da floresta para escutar e observar como é o modo de vida para a gente se aproximar, para a gente tentar descer desse drone, né, que a nossa cabeça gera quando a gente ouve Amazônia sem viver a Amazônia, né? Então só pra dar um exemplo, né, eu visitei, lá na fronteira do Brasil com a Colômbia e Venezuela, a região do Alto Rio Negro, que tem povos que vivem lá milenarmente, né? A perda de serviços ecossistêmicos de uma floresta úmida, a gente está falando de perda do modo de vida milenar, né, de muitos modos de vida milenares.

Então, os baniwa que nos receberam lá, por exemplo, eles têm como elemento central da cultura deles uma cerâmica, que é feita a partir de um barro que dá numa determinada área úmida e que passa a não ter mais, né, inclusive eles têm agentes ambientais indígenas de monitoramento que estão documentando, assim como o Thiago documenta na nossa ciência ocidental, como a gente conhece, os povos indígenas de lá também estão registrando esses movimentos de mudanças ambientais que estão acontecendo lá, e essa cerâmica passa a não ser mais possível, e é uma cerâmica que só estando lá para você ver, né?

Ela é uma cerâmica que mantém a floresta em pé, porque o barro é de uma área da floresta, o verniz é feito a partir de uma outra folha, a pintura é uma outra planta e ela está presente em todas as etapas do ciclo de vida de uma pessoa indígena, inclusive com um papel muito forte na vida das mulheres e da menstruação, da vida sexual e tudo mais. Então, eu acho que, assim, a partir dessa inspiração, eu não consigo tirar da cabeça que, em tudo que nós fazemos, a gente precisa assumir um novo mindset, uma nova mentalidade um pouco mais amorosa, né, que caminhe um pouco mais para ligar sentimentos e emoções a esses pensamentos. Então, como passo número um, para ser bem prática, bem engenheira aqui, eu tentaria observar em todos os projetos, em todas as iniciativas, como é que o projeto contribui para a perpetuação dessas violências sistêmicas que a gente aplica em relação aos povos que nos ensinam e que estão segurando, como diz o Davi Kopenawa, que estão segurando o céu sobre nossas cabeças, né?

E aí não precisa ir longe, tenta observar qual é a violência sistêmica que socialmente a sua empresa gera, né? A pergunta não é só qual é a violência sistêmica, é quantas são, porque eu, na minha vida, prestando muita atenção nisso, é claro que eu gero violências sistêmicas, né, então, passa por ter humildade também, humildade para descer e escutar as pessoas que estão excluídas desses acessos há tanto tempo, né? Eu tenho feito um caminho de escutar muitos os povos quilombolas e os povos indígenas. Em terceiro lugar, é algo que a minha filha me ensina muito, né, nesse um ano de maternidade que eu tenho, que é do cuidado permanente. O cuidado precisa ser permanente. Então em tudo que a gente faz, em todos os nossos projetos, em todas as nossas ações, você está cuidando disso com um amor incondicional, um amor primário e que é o que aproxima um pouquinho a humanidade dessa mimetização do que a floresta faz, né, que é a vida em cooperação, a vida como observou a Lynn Margulis nos seus achados científicos lá nos anos 60, né, Thiago, não sei se eu estou errada, e que observou que a vida nasceu justamente da cooperação entre duas bactérias, que tinham funções complementares, né? Em que que você pode mimetizar a natureza e amar mais com cuidado permanente tudo que você faz em relação à sociedade e ao nosso ambiente, as espécies humanas e não humanas, né?

André: Total, Aline. E tem uma coisa que ouvi você falar uma vez também, que é o lado positivo disso que você trouxe agora, que é também a gente olhar para aquilo que a gente está fazendo e o quanto que aquilo sustenta a vida, né, o quanto aquilo coloca a vida no centro e valoriza ou perpetua a vida, né? Então, eu acho que a gente tem essas duas formas de olhar o quanto aquilo que a gente está fazendo está permanecendo, né, com essas violência sistêmicas ou, né, o contrário, o quanto aquilo está florescendo, está ajudando realmente a manter a vida, assim, essa foi uma fala sua que me inspirou muito uma vez que eu ouvi.

E, Thiago, agora pegando um gancho também nisso que a Aline trouxe do artesanato, né, do quanto ele ajuda de alguma forma a manter a floresta em pé, você, nas suas expedições pela Amazônia, você deve conhecer também diversas outras formas de produção, né, seja o extrativismo, a própria pesca, e eu queria que você contasse um pouco para a gente a sua visão sobre essa possibilidade de unir, né, um sistema econômico com uma capacidade regenerativa, se você acredita que isso é possível.

Thiago: Eu acredito que sim, eu acho que é um desafio bem grande pela frente, né, a Aline tocou em vários pontos importantes, por exemplo, toda essa bagagem cultural que a gente tem e que, muitas vezes, afeta. Acho que um outro grande problema pensando, por exemplo, no caso da Amazônia, mas que se aplica, eu acho, para várias outras situações, é que, na nossa sociedade moderna, existe uma desconexão muito grande, né, então é muito fácil se você pensa, né, para um membro de uma comunidade indígena que está lá fazendo a cerâmica, que vive a floresta, que depende da resina da árvore, que depende do barro, é muito lógico, muito imediato para essa pessoa, né, que se as coisas começam a mudar, isso vai ter um impacto muito grande na vida dessa pessoa porque ela está observando ali, né, naquela escala local, do dia a dia interferindo na vida dela e ela consegue ver essa interferência direta.

Agora você imagina uma pessoa que nasceu e cresceu na cidade de São Paulo, que nunca viajou para o norte do país, que nunca foi para uma grande floresta, aí você pode até dizer "Olha, mas, em 2022, nós já desmatamos dois mil campos de futebol", mas a nossa mente não tem muita capacidade de entender essas grandes escalas, essas coisas distantes, “O que... O que são dois mil campos de futebol? Como é que isso afeta a minha vida?”. É muito difícil fazer um link direto.

André: Total.

Thiago: Então, para existir essa coexistência, você precisaria, de alguma maneira, fazer com que as pessoas percebessem essas conexões, de que os dois mil campos de futebol podem virar vinte mil e isso pode significar que não vai ter mais a comida do seu supermercado, mas é um link muito mais indireto, muito mais difícil de construir, né, e eu acho que é um dos motivos porque a educação ambiental... É mais relevante, para proteger a Amazônia, você ensinar a pessoa a conservar os ecossistemas que estão ali no em torno dela para que ela crie essa percepção da importância da natureza do que realmente chegar e tentar enfiar a cabeça dela "Olha, a Amazônia é importante..."

Não, começa mostrando como ali o parque da cidade, a floresta, a mata ciliar é importante, porque aí você tem uma conexão mais direta, mais física com o processo. Mas existem muitas iniciativas bacanas na Amazônia, eu acho que o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, né, que é uma organização que administra a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, tem feito isso há vários anos, por exemplo, com o manejo do pirarucu, e é muito interessante porque todos os planos de manejo, eles partem a partir das consultas com as comunidades, então são as comunidades que decidem como elas vão manejar e de que maneira o Instituto dá o subsídio científico, mas cabe às comunidades tomar as decisões e usar esse conhecimento de maneira que isso encaixe, né, no modo de vida deles, e tem tido bastante sucesso com o manejo florestal, ou seja, a extração de madeira, o pirarucu, acho que eles já tentaram jacaré também por algum tempo.

Agora, mais atualmente, né, um colega, que também é explorador do National Geographic, o João Campos Silva, o JB, que é um do cofundadores do Instituto Juruá, que também está seguindo nessa mesma linha de interagir diretamente com as comunidades e de reconhecer a liderança das comunidades nesse processo e simplesmente dar os subsídios e empoderar essas comunidades para fazerem esse manejo, e tem muitas histórias de sucesso. Você consegue ter essa produção, consegue explorar o recurso da pesca, o recurso da madeira, sem... Como foi? Degenerar, como você disse, de uma maneira que o sistema se mantém nesse equilíbrio dinâmico e se restaura naturalmente, e você pode continuar carregando isso. Então, existem muitas discussões em termos de se isso é possível de fazer em grande escala, em pequena escala, mas também passa de novo pelo o que a Aline falou, né, quando alguém diz "Ah não, mas essa agricultura familiar, esses temas socioextrativistas não são capazes de sustentar as demandas da sociedade", mas é porque as demandas da sociedade atual são insustentáveis, né?

Nenhum sistema consegue. Então, né, isso passa por toda essa questão de você mudar toda essa visão econômica de lucro e de crescimento, né, infinito e coisas assim, mas acho que a gente aprende com essas interações numa escala... E não são escalas assim, pequenas, eles estão explorando isso e vendendo e suprindo todo o mercado da região Norte de pesca, de madeira através de atividades sustentáveis. Então não é só, né, o cara que está indo vender um peixinho lá em Manaus e volta, não é isso que a gente está falando, mas sempre existe essa dúvida de escala. Mas eu acho que são trabalhos muito bonitos, que passam...

Eles, quando é o Instituto Mamirauá, eles começam com uma escola de formação de líderes comunitários, então eles trazem os jovens para aprender e estudar, e como serem mais líderes e como se engajarem na comunidade para que eles possam voltar e assumir esses papéis. E eu acho que esse é o processo, né? Eu acho que, e não só eu, mas acho que já ficou bem claro que não dá muito certo essa visão de conservação que é "tira todo mundo, bota uma cerca em volta", porque tem um pesquisador, que eu gosto muito, que chama Erle Ellis da Universidade de Maryland, que ele fala que a gente usa a palavra biomas, mas que ela não tem muito sentido, porque a maioria de todos os ambientes da Terra já foram alterados pelo ser humano, então, na verdade, o que nós temos são antromas, né, a maioria dos tipos que a gente tem são moldados pela interação com a sociedade humana.

Então não dá para você, de repente, admitir que não, as pessoas vão sair dali numa boa e nunca mais vão voltar, e ninguém vai tocar. Então passa por esse processo, né, da gente redescobrir que a gente não é diferente de... Não só você não é diferente do indígena que está explorando aquele "coiso", você não é diferente do tucano que está ali comendo sementes. Você é um ser vivo, você depende desses recursos, todos eles vêm das mesmas fontes naturais e o processo é o mesmo, né? O ser humano não está à parte, não tem como se dissociar desse funcionamento.

André: Total. E quando a gente começa a entender isso, a gente entende que não é falar sobre preservar o tucano, o rio ou a floresta, é preservar a gente, né?

Thiago: Isso.

André: É preservar a nossa espécie, acho que é super importante essa visão. E Aline, o Thiago trouxe um pouco sobre a questão da pesca e tal, e você fala bastante sobre outras iniciativas que estão alinhadas com esse propósito da regeneração como a agrofloresta, por exemplo. Eu queria que você falasse um pouco para a gente sobre isso.

Aline: Eu tenho acompanhado, André, que as pessoas estão... Algumas pessoas estão levando a sério o que é encontrar uma nova forma de fazer, que é uma forma a favor da vida, uma forma que sustenta a vida, né? É claro que isso passa por perceber o que é que está machucado, né? E a nossa terra está muito machucada, o solo mesmo, embaixo do nosso pé, e daí, claro, a Terra no sentido Terra com T maiúsculo também. Então, no âmbito da agricultura, e muito da transformação passa pela agricultura, tem se demonstrado o quanto é possível você ganhar em produtividade e colocar na mesa da gente comida variada, biodiversa e sem veneno a partir de novos métodos, e métodos que realmente aprendam com os princípios básicos dos ecossistemas.

Então a agricultura regenerativa, e aí dentro disso tem a agricultura sintrópica, que o Ernst é um dos grandes porta-vozes, né, ela tem aí se difundido Brasil a fora, né? E eu aqui no meu quintal, tenho um pequeno canteiro sintrópico, feito a muitas mãos, que, assim, é uma homenagem a tudo o que eu aprendo com esses jardineiros de mundo que são os povos tradicionais, né? O povo quilombola, a gente está falando, né, de coisas novas, mas o povo quilombola tem um método, tombado inclusive como patrimônio da humanidade, que faz uma agricultura biodiversa, que dá qualidade de alimentação para esse povo há séculos e que, comprovadamente, dentro de pesquisas, né, etnobotânicas, demonstra que é o método que mais ajuda a biodiversidade aqui na Mata Atlântica do que atrapalha, porque você produz uma roça ali e a roça tem muitas comidinhas gostosas que mamíferos e passarinhos gostam de vir e comer, e aí você aumenta o fluxo de fauna e isso aumenta também a semeadura aí de plantas para dentro da mata.

Então, eu acho que observar as iniciativas de regeneração tradicionais e também as novas nos inspira todos os dias, porque a gente pode buscar todos os dias um alimento que contribui para sustentar a vida, contribui para regeneração. E aí, um beijo para todas as associações agroecológicas desse país que seguram o céu junto com o Davi Kopenawa e que se mantém aí aos trancos e barrancos porque, é preciso dizer, a gente tem muito pouco incentivo, poucas linhas de crédito ou nenhuma linha de crédito para esse tipo de agricultura, e se a gente der força nisso, e se a gente der espaço de poder para esse tipo de iniciativa, talvez a gente tenha sim, daqui 15, 20 anos na nossa mesa, uma comida muito melhor do que a que a gente encontra hoje no nosso sistema centralizado de distribuição de alimentos, que enterra, joga fora mais de um terço de tudo que se colhe nas nossas lavouras do Brasil, e aí a gente vai deixar de ter esse discurso hipócrita, né, que já caiu por terra, mas que ainda está no senso comum da maior parte das pessoas, de que, para alimentar a população mundial, a gente precisa desse sistema que é degenerativo da Terra e não regenerativo.

Thiago: O argumento implícito, né, que eles não colocam explicitamente, é que, para alimentar a população da Terra mantendo o nosso lucro, dentro dessa visão capitalista, né, não dá para fazer isso de maneira sustentável. Realmente, mas é essa parte que ninguém toca no assunto.

André: Total, total. Não, e é exatamente isso que fica para mim, dessa conversa maravilhosa aqui com vocês, de que a regeneração ou um novo modelo, né, de vida, de economia que seja mais favorável à nossa existência, ele parte basicamente de uma nova forma de pensar, de uma nova forma de viver, uma nova forma, né, de se relacionar com tudo o que está à nossa volta e, como a Aline disse, sempre checando, validando se realmente aquilo está sendo a favor da vida.

Thiago: Eu acho que talvez não seja uma nova maneira, mas uma velha maneira, porque, se você pensar, tudo na natureza é baseado em regeneração, tudo está em mudança constante, em reconstrução constante, até você mesmo, né, as células do seu corpo hoje não são as mesmas células de quando você nasceu, então quem é você, né, se até você está constantemente se regenerando. Então eu acho que talvez não é nem uma questão de aprender, é de resgatar ou de reaprender, né, de que regeneração é a base, né, que mantém a vida funcionando.

André: Maravilhoso, Thiago, muito bom. "O que você faz importa" é uma campanha da National Geographic Brasil que tem como objetivo conscientizar e engajar as pessoas sobre a importância das suas ações. E esse é o nosso bloco de encerramento, e a gente sempre encerra trazendo uma dica prática do que que a gente pode fazer no nosso dia a dia, e hoje eu vou falar sobre desacelerar, porque se a gente está pensando em regeneração, é fundamental que a gente reduza o nosso ritmo no planeta, como o Thiago acabou de falar. Somente dessa forma a gente vai conseguir permitir que o meio ambiente tenha o tempo de exercer o seu ciclo natural e as suas funções de regeneração. E eu acho bem fácil da gente entender isso porque a gente viu agora, durante a pandemia, com o fechamento, né, e com a paralisação de diversos serviços, o quanto a natureza, de alguma forma, voltou a se regenerar, sem a atividade humana. Isso eu acho que mostra para a gente o quanto esse sistema que a gente está vivendo hoje é um sistema que não é muito a favor da vida, como a gente estava falando até agora.

E só tem um jeito da gente encontrar uma nova forma, buscar uma reconexão. A gente está com a impressão de que o tempo está passando cada vez mais rápido e isso é fato, ele está mesmo, porque a gente tem feito cada vez mais coisas, a gente tem acelerado cada vez mais o relógio natural de todas as coisas que estão à nossa volta. O nosso trabalho talvez seja o maior exemplo disso. E essa velocidade do cotidiano tem atropelado as nossas conexões com experiências que requerem tempo, como, por exemplo, pensar sobre a nossa existência nesse planeta e como que a gente quer que a nossa vida aqui seja, o que que a gente quer deixar aqui depois que a gente vai embora. E esse é o convite hoje, nesse nosso último episódio: parar, refletir, desacelerar e olhar para a nossa vida e olhar para aquilo que a gente quer fazer para o planeta. Bom, é isso, pessoal. Esse foi o nosso último episódio do Nat Geo Podcast

Eu estou muito triste, obviamente, que acabou, mas, na verdade, eu sinto que está apenas começando. A gente falou sobre muita coisa aqui e ainda há muito a ser feito, tem muito conteúdo aqui para vocês pensarem, ouvirem, para inspirar as ações e os movimentos de vocês no dia a dia a salvarem o nosso futuro e o nosso presente também. Nos episódios anteriores, a gente já falou com o Ailton Krenak e a Paulina Chamorro sobre o planeta Terra e as nossas florestas. A gente já falou sobre lixo e economia circular com a Fê Cortez e a Cristal Muniz, sobre moda com propósito com Dudu Bertholini e Giovanna Nader. A gente conversou sobre os nossos oceanos com a Tamara Klink e a Barbara Veiga, sobre o papel das mulheres na luta climática com a Samela Sateré Mawé e a Amanda Costa, e sobre a influência do bem com a Laila Zaid e a Nátaly Neri. E hoje, a gente conversou com o Thiago e com a Aline sobre regeneração.

Eu queria muito agradecer vocês pela participação e queria convidar aqui, nesse encerramento, que vocês deixassem alguma dica relacionada a esse tema também, alguma coisa que as pessoas pudessem ler, estudar, pesquisar. Vocês falaram sobre vários autores, trouxeram várias referências ao longo do episódio, o que que vocês gostariam de deixar aqui marcado no final?

Aline: Eu quero convidar todos a me acompanhar pelas redes sociais, não que eu seja a referência, mas eu divulgo as referências, e eu estou documentando esse exercício que eu contei para vocês, que eu tenho feito de escutar os povos da floresta, e isso em breve vai ser lançado na forma de um podcast também, o "Casa Floresta", junto com o Instituto Socioambiental. Então essa conversa continua muito por lá, vai ser uma honra ter todos os ouvintes aqui de vocês escutando a gente também. O arroba é @alinematulja

André: Boa, Aline. Thiago, e você? Que dica que você gostaria de deixar aqui para encerrar?

Thiago: Eu acho que passa um pouco pelo o que você falou, eu acho que, para a gente ter essa transição de pensamento, é importante a gente se dar o tempo para refletir, né? Eu acho que, hoje em dia, as pessoas confundem muito conhecimento e reflexão com opinião, né, e opinião é muito fácil você emitir naquele momento “Pá, eu acho que é isso e pronto!”. Não, na próxima vez que você for emitir uma opinião, antes... Talvez não emita a opinião, pare, pense, reflita. E uma coisa que é um fato é que os problemas simples já foram resolvidos, os problemas que sobraram são complexos.

Então, não existem soluções simples, não existem respostas simples, não existem respostas unilaterais, preto no branco, e se você abandonar essa visão e “Bom, já que são coisas complexas, eu tenho que refletir”, isso já vai mudar muito a maneira, acho, que como você encara a sociedade e as discussões, você não precisa ter uma opinião, você pode simplesmente refletir sobre e entender, em vez de já partir para a opinião. Acho que essa seria a minha grande dica. Eu não sou extremamente ativo nas redes sociais, mas eu costumo falar mais sobre a ciência e a minha pesquisa no Twitter@the_sanna, e, por causa do envolvimento com a National Geographic, especialmente durante, né, os períodos em que a gente está em expedição, eu costumo também colocar bastante coisa no Instagram, ali eu coloco mais sobre o dia a dia das expedições e os desafios que a gente enfrenta.

André: Maravilhoso. Valeu, Thiago. E vale lembrar também que no site natgeobrasil.com, você encontra mais informações sobre ciência, viagem, história, meio ambiente. Segue a gente nas redes sociais @natgeobrasil e o meu arroba é @carvalhando. É isso, pessoal. Valeu e até a próxima.

 

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