Mesmo com acervo destruído pelo incêndio, Museu Nacional já planeja novas exposições

Em entrevista exclusiva, o museólogo Marco Aurélio Marques Caldas conta que trabalha com sua equipe para manter a instituição viva e anuncia uma exposição sobre o trabalho científico do Brasil na Antártida.Monday, October 15, 2018

Por Paulo Verri Filho
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O objeto de trabalho de um museólogo que trabalhasse no Museu Nacional antes do dia 2 de setembro era único e extremamente diversificado. Ele continha milhares de itens distribuídos em exposições permanentes e temporárias que ocupavam uma área de 3,5 mil m². Todo esse espaço e acervo permitiam aos profissionais da museologia montar exposições variadas e exclusivas. Dentre as já existentes, só para citar alguns exemplos, havia exposições temáticas sobre os registros das culturas humanas que habitaram o território brasileiro, dinossauros, múmias, conchas, insetos, elementos artísticos e características arquitetônicas do período Imperial.  

Porém, a maior parte disso ou deixou de existir devido ao incêndio ou está perdida, misturada aos escombros. O que farão agora os museólogos, biólogos, designers e de estagiários que projetavam e montavam essas exposições? Na quarta entrevista da série que aborda, principalmente, as reações dos pesquisadores do museu à tragédia, Marco Aurélio Marques Caldas – pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro e chefe da Seção de Museologia do Museu Nacional – revela algo surpreendente: eles não pararam de expor. 

Marco Aurélio Marques Caldas é museólogo pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro no Museu Nacional, onde é chefe da Seção de Museologia.

O que você fez quando soube do incêndio no palácio? 

Eu cheguei aqui em pouco minutos depois que fui acionado, porém já acontecia uma tragédia, o incêndio já havia tomado grande parte da fachada do palácio. Eu tentei entrar pela lateral, pelo Jardim das Princesas. Outros funcionários estavam aqui junto com moradores da região tentado ajudar, mas estava aquela confusão. Os bombeiros sem água, inclusive eu vi um chorando e, isso, me deixou com a certeza que seria muito difícil entrar e fazer alguma coisa.  

Na segunda-feira eu voltei para cá e fui o primeiro a entrar com os bombeiros ainda com focos de incêndio no prédio. Vi o estrago lá dentro e posso garantir que é mais chocante do que conseguimos ver aqui de fora. Mas nós não paramos. No meu setor, embora nós tenhamos perdido imediatamente o nosso objeto de trabalho, que eram as exposições, já estamos trabalhando para montar exposições fora do museu. Já estou numa missão procurando outros museus e irei ainda hoje no Museu Militar Conde de Linhares, do Exército. 

Já consegue imaginar alguma nova exposição? 

Eu tenho a esperança de conseguir algumas salas para montar três exposições, o Instituto Oswaldo Cruz (IOC) já nos disponibilizou uma sala para uma exposição temporária. Vamos verificar o que se pode fazer com o acervo restante. Por exemplo, nós temos uma exposição que estava fora do museu, num anexo que chamamos de Palácio de Pedra que não foi afetada. Ela possui barracas e peças da Marinha usadas para montar um acampamento da Antártica, que representa o nosso trabalho na Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF). Ela será montada onde funcionou o Museu Nacional no Campo de Santana, Centro do Rio e, hoje, é a Casa da Moeda.

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Qual é o impacto dessas perdas na sociedade? 

A missão de todos museus é dar, através de patrimônio material, memória a um país. A memória científica, artística, a memória histórica e cultural. Os museus têm essa missão, uma missão sagrada, que, num contexto geral, também faz parte do ciclo da educação. Eu fui levado pelas mãos dos meus pais quando era criança, depois eu levei as minhas filhas. De geração em geração nasce uma relação de amor entre a instituição e a população. O povo carioca, por exemplo, possui uma memória afetiva com o Museu Nacional. É incrível como as pessoas choraram e ainda choram. 

Pode falar do acervo expositivo do período imperial? 

Uma exposição muito gratificante para nós foi a montada na Sala do Trono com o acervo dos móveis da Marquesa de Santos. Isso ajudou na valorização da parte histórica do Museu Nacional. Nós tínhamos duas salas históricas com decoração mural e do teto originais, mas normalmente não se dava destaque à parte histórica da época da ocupação do prédio pela família imperial. 

“O museu realizaria atividades que agora nós teremos que improvisar e fazer na área externa. Nos fins de semana, vamos mostrar para o público, diante das ruínas do palácio, que a instituição está viva.”

por Marco Aurélio Marques Caldas
Chefe da Seção de Museologia do Museu Nacional do Rio de Janeiro

Qual acervo da família imperial vocês possuíam? 

Nós tínhamos uma mesa e uma banqueta marchetada que se atribuía a este período. Havia mais instrumentos científicos do que mobiliário, que pertenceram ao Pedro II, de uso pessoal dele. Além disso, tínhamos um busto do Imperador, que provavelmente era da casa enquanto ele morou lá. Mas o mobiliário que veio em regime de comodato da casa da Marquesa para exposição na Sala do Trono tinha várias peças que faziam parte do original do Palácio. Ele pegou fogo junto com o restante. Eram peças lindíssimas, mas infelizmente, só dessa exposição, nós perdemos sessenta e três. 

Essa exposição evocava um pouco da atmosfera dos anos em que o palácio foi ocupado pela família imperial. Nela, havia inclusive uma bandeira do Império fixada e uma peça valiosíssima: a cadeira de despacho de Dom João VI, conhecida como trono. Quando a mãe dele morreu, ele mandou pintá-la da cor preta. 

Vocês estão recebendo ofertas de colaboração, de ajuda?  

Sim, estamos, inclusive o Conselho Federal de Museologia (COFEM) colocou museólogos à disposição do Museu Nacional. 

É importante também declarar que neste momento eu acho que a solidariedade e o entendimento de todos de que nós precisamos erguer o museu é fundamental. O Brasil inteiro tem que se sensibilizar com esta situação e também prestar mais atenção nos outros museus. 

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