A surpreendente dificuldade em fotografar pandas

A fotógrafa Ami Vitale passou três anos tirando fotos de pandas na China, um processo emocionante e surpreendentemente desafiador.Wednesday, September 12, 2018

Por Alexa Keefe
Fotos de Ami Vitale
Um filhote de panda-gigante deitado na grama no Centro de Conservação e Pesquisa do Panda-Gigante de Bifengxia, na Província de Sichuan, na China.

Os pandas são absolutamente adoráveis de se contemplar, mas não foi por isso que a fotógrafa Ami Vitale se apaixonou por eles. Na verdade, descobrir novas formas de fotografar esses ursos icônicos para a National Geographic fez desse um dos projetos mais desafiadores em que já trabalhou.

Ao longo de três anos, Vitale visitou diversas bases de pandas dirigidas pelo Centro de Conservação e Pesquisa do Panda-Gigante da China, das quais Wolong e Bifengxia são as principais.

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"Diferentemente das criaturas animadas e sociáveis que costumamos ver nos zoológicos, ou mesmo dos animais brincalhões que aparecem nos desenhos, os pandas-gigantes são bastante arredios”, diz Vitale. Em Wolong, onde os pandas vivem em grandes habitats fechados, o desafio era esperar uma rápida aparição deles nas densas florestas de bambus ou nos topos das árvores.

A meta é em algum momento soltar na natureza os pandas que nascem aqui, o que significa que eles são protegidos rigorosamente do contato humano. Isso dificultou a aproximação de Vitale ainda mais. Para fotografá-los em seus habitats fechados, ela precisou usar uma fantasia de panda disfarçada com cheiro de urina e fezes de panda, e esperar, desde o nascer até o pôr do sol, pelo momento certo.

Esse disfarce muito provavelmente faz o urso pensar que, em vez de um humano, seja apenas um panda meio esquisito.

Desafios dos ursos

Bifengxia, centro de pesquisa e procriação que conta com cuidadores dedicados o dia todo, apresentava diversas oportunidades para fotografar interações entre os pandas. Mas lá o desafio era conseguir passar pelos protocolos dos cuidadores superprotetores, que se importam muito mais com o bem-estar de seus protegidos do que com uma boa foto.

“Não se trata apenas de conseguir acesso e ganhar a confiança no local,” diz Vitale, “também é preciso ser capaz de trabalhar com um animal selvagem. [Bebês pandas] são frágeis e vulneráveis. Depois de seis meses, eles ganham dentes e garras”. Afinal de contas, diz Vitale, “eles são ursos”.

Ami Vitale vestida com disfarce especial fotografando pandas no Centro Hetaoping de Pandas em Wolong. Pandas treinados para viver na natureza não estão acostumados a ver humanos, inclusive fotógrafos.

Vitale compartilhou alguns dos truques que teve que aprender enquanto tirava as fotos, que foram compilados e publicados em um livro chamado Panda Love: the Secret Lives of Pandas (em tradução livre: Amor de Panda: as Vidas Secretas dos Pandas.).

Quando acontece algo que vale a pena fotografar, você tem que estar pronto. Vitale se lembra de esperar dois dias inteiros sem grandes acontecimentos, até que uma mãe panda desse à luz em seu cercado. Aos poucos, “percebi que ela começava a agir um pouco diferente, então comecei a me preparar. O bebê foi esguichado para fora e logo depois veio um berro. Aconteceu muito rápido”.

“Em segundos”, conta ela, “Ming Ming o pegou com sua boca e deu as costas para nós”.

Presenciar momentos como o nascimento do filhote de Ming Ming — enquanto fotografava esses animais nesses centros de procriação e reincorporação ao habitat dirigidos pelo Centro de Conservação e Pesquisa do Panda-Gigante da China — tocou Vitale profundamente. “Quando comecei a matéria, não sentia tanto entusiasmo pelos pandas, mas depois de passar tanto tempo com eles, entendo porque as pessoas gostam tanto”.

Conexão animal

Enquanto trabalhava no livro, Vitale também começou a perceber que os animais não são notáveis apenas pela aparência adorável — e sim pela conexão que têm com a natureza.

“O que realmente conquistou o meu coração é que você começa a perceber que eles são essas criaturas incríveis, misteriosas e preciosas”, ela conta.

Pandas selvagens vivem a maior parte de suas vidas sozinhos nas montanhas da China, unindo-se apenas por curtos períodos para acasalar e dar à luz. Durante milhões de anos, eles evoluíram para se alimentar de uma dieta perfeitamente adequada ao seu habitat natural — bambu, e muito bambu — o que os torna especialmente vulneráveis à perda de habitat.

A dependência do bambu e a sensibilidade à perda de habitat resultaram em uma redução na população de pandas, e eles estavam na lista de animais ameaçados de extinção em 1990, incitando um enorme esforço por parte dos chineses para salvá-los. Em 2016, os pandas foram considerados “vulneráveis” pela União Internacional para Conservação da Natureza, um grupo que classifica a situação das espécies em risco de extinção. Isso é um progresso em relação ao cálculo anterior, embora ainda existam ameaças ao seu habitat natural, sem falar na dificuldade da procriação bem-sucedida desses ursos naturalmente solitários em confinamento.

Vitale relembra um momento no seu último dia fazendo a matéria, três anos após o começo de tudo. Ela estava em Wolong, tentando tirar uma boa foto de uma mamãe panda e seu filhote. “Ele estava sempre dormindo, ou então a mãe o escondia. Eu pensava, é isso, a matéria acabou. E, logo antes de eu ir embora, ela segura o bebê em sua boca, sobe nessa colina, coloca o bebê em suas patas e o levanta, como se fosse para me mostrar, e então volta para onde estava.”

Embora isso possa ter sido uma coincidência, para ela foi um exemplo da conexão emocional e espiritual que os pandas produzem nos corações humanos. E é essa consciência da nossa ligação, diz ela, que faz a gente se apaixonar e ter coragem para agir em nome de todas as criaturas com as quais compartilhamos o planeta.

“Salvar a natureza é salvar a nós mesmos”, diz Vitale.

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