Produtores de tulipas na Holanda esperam alta no mercado após o fim da pandemia

A pandemia de covid-19 enfraqueceu a indústria de flores na Holanda, mas o mercado voltou a florescer em 2021.

Publicado 6 de jun de 2021 07:00 BRT
Uma floricultora, na fazenda de flores Van Hage, em Noordwijkerhout, na Holanda, prepara tulipas para ir ...

Uma floricultora, na fazenda de flores Van Hage, em Noordwijkerhout, na Holanda, prepara tulipas para ir ao mercado.

Foto de Muhammed Muheisen

A Holanda, que produz cerca de 90% das tulipas do mundo, viu seu famoso mercado de flores ser um dos primeiros a murcharem. O episódio mais famoso relacionado ao mercado de tulipas holandesas remonta à década de 1630 e ficou conhecido como tulpenmanie (Mania das Tulipas). Na ocasião, um único bulbo de flor chegou a custar 10 vezes mais do que a renda anual média dos produtores de flores até que, em 1637, o mercado de tulipas quebrou.

Na primavera europeia de 2020, mesmo com o fechamento das fronteiras causado pela pandemia de covid-19, os preços das tulipas não ficaram tão abaixo do usual. Mas os bloqueios e o fechamento do comércio fizeram com que a demanda mundial pelas famosas flores e bulbos do país caísse significativamente. Tudo isso provocou a destruição de centenas de milhões de tulipas, narcisos e outras flores ou a venda desses produtos a preços muito inferiores aos dos últimos anos.

Michel van Schie, porta-voz do conglomerado industrial Royal FloraHolland, afirma que “um total de 11,4 bilhões de flores e plantas foram comercializadas na Holanda em 2020, o que representa uma redução de 7,8% em relação aos números de 2019”.  O mercado internacional de exportação do país foi de 6,235 bilhões de euros (7,583 bilhões de dólares), em 2019, a 5,974 bilhões de euros (7,266 bilhões de dólares) em 2020.

Na última primavera europeia, os bloqueios das fronteiras e as políticas de lockdown causadas pela pandemia de covid-19 provocaram uma crise tanto no mercado de flores como no setor de turismo na Holanda. A demanda de clientes — geralmente restaurantes, hotéis e eventos, como casamentos — diminuiu consideravelmente. Tudo isso causou um grande impacto nas fazendas de flores, vendedores, casas de leilão de flores e no turismo durante a época de floração, que geralmente vai de meados de março ao início de maio. 

 “Tive de deixar uma estufa de narcisos de aproximadamente 500 metros quadrados morrer antes de destruí-los com uma máquina”, afirma Klaas van Hage, administrador de uma fazenda de flores em Noordwijkerhout. Como muitos produtores, Van Hage teve que destruir cerca de 10% de sua safra em 2020, triturando-a para compostagem ou doando as flores para instituições de caridade. 

As floricultoras Patricia Pasmik e Dominika Ciaranek colhem tulipas em um campo perto da cidade de Lisse, na Holanda. As flores são geralmente colhidas manualmente, para garantir que não percam as pétalas antes de serem levadas ao mercado.

Foto de Muhammed Muheisen

Tulipas e narcisos florescem em campos vizinhos na Firma J. Dignum en Zn, fazenda de flores situada nos arredores de Den Helder, na Holanda.

Um floricultor reúne ramalhetes de tulipas selecionadas em um trator na fazenda de Alex Warmerdam, perto de Lisse, na Holanda.

“Tínhamos cerca de 32 hectares de bulbos em 2020”, diz Caroline Dignum, proprietária de uma fazenda de tulipas, narcisos e açafrões com seu marido Ronald na província de Holanda do Norte. Foi triste, tivemos que destruir muitos bulbos aos quais dedicamos muito trabalho e cuidado”, acrescenta a floricultora. Dos mais de 24 hectares plantados, o casal realizou a compostagem de aproximadamente 2,9 hectares de bulbos de tulipa, o que representa uma perda de cerca de US$ 180 mil. 

Leilões de flores, administrados pela Royal FloraHolland em diversas cidades holandesas, como Rijnsburg, também foram severamente afetados pela pandemia de covid-19. Normalmente, centenas de licitantes compareciam aos leilões, que aconteciam em grandes armazéns onde tulipas, rosas e narcisos eram ofertados. Os leilões seguem o sistema de leilão holandês, ou seja, os preços começam em alta e caem até que as pessoas comecem a dar seus lances.  

“Antes da pandemia, os leilões de flores reuniam um público de quase 900 pessoas”, conta Marjan van der Plas, leiloeira da Royal FloraHolland. Agora, apenas cerca de 100 compradores têm permissão para entrar de uma vez e muitos lances são feitos pela internet.

“Sinto falta da interação presencial”, diz Linda de Ruiter, outra leiloeira da Royal FloraHolland. “Aquela sensação quando os compradores viam os produtos com os próprios olhos no palco acabou”, acrescenta Ruiter.

Como as tulipas chegaram à Holanda

O que se diz é que a indústria de tulipas e flores na Holanda começou com um único bulbo de tulband. Parentes do lírio, essas herbáceas são originárias da Ásia e chegaram à Holanda através da Turquia, trazidas pelos mercadores holandeses no próspero século 17. O nome dado à flor pode ter sido inspirado nos turbantes, então usados pelos turcos.  

O espírito empreendedor e a infraestrutura dos holandeses (bem como um clima ideal para o cultivo) colocaram o país no mapa dos produtores de tulipas. Os jardineiros se tornaram especialistas no desenvolvimento de novas variedades de tulipas para ricos proprietários de terras; as hidrovias e estradas do país facilitaram o escoamento das flores para o mercado. As tulipas se tornaram moda na Europa do século 17 e hoje existem cerca de 4 mil variedades dessa lilácea em quase todas as cores, exceto azul. Em muitas delas, listras e manchas foram causadas por vírus.

Um posto de testes para covid-19 foi montado perto da entrada do jardim Keukenhof, em Lisse. O renomado parque de flores exigia reserva e teste de covid-19 negativo para permitir a entrada dos visitantes.

Mevouw Both, de 90 anos, aprecia as flores no jardim Keukenhof em Lisse, Holanda. O parque foi reaberto no início da primavera europeia deste ano, após a pandemia de covid-19 ter cancelado a temporada de 2020.

Foto de Muhammed Muheisen

Visitantes passeiam pelo jardim Keukenhof de Lisse, que permitiu aos turistas visitação por meio de reserva no início de 2021.

Foto de Muhammed Muheisen

Uma perspectiva mais animadora

Campos e mais campos de tulipas vermelhas, jacintos roxos e narcisos amarelos começaram a florescer em Bollenstreek (região dos bulbos) no oeste da Holanda em março e abril de 2021. Combinado com um aumento nas vendas de flores, as pessoas que trabalham nesse mercado veem as flores como um sinal de renovação e esperança.

“Todo mundo na minha região está otimista esse ano”, afirma Dignum. “Há uma grande demanda por flores e bulbos, diferente do ano passado, em que todos se sentiam inseguros e não entendiam bem a situação.”  

Alguns agricultores fizeram ajustes em seus negócios devido à pandemia e plantaram seus produtos para que pudessem vender as tulipas produzidas em suas próprias floriculturas em vez de importar os bulbos. Outros, como Klaas van Hage, estão vendendo mais produtos na Holanda para compensar o prejuízo trazido pelo mercado internacional. “Temos contratos com grandes supermercados locais e dificilmente exportamos nossos produtos. Somos sortudos por isso”, afirma van Hage.

Em 2021, em um programa piloto com o governo holandês, Keukenhof chegou a receber 5 mil visitantes por dia. Para entrar e apreciar as milhões de flores coloridas, que ficam em volta de um moinho do século 19 e de um castelo do século 17, eram necessários ingressos com tempo de visita limitado e resultado negativo em teste de covid-19 realizado recentemente. Um posto de teste rápido foi instalado perto da entrada do parque.  

Tulipas e narcisos florescem no jardim de uma casa em Noordwijkerhout, na Holanda.

Foto de Muhammed Muheisen

Onde ver as flores

Flores e brotos são uma grande atração turística da Holanda. Em 2019, cerca de 1,5 milhão de pessoas de 100 países diferentes visitaram o jardim Keukenhof no período da primavera holandesa. O parque de aproximadamente 32 hectares em Lisse (cerca de 25 quilômetros a sudoeste de Amsterdã), que normalmente só abre de março ao início de maio, ofereceu apenas passeios virtuais em 2020 devido à pandemia.

“É o ponto alto do meu ano”, diz Mevouw Both, a senhora de 90 anos que visitou Keukenhof no primeiro dia de funcionamento em 2021. “Há muitos anos visito regularmente o parque, mas em 2020 não consegui devido à pandemia.”

A sensação — e o cenário — são de renascimento do país e da indústria de flores. Como diz a floricultora Caroline Dignum, “plantar um bulbo é como ver nosso próprio filho crescer diante de nossos olhos”.

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