Como os “beijos” de cães e gatos podem se tornar letais

Uma série de possíveis agentes patogênicos estão presentes em cada babada ou lambida.

Por Erika Engelhaupt
Publicado 21 de fev. de 2018 18:00 BRT, Atualizado 5 de nov. de 2020 03:22 BRT
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Quando limpam os pelos, os gatos espalham saliva por todo o corpo. Em um estudo, cientistas encontraram quase um milhão de bactérias vivas em cada grama de pele de gato.
Foto de Mitsuaki Iwago, Minden, National Geographic Creative

QUANDO JULIE MCKENNA chegou ao hospital em Mildura, na Austrália, em 2007, ela mal podia falar. Seus braços e pernas estavam gelados e manchados e seu rosto estava ficando roxo.

Os médicos rapidamente disseram que ela estava em choque séptico. Bactérias em sua corrente sanguínea a atacavam por dentro. Mesmo após ter começado a tomar antibióticos, a cor roxa continuou se espalhando e os órgãos começaram a falhar. Depois, partes dos braços e pernas começaram a ficar pretos.

Ela foi hospitalizada por mais de duas semanas antes dos médicos identificarem a bactéria que estava em seu sangue. Era a Capnocytophaga canimorsus, uma bactéria geralmente encontrada na saliva de cachorros e gatos saudáveis.

Somente depois, Julie se lembrou que tinha queimado a ponta do pé esquerdo com água quente algumas semanas antes de ficar doente. Não era uma queimadura feia e ela não tinha pensado muito sobre isso quando o seu cachorrinho da raça fox terrier lambeu a ferida.

Como Julie, muitos de nós não sabemos o que está nadando na saliva de nossos animais de estimação ou o quão perigoso isso pode ser. A nossa pele e os nossos sistemas imunológicos normalmente nos protegem contra os germes de nossos animais de estimação, mas esses sistemas podem ser rompidos.

Cerca de 10 a 15% das mordidas de cachorros ficam infectadas, assim como metade das mordidas de gatos. Algumas vezes, as consequências são fatais: em um estudo, 26% das pessoas com infecções confirmadas de C. canimorsus morreram

Agora, os cientistas começaram a descrever todas as espécies de bactérias que vivem na boca de cachorros e gatos e a compará-las com as nossas próprias bactérias. Esse trabalho está revelando a presença de uma série de agentes patogênicos em cada beijo babado e em cada lambida.

Na boca de um cachorro filhote, a bactéria C. canimorsus não é um grande problema. Pelo menos um quarto de todos os cachorros e muitos gatos a carregam. Normalmente, os humanos não a carregam e, uma vez que as bactérias entraram na corrente sanguínea da Julie, o seu corpo lutou para vencer a infecção.

Os antibióticos geralmente mudam essa situação, mas os médicos tiveram que amputar a sua perna esquerda abaixo do joelho, parte de seu pé direito e todos os seus dedos dos pés e das mãos. “A minha vida mudou em todos os aspectos,” afirmou ao ABC News, da Austrália.

Aqui estão alguns mitos sobre as bocas de nossos animais de estimação e a realidade do que as revestem (e nos revestem) a cada lambida.

Recebendo uma lambida

Se alguém sabe o que tem na boca de gatos e cachorros, esse alguém é Floyd Dewhirst, um geneticista bacteriano do Instituto The Forsyth e professor de estomatologia em Harvard. Dewhirst é um precursor no estudo de microbiomas orais (todas as bactérias que vivem na boca) nos humanos, cachorros e gatos.

Segundo Dewhirst, cerca de 400 a 500 espécies de bactérias são comuns e abundantes na boca humana. Até agora, Dewhirst e os seus colegas identificaram certa de 400 tipos de bactérias orais em cachorros e quase 200 em gatos, e ele acredita que outras serão descobertas com mais estudos.

Ele diz que uma das principais razões pelas quais podemos pegar infecções dos nossos animais de estimação é porque os nossos ecossistemas bacterianos são muito diferentes.

“Se você olhar para humanos e cachorros, só temos cerca de 15% das mesmas espécies”, ele disse. Então, muitas das bactérias da boca do cachorro são menos prováveis de serem controladas pelos nossos sistemas imunológicos e bactérias nativas. Por outro lado, os microbiomas orais de gatos e cachorros são cerca de 50% iguais. 

“Parte disso está relacionado com o que a bactéria come,” disse Dewhirst. As bocas dos humanos são dominadas por bactérias estreptococos, que são boas para comer açúcares. “Já que os gatos e os cachorros normalmente não comem muitas rosquinhas, eles quase não têm estreptococos,” ele disse.

Dewhirst diz que uma única lambida pode depositar incontáveis dessas bactérias estranhas e elas são detectadas pela pele humana até horas depois. Ao estudarem os microbiomas da pele dos humanos, os cientistas ficaram surpresos ao encontrarem várias pessoas com partes de peles cheias de bactérias de cachorro.

“Então, se você for lambido por um cachorro e alguém pegar um cotonete cinco horas depois e esfregar aquele lugar, pode-se recuperar mais de 50 espécies diferentes de bactérias da boca de um cachorro,” ele disse.

Cachorros curadores?

Estranhamente, a história está cheia de crenças que sugerem que a saliva canina pode mais curar do que fazer mal. Supostamente, cachorros lambiam feridas de Esculápio, o deus da cura, no templo na Grécia antiga. E tem uma fábula antiga e não confirmada de que o exército de César tinha cachorros para lamberem feridas.

Mesmo se isso for verdade, não significa que foi uma boa ideia.

Estes gatos têm as babás mais improváveis
Dois supostos 'inimigos' dos felinos cuidam dos gatinhos orfãos em uma café no Brooklyn.

Existem vários compostos antibacterianos nas bocas de gatos e cachorros – incluindo pequenas moléculas chamadas peptídeos – e em bocas humanas também. Mas a língua do seu pet não é uma fonte mágica de exterminadores de germes.

Você não gostaria de depender desses compostos para esterilizar uma área, disse Dewhirst. Muitas bactérias prosperam na boca apesar das presença deles.

Além disso, estudos de propriedades antibacterianas da saliva foram feitos fora de contexto, disse a veterinária Kathryn primm, que escreve com frequência sobre cães e gatos.

Um estudo de 1990 descobriu que a saliva de cachorros tinha efeitos antibacterianos leves quando uma mãe lambia a si próprio e ao filhote, Primm aponta. E um artigo de 1997 do The Lancet mostrou que na pele, o nitrito da saliva é convertido em óxido nítrico, que é antimicrobiano.

Mas ambos estudos envolveram lambidas entre espécies iguais, não uma espécie lambendo a outra com uma boca cheia de bactérias estrangeiras. Um exemplo foi um soldado que deixou um cão lamber sua ferida em 2016 – ele passou 6 meses em coma enquanto bactérias comiam sua pele.

Preparado para o sucesso

Então, se a boca do seu bichinho estiver cheia de bactéria, qual limpo ele fica quando lambe a si mesmo?

A razão para felinos domésticos gastarem tanto tempo se lambendo é para reter o instinto de predadores. Felinos selvagens usam suas línguas ásperas para “limpar sangue e outras coisas do pelo”, diz Primm. “Eles não querem ser encontrados pelo cheiro das suas presas.”

Cães, por um outro lado, não são tão frescos. “Se você não limpar um cachorro, ele simplesmente vai ficar sujo”, diz Primm. “Eles não são caçadores furtivos e ninjas como os gatos, por isso não importa tanto de um ponto de vista de sobrevivência.”

Enquanto se limpam, os gatos também se cobrem de bactérias, mas eles evoluíram juntos com os micróbios e seus sistemas imunológicos estão acostumados – não é um problema para os gatos.

A boa notícia para donos de animais domésticos é que a maioria das bactérias orais de gatos não sobreviverão para sempre nos pelos dos felinos. A má é que elas não morrem tão rápido: um estudo encontrou quase um milhão de bactérias vivas em cada grama de pelo de gato.

A equipe também testou quantas bactérias foram transferidas de um gato para as mãos pré-esterilizadas que acariciaram o felino por dois minutos. A resposta viria como um alívio para os donos de gatos: apenas cerca de 150 bactérias fez a transferência durante a carícia.

Isso não representa um problema enquanto nos mantemos limpos também. “Eu sempre alerto as pessoas a terem o básico de higiene”, disse Primm. “Depois de um animal lamber suas mãos, é uma boa ideia lavá-las.”

A coisa mais importante sobre a qual os donos de pet precisam se atentar é a possibilidade das bactérias atravessarem a pele, segundo Primm. Quando dentro de nós, bactérias encontram um lugar húmido e feliz para crescer – o que pode levar a infecções.

Em relação aos cães e suas bocas lambuzadas de baba, elas normalmente não são perigosas – considerando que seu sistema imunológico esteja forte e você não tenha nenhum ferimento no seu rosto ou boca que poderia levar bactérias ao fluxo sanguíneo. “Dois cachorros diferentes me lambeu na boca esta semana”, disse Primm.

Mas tenha em mente que bebês e idosos em geral possuem sistemas imunológicos mais fracos que adultos saudáveis. Em um caso, pais levaram o filho de sete semanas para o hospital – ele tinha febre e um inchaço na parte macia da cabeça.

No fim das contas, os médicos descobriram que ele tinha meningite causada por Pasteurella multocida, outro patógeno comum nas bocas de gatos e cachorros. O irmão de 2 anos da criança tinha dois hábitos melequentos: deixava o cão lamber suas mãos e o irmão chupar o dedo dele.

Então, lave suas mãos, amantes de bichos de estimação, e, talvez, pense duas vezes antes de deixar um cão ou um gato dar aquele beijo bem molhado no seu rosto.

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