Ferramentas mais antigas encontradas fora da África reescrevem a história humana

Novas evidências sugerem que nossos ancestrais deixaram o continente muito antes do que pensávamos.

Publicado 13 de jul. de 2018 16:57 BRT, Atualizado 5 de nov. de 2020 03:22 BRT
homo erectus china
O planalto de Loess, na China, detém o recorde de abrigar as mais antigas ferramentas encontradas fora da África, de acordo com surpreendente estudo publicado na revista Nature.
Foto de Zhaoyu Zhu

Os parentes antigos dos humanos modernos deixaram a África antes do que se acreditava. A nova descoberta, revelada na quarta-feira pela revista Nature, reescreve um capítulo importante na história da humanidade.

Cerca de cem ferramentas encontradas no sítio de Shangchen, na China, podem retroceder em mais de 250 mil anos a disseminação dos hominídeos para além da África.

Os donos das ferramentas viveram em Schangchen por cerca de 800 mil anos, entre 2,1 e 1,3 milhões de anos atrás, deixando ferramentas jamais encontradas fora da África. As mais antigas têm aproximadamente 300 mil anos a mais que Dmanisi, sítio arqueológico de 1,8 milhões de anos na República da Geórgia, onde foram encontrados os mais antigos fósseis do extinto Homo erectus.

Alguns dos artefatos das camadas mais antigas dos sedimentos de Shangchen.
Foto de Zhaoyu Zhu

“Encontrar artefatos com cerca de 2 milhões de anos – os mais antigos fora da África – foi para mim, um paleoantropólogo, muito emocionante”, diz o coautor do estudo Robin Dennell, professor na Universidade de Exeter.

“Mais pessoas escalaram o Everest do que encontraram ferramentas dessa idade.”

“Sempre disse que assim que os pesquisadores chineses começarem a procurar por evidências na mesma escala com que se procura na África, as coisas vão começar a aparecer!”, disse Gerrit van den Bergh, paleoantropólogo da Universidade de Wollongong, que não estava envolvido no estudo.

“Fica mais uma vez evidente como sabemos ainda tão pouco.”

Primitivos andarilhos

Os humanos modernos, os Homo sapiens, remontam ao impulso migratório para fora da África que ocorreu há cerca de 60 mil anos. Porém, dificilmente essa migração foi a primeira – e nem os humanos modernos foram os únicos a fazer essa viagem. Restos mortais de Homo erectus foram encontrados da Geórgia a Java. Os ancestrais dos neandertais caminharam até a Europa há quase meio milhão de anos. Os primeiros hominídeos se espalharam pelo Pacífico Sul há pelo menos 700 mil anos, dando origem aos pequenos Homo floresiensis e outros povos produtores de ferramentas.

Alguns sítios arqueológicos mostram evidências de uma presença ainda mais antiga na Ásia. Nos anos 80, pesquisadores descobriram antigas ferramentas no Paquistão que poderiam ter 2 milhões de anos. Em 2004, uma equipe chinesa encontrou ferramentas de 1,66 milhões de anos em Nihewan, no norte da China. E, em 2015, pesquisadores concluíram que um crânio de Homo erectus encontrado a menos de 5 quilômetros de Shangchen teria mais de 1,6 milhões de anos.

Convencido de que a China teria sítios ainda mais antigos, Zhaoyu Zhu, autor principal do novo estudo e geólogo da Academia Chinesa de Ciências, começou a cavar em Shangchen em 2004.

Em julho de 2007, um de seus colegas no local notou uma pedra –uma ferramenta feita por hominídeos. Em 2017, a equipe de Zhu descobriu uma faixa no solo de 73 metros com 17 camadas contendo ferramentas de pedra.

“Meus colegas e eu ficamos muito animados”, diz Zhu. “Essa descoberta é imensa e espetacular.”

Mas onde exatamente as ferramentas foram feitas? Para descobrir, a equipe de Zhu analisou os campos magnéticos nas camadas de solo onde elas estavam.

Enquanto cada camada era formada, minerais presentes no solo preservavam a orientação do campo magnético da Terra da época. Como o campo magnético da Terra às vezes inverte a polaridade, alguns campos magnéticos registrados nas camadas também se invertiam – da mesma forma que outros campos da mesma idade no resto do planeta.

Comparando os sedimentos de Shangchen com amostras de solo africano que preservavam as mesmas inversões magnéticas, Zhu pode determinar com precisão as idades de cada camada. Seis das 96 ferramentas analisadas no estudo foram encontradas em uma camada com 2,12 milhões de anos.

Quem fez as ferramentas?

Como não há fósseis de hominídeos próximo às ferramentas de Shangchen, ninguém sabe ao certo quem as fez.

Homo erectus, os donos das ferramentas de Dmanisi, podem ter sido os responsáveis. A espécie produzia ferramentas de pedra e possuía as características necessárias para cruzar continentes. Mas seus fósseis conhecidos mais antigos têm cerca de 1,8 milhão de anos – muito mais novos que as ferramentas de Shangchen.

Em uma colina na província de Shaanxi, na China, esse local de escavação revelou as mais antigas ferramentas de Shangchen. O geólogo da Academia Chinesa de Ciências, Zhaoyu Zhu, e seus colegas, escavaram a área por 13 anos.
Foto de Zhaoyu Zhu

“É possível que o Homo erectus tenha ocupado a China nessa época, mas como a idade do sítio e dos artefatos podem ser ainda mais antigos, outro membro do gênero Homo pode ter ocupado a Ásia, como um ancestral do Homo habilis”, diz Michael Petraglia, paleoantropólogo do Instituto Max Planck, estudioso de ferramentas primitivas na Ásia.

María Martinón-Torres, diretora do Centro Nacional de Pesquisa sobre a Evolução Humana (CENIEH) na Espanha, e autoridade mundial em fósseis de hominídeos na Ásia, diz que alguns fósseis chineses identificados como Homo erectus merecem uma revisão.

“Já é hora de aceitar que nem todos os hominídeos encontrados na Ásia se encaixam no perfil de Homo erectus, espécie que vem sendo utilizada como termo genérico”, ela diz. “Acho que ainda não temos uma conclusão sobre a identidade do primeiro hominídeo asiático.”

Os hominídeos de Shangchen teriam cérebros cerca de um terço menores do que os nossos. Embora isso não seja muita coisa, especialistas dizem ser surpreendente que humanos com cérebros tão pequenos tenham conseguido ir da África à China cerca de dois milhões de anos atrás.

Trabalhos futuros devem esclarecer quem foram esses misteriosos hominídeos. Dennel diz que adoraria ver sedimentos com mais de 2,1 milhões de anos, o que ainda não conseguiu analisar em Shangchen porque muitas fazendas ocupam a região. No resto da Ásia, mais descobertas impressionantes podem ser feitas.

“Por muito tempo, a comunidade científica preteriu a Ásia em favor da África para explicar fatos relevantes da nossa evolução”, diz Martinón-Torres. “Com mais trabalhos de campo na Ásia, tenho certeza que teremos mais surpresas.”

Contribuiu Alejandra Borunda.

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