Animais

Filhotes de elefantes asiáticos estão sendo aleijados por armadilhas

Câmeras revelam que armadilhas de arame para capturar animais para consumo estão ferindo filhotes de elefantes no Camboja. Segunda-feira, 16 Julho

Por Erica Tennenhouse

As Montanhas Cardamomo do Camboja, cobertas de floresta tropical, deveriam ser o paraíso para os elefantes asiáticos ameaçados. Mas câmeras ativadas por sensores de movimentos revelam que a maioria dos filhotes de elefantes da região foram feridos, alguns fatalmente, por armadilhas de arame feitas para outros animais.

Há milhares de armadilhas espalhadas pelo terreno dos elefantes residentes. Caçadores as instalam para alimentar a demanda crescente por carne selvagem de animais pegos ilegalmente, principalmente porcos selvagens e veados. As armadilhas muitas vezes machucam ou matam outros animais.

O povo local acreditava que as armadilhas não machucavam elefantes, de acordo com Jackson Frechette, gerente de espécies emblemáticas da Fauna & Flora International Camboja, uma organização de conservação de vida selvagem. “Eles achavam que os elefantes arrancavam as armadilhas sem se machucarem”, diz ele.

Mas as 51 câmeras que Frechette e sua equipe instalaram a partir de 2016 contam outra história. Eles capturaram fotos e vídeos de quase 45 membros da população de elefantes local. Dos sete filhotes de menos de um ano que os pesquisadores identificaram, quatro foram vistos andando com muita dificuldade e com arames presos às suas pernas. A equipe reportou a descoberta na edição de julho da revista Oryx.

Três outros elefantes também tinham ferimentos em suas trombas, mas apenas os mais jovens ficaram com as pernas mais estreitas presas nas armadilhas. Quando um filhote de elefante esbarra em uma armadilha, o nó do arame se aperta em seu tornozelo, muitas vezes se soltando da âncora e ficando preso na carne do animal.

Esses ferimentos nas pernas podem ser uma sentença de morte para a perna de um elefante, diz Susam Mikota, uma veterinária e cofundadora da caridade com base nos Estados Unidos, Elephant Care Internations. Os arames restringem a oferta de sangue e os cortes profundos podem causar infecções que podem ser fatais. Duas carcaças encontradas com ferimentos como as que foram capturadas pelas câmeras foram recentemente reportadas por moradores locais.

O impacto das armadilhas nos jovens elefantes pode colocar em risco a população, que já é pequena, diz Frechette. Os elefantes ainda estão se recuperando de um período de caça intensa que acabou pouco mais de uma década atrás, quando um policiamento mais intenso foi instalado nas florestas.

De muitas maneiras, as Montanhas Cardamomo são o local ideal para a população se recuperar. Com quase 1,8 milhão de hectares de habitat protegido, consistindo de três parques nacionais e quatro santuários da vida selvagem, é um dos poucos lugares ao alcance dos elefantes asiáticos que pode suportar uma grande população a longo prazo. Mas as armadilhas transformaram as montanhas em um campo minado.

Apesar de muito esforço das equipes de patrulha para remover as armadilhas – mais de 27 mil foram retiradas da área sul do Parque Nacional de Cardamomo em 2015 – elas são baratas e fáceis de armar, por isso são substituídas rapidamente.

Thomas Gray, diretor de ciência do Cambodia’s Wildlife Alliance, uma organização de conservação, que escreveu sobre a crise das armadilhas no Sudeste da Ásia, diz que o problema é muito maior do que os elefantes das Montanhas Cardamomo. A prática, diz ele, fere “todos os animais terrestres, sejam eles elefantes, perdizes ou tartarugas. Está atingindo as florestas de quase todos os países.”

Para contrabalancear a crise, a legislação deve ser fortalecida para que seja mais fácil prender os que instalam as armadilhas.

Ferchette diz que reduzir a demanda pela carne é crucial. Para isso, a Fauna & Flora International Camboja está voltando sua atenção aos consumidores. A equipe planeja lançar uma campanha no próximo ano voltada para reduzir o consumo de carne selvagem.

“Enquanto houver um mercado [para carne selvagem], sempre teremos pessoas dispostas a fazer a caça”, diz Frechette.

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