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Lagosta-das-árvores extinta ressurge depois de novo estudo

Depois de um naufrágio na ilha Lord Howe, ratos invadiram a área e erradicaram a espécie de inseto gigante – pelo menos era assim que pesquisadores pensavam. Quarta-feira, 8 Novembro

Por Sarah Gibbens

Um enorme inseto de uma remota ilha australiana voltou dos mortos.

É difícil não enxergar o inseto de Lord Howe, comumente chamado de lagosta-das-árvores. O corpo marrom escuro mede quase seis centímetros de comprimento, possui abdômen robusto e seis longas pernas.

Durante décadas, ele era dado como extinto, mas uma nova pesquisa de DNA revela que talvez não seja esse o caso. Para entender a complicada e repentina ressureição do inseto, é preciso retornar à pequena ilha, e imaginar como ela era há 100 anos.

O declínio maciço da população desses bichos começou após um naufrágio, em 1918, na ilha Lord Howe, uma pequena e exuberante massa terrestre ao largo da costa leste da Austrália. Além da tripulação, o navio continha uma horda de ratos que rapidamente invadiu a ilha. Sem grandes predadores, a população dos roedores explodiu. A lagosta-das-árvores foi considerada extinta em 1983, assim como outras 12 espécies de insetos e cinco de aves.

Só que, em 1960, um grupo de alpinistas visitaram outra pequena ilha de rocha vulcânica nas proximidades, a Ball's Pyramid. Lá, encontraram o que parecia ser restos mortais das criaturas "extintas". Mas só em 2001 pesquisadores voltaram ao local. Sobre uma árvore-do-chá, a 65 metros acima do nível do mar, eles encontraram alguns exemplares vivos do que pareciam ser os insetos da ilha Lord Howe.

No ano seguinte, vários espécimes foram coletados e colocados em um programa de criação em cativeiro do Zoológico de Melbourne.

No entanto, durante quase uma década, a identidade dos insetos foi objeto de debate. Visualmente, as lagostas-das-árvores criadas em cativeiro pareciam diferentes: tinham corpos mais escuros e pernas traseiras mais finas do que os insetos da Lord Howe encontrados em museus.

Somente com o sequenciamento do genoma dos espécimes do museu e dos insetos capturados que os cientistas perceberam que havia uma variação genética inferior a 1% – o suficiente para classificá-los oficialmente na mesma espécie. As descobertas foram publicadas recentemente pela revista Current Biology.

 

ALGUMAS DÚVIDAS AINDA PERMANECEM

As diferenças sutis ainda são um mistério. Os pesquisadores acham que isso pode ter relação com variações nas condições ambientais ou na idade de cada bicho.

A equipe do estudo considera o caso não só um exemplo de história bem-sucedida da espécie, mas também de como o avanço da tecnologia pode ajudar cientistas a estudar gerações mais antigas de espécies extintas ou ameaçadas.

O que exatamente constitui uma espécie tem sido objeto de debate há tempos. Relatório do Museu Victoria, na Austrália, listou 26 conceitos utilizados para definir o que diferencia uma espécie de outra. De acordo com Alexander Mikheyev, principal autor do estudo, a equipe considera uma espécie nova quando dois organismos não são capazes de trocar material genético.

Esse debate é importante para fins de conservação, particularmente na ilha Lord Howe, onde o governo australiano planeja erradicar a população invasora de ratos – e possivelmente reintroduzir os insetos.

Para Mikheyev, os resultados representam algo mais existencial. Além de estudar mudanças evolutivas usando espécimes antigas de museus, ele espera que outras espécies em risco de extinção tenham mais oportunidades de sobrevivência.

"Recebemos uma segunda chance, isso nos dá esperança", disse ele.

Embora os insetos gigantes da ilha Lord Howe não estejam extintos, eles ainda estão criticamente ameaçados. O número exato de indivíduos vivos na natureza é desconhecido, uma vez que Ball's Pyramid só pode ser acessada por escaladores.

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