Animais

Este papagaio fala como a gente, mas estamos prestes a silenciá-lo

Cientistas estão utilizando técnicas forense para ajudar a salvar o popular papagaio-cinzento, uma das aves mais contrabandeadas do mundo.quarta-feira, 23 de maio de 2018

Por Christine Dell'Amore
Papagaios-cinzentos (na foto, uma ave do zoológico de Dallas, nos EUA) têm a incrível habilidade de imitar a voz humana, fazendo deles animais de estimação muito cobiçados.

Em um suntuoso aviário próximo a Durban, África do Sul, um papagaio-cinzento pula na minha direção, tagarelando em um idioma que eu não compreendo.

“Ele está falando zulu”, explica o criador William Horsfield, responsável por 700 pássaros que falam e pulam constantemente de poleiro em poleiro nos jardins de suas instalações imaculadas. Muitos deles são papagaios-cinzentos, os melhores mímicos entre as 350 espécies conhecidas de papagaios e, por isso, um animal de estimação muito cobiçado.

Muitos de seus cinzentos foram resgatados, como este papagaio que fala comigo em zulu. Eles eram animais de estimação, alguns deles abandonados por seus donos, ou animais confiscados do mercado negro, como a ave encontrada em Brazzaville, na República do Congo, com uma corda amarrada em sua perna.

Alguns dos papagaios que vivem aqui poderiam fazer parte dos 1,3 milhões ou mais de papagaios-cinzentos que foram exportados legalmente da África nas últimas quatro décadas. E isso faz deles os sortudos.

Centenas de milhares de outros, ou talvez mais, morrem em trânsito ou são levados ilegalmente das florestas tropicais da África Ocidental e Central.

Aliás, o papagaio-cinzento foi agora categorizado como ameaçado, gerando a preocupação de que a ave de estimação mais popular do mundo possa se tornar uma das mais raras.

Agora, uma mistura dedicada de conservacionistas, geneticistas, oficiais do governo e outros estão unindo forças para rastrear as capturas ilegais e tentar impedir que elas aconteçam. Eles já desenvolveram métodos científicos capazes de identificar rapidamente se um papagaio foi roubado da floresta.

Mas isso ainda não impediu a captura de aves selvagens em lugares onde elas são relativamente fáceis de serem capturadas, como na República Democrática do Congo, ou RDC, e sua vizinha, a República do Congo.

“As pessoas muitas vezes ficam impressionadas ao saberem que papagaios ainda são capturados na natureza, mas isso acontece em enormes quantidades e com pouquíssima fiscalização” disse Rowan Martin, diretor do Programa de Conservação da África para o World Parrot Trust.

Famosos, mas pouco conhecidos

Os cinzentos, como a maioria dos papagaios, têm uma característica que os torna ainda mais vulneráveis. Eles fazem seus ninhos em cavidades já existentes dentro de grandes árvores velhas. Eles não conseguem fazer seus próprios buracos.

Por isso o impacto do desmatamento é tão grande para eles: os papagaios pais em busca de um ninho “parecem querer exatamente as mesmas árvores que os humanos buscam primeiro” disse Stuart Marsden, que estuda os pássaros na Universidade Metropolitana de Manchester, no Reino Unido.

Além disso, todas as noites os papagaios se empoleiram e socializam nestas altas árvores. “As boates do mundo dos papagaios”, como descreveu Marsden, fazendo deles alvos fáceis. Os caçadores derrubam as árvores para tirar os filhotes de seus ninhos ou posicionam gravetos cobertos de cola na tentativa de ludibriar em massa os adultos.

Um grupo de papagaios Timneh, uma subespécie do papagaio-cinzento, capturado por um traficante de animais selvagens na África Ocidental. Esses animais são muitas vezes malcuidados, e muitos morrem antes de serem exportados.

Para um animal tão querido, Marsden disse, pouco se sabe sobre o papagaio-cinzento na natureza. Um dos primeiros estudos sobre seu declínio, em 2016, revelou que, em Gana, suas populações diminuíram 99%. Uma ave tão familiar para os ganeses quanto um pombo, e que um dia atacavam culturas frutíferas em grandes bandos barulhentos, está quase desaparecendo.

Hoje, aproximadamente 18 mil aves podem ser capturadas ilegalmente na RDC a cada ano, entulhadas em pequenas caixas de transporte ou amassadas em malas de mão. A maioria dos papagaios-cinzentos capturados na natureza provavelmente morre em trânsito.

Combatentes do crime

Enquanto isso, combatentes científicos contra o crime estão empenhados em acabar com o tráfico. Entre eles está o ornitólogo Pepper Trail que, em um laboratório em Oregon, segura gentilmente um xale ornamentado feito de vibrantes penas azuis, amarelas e laranja.

Feito no Brasil a partir de penas de papagaios-do-mangue e araras-azul, é um entre muitos artefatos analisados por ele durante seus 20 anos como ornitólogo forense no único laboratório do mundo dedicado a crimes contra animais selvagens.

Até agora, Trail conseguiu identificar mais de 750 espécies de aves submetidas ao Laboratório Forense da Ashland para o Serviço de Peixes e Vida Selvagem dos Estados Unidos, e esse número continua subindo.

“Pode ser um trabalho triste”, ele disse. “Tudo o que eu vejo está morto”.

Também pode ser um trabalho difícil se houver apenas uma ou duas penas disponíveis. Por sorte, Trail conta com muitas ferramentas a sua disposição, de laboratórios genéticos e patológicos a uma enorme “biblioteca” de referência de animais mortos.

Em uma sala selada com o odor pungente de decomposição, besouros carnívoros devoram diversos corpos de papagaios, incluindo um papagaio-cinzento. Os insetos transformam o animal em um esqueleto limpo, que um dia poderá ser usado como referência em uma investigação criminal.

Ele diz que crimes contra a vida selvagem são combatidos na surdina quanto se trata de papagaios.

Natureza ou cativeiro?

De volta ao aviário na África do Sul, Horsfield prioriza o bem-estar de seus pássaros, vendendo apenas pares (um pássaro solitário tem mais chances de se tornar depressivo e se automutilar), na maioria das vezes para outros criadores, enquanto tenta dissuadir todos exceto os mais sérios compradores de adquirirem papagaios-cinzentos.

“Infelizmente”, ele disse, “você sempre encontrará alguém para conseguir o que você quer”, em referência às instalações a nível industrial que abrigam até mil casais reprodutores de papagaios-cinzentos.

Mas a lei está começando a chegar a esses lugares. Em 2016, a Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção, ou CITES, que monitora o comércio internacional de espécies raras, tomou a decisão controversa de banir todo e qualquer comércio internacional de papagaios-cinzentos, exceto em “circunstâncias excepcionais”.

Um papagaio Timneh selvagem apreendido do comércio ilegal em Serra Leoa. O animal está sendo tratado no Tacugama Chimpanzee Sanctuary, em Freetown, com assistência do World Parrot Trust.

“É uma vitória quanto a mensagem transmitida sobre como este comércio é malconduzido, como causa um grande impacto, e que o mundo não concorda com isso”, disse Marsden.

Para que possam continuar vendendo papagaios-cinzentos para o exterior, criadores ao redor do mundo terão de provar para os inspetores da CITES que suas aves são todas criadas em cativeiro e não capturadas da natureza, o que pode ser difícil, já que a maior parte de seu bando reprodutor veio originalmente das florestas na África Central.

De fato, muitos criadores de papagaios já saíram do mercado. Apenas alguns milhares de papagaios-cinzentos foram exportados em 2017, diz Mpho Tijane, coordenador da implementação da CITES na África do Sul.

“Para muitas pessoas, é sua maior fonte de renda. Da noite para o dia, eles ficaram paralisados” adiciona Ben Minnaar, um antigo criador de aves em Pretória.

Horsfield teme que a nova regulamentação faça com que alguns criadores “disfarcem” suas aves, registrando animais de origem incerta como criados em cativeiro.

Este “contrabando de documentos” já é muito comum entre os papagaios-cinzentos. Comerciantes ilegais falsificam a documentação e talvez ainda subornem oficiais para que registrem aves capturadas na natureza como de cativeiro, disse Susan Lieberman, especialista em comércio internacional de animais selvagens na Wildlife Conservation Society.

Rastreando as origens

Mas pode haver um jeito.

Em seu laboratório ensolarado de pé-direito alto na Universidade de KwaZulu-Natal, Sandi Willows-Munro vasculha um freezer repleto de aves mortas e penas em busca de uma remessa confiscada de aproximadamente 200 papagaios-cinzentos que morreram no ano passado no Aeroporto Internacional King Shaka, em Durban.

“As carcaças chegam para mim. Recebo coisas bem estranhas” diz a geneticista.

Em sua morte, estas aves podem um dia ajudar seus parentes selvagens. Willows-Munro espera desenvolver um método genético que determine se uma ave foi capturada na natureza ou se foi nascida em cativeiro, através da determinação de diferentes perfis genéticos. Dado que aves em cativeiro costumam ser consanguíneas, certas versões de um gene se tornam predominantes e podem servir como uma impressão digital para o cativeiro. (Saiba mais sobre o mercado negro de beija-flores.)

Aparentemente, este trabalho com DNA poderia resultar em um teste que permita aos criadores, compradores em potencial ou inspetores nos aeroportos tirarem uma amostra de uma ave e revelar sua origem.

Craig Symes, ornitólogo na Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, estudou uma abordagem similar utilizando isótopos. Ele descobriu que analisar isótopos, ou diferentes variantes de um elemento, nas penas de papagaios-cinzentos poderia revelar suas dietas e, assim, suas origens.

Por exemplo, pássaros em cativeiro se alimentam de certos tipos de plantas com uma assinatura indicativa, como o milho, enquanto seus parentes selvagens têm uma dieta muito mais diversificada.

“Isso poderia ser usado como prova em qualquer julgamento em que alguém afirme que os pássaros foram criados em cativeiro, enquanto, na verdade, foram capturados da natureza” disse Symes.

“Nunca me canso disso”

Enquanto isso, criadores como Minnaar planejam continuar fazendo o que amam. “Adoro criar papagaios. Tomar conta dos ovos, tirar os bebês de dentro de suas cascas”, contou ele, em meio à gritaria constante de seu “berçário”.

Próximo a sua casa no interior da África do Sul, ele instalou uma série de incubadoras repletas de filhotes, em sua maioria cacatuas, em diferentes fases de desenvolvimento, como um grande berçário de hospital.

E, neste momento, estão todos com fome.

Começando pelos recém-nascidos, Minnaar alcança as incubadoras e alimenta os filhotes de bocas abertas com seringas. Ao serem alimentados, cada filhote rosado e desengonçado bate feliz suas pequenas asas.

“Nunca me canso disso”, diz Minnaar, sorrindo.

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