Animais

Ursos-pardos de parque norte-americano serão caçados pela primeira vez em décadas

A caça esportiva, que começará em setembro, é controversa entre o público e conservacionistas, apesar do apoio de biólogos do estado. Terça-feira, 29 Maio

Por Todd Wilkinson

Pela primeira vez em quase duas gerações, os icônicos ursos-pardos, que há muito são associados às florestas dos arredores do Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, poderão ser caçados legalmente como esporte.

A Comissão de Caça e Pesca de Wyoming deu sua aprovação unânime em 23 de maio, dando início à controversa caça ao urso no próximo outono do hemisfério norte, a partir de setembro deste ano. Isso permitirá a caça de 22 ursos-pardos, dos quais 12 poderão ser fêmeas. Os grandes predadores poderão ser caçados por esporte em terras públicas e privadas logo além do Yellowstone e de seu parque vizinho, o Grand Teton.

Poucas foram as questões sobre vida selvagem nos últimos anos que levantaram tantas controvérsias e tantos ânimos quanto o debate sobre o futuro dos ursos-pardos no oeste americano. O debate repercute não apenas entre os moradores locais, mas também internacionalmente, dado o prestígio dos parques mundialmente conhecidos e o perfil de estrela que estes animais têm nas mídias sociais.

Colocado à beira da aniquilação há apenas algumas décadas, a recuperação dos ursos-pardos no grande ecossistema de Yellowstone é dito como uma das conquistas de conservação mais notáveis na história recente dos Estados Unidos. Em 1975, quando a população destes animais foi posta sob proteção federal emergencial pelo Serviço de Peixes e Vida Selvagem, cientistas dizem que apenas 136 indivíduos perduravam em Yellowstone e nas florestas próximas. Hoje, há quase cinco vezes mais ursos (por volta de 700 indivíduos), com alguns deles aparecendo em locais que não eram vistos havia mais de um século.

Há um ano, o governo federal americano abdicou sua administração para três estados ao norte das Montanhas Rochosas, e a caça aos ursos-pardos em Wyoming será a primeira em 44 anos. Enquanto oficiais insistem que a perda de 22 ursos-pardos para a caça não comprometerá a recuperação dos animais, um grande coro de críticos condena a caça de troféus. Eles dizem que não é apenas errado eticamente, mas também biologicamente infundado, considerando que os ursos-pardos estão entre os animais terrestres que se reproduzem de maneira mais lenta em todo o planeta.

Questões mais amplas

No centro do debate, muitos dizem, paira uma questão filosófica mais ampla: qual é o propósito de ressuscitar animais selvagens ameaçados em pleno século 21? A questão toma proporções ainda maiores quando se trata de animais como os ursos-pardos, que precisam de muito espaço e são temidos pelas pessoas, mas que ainda assim encaram ameaças crescentes com o crescimento populacional humano, pressões do desenvolvimento e mudanças climáticas.

“Os ursos-pardos são animais extremamente inteligentes, que merecem nossa reverência e respeito”, diz o aclamado fotógrafo de vida selvagem Thomas D. Mangelsen. “Wyoming está tratando eles como árvores excedentes que podem ser cortadas. Há alguma dignidade em matar um animal para que um indivíduo possa ter o direito de se gabar e transformar o urso em uma cabeça na parede ou em um tapete no chão?”.

Mangelsen, que vive em Jackson Hole, observou e documentou de perto a vida e morte de uma família de ursos liderada pela mãe urso, cuja identidade numérica dada por pesquisadores era a de “399”. Ela e seu clã viviam parte do ano dentro do Parque Nacional de Grand Teton, ao lado do Yellowstone, mas seu refúgio era na floresta nacional, onde a caça esportiva é permitida.

Dezenas de milhões de dólares foram gastos na tentativa de manter os ursos vivos e aumentar sua população. A aprovação do estado de Wyoming para a caça esportiva não foi inesperada.

O que surpreendeu muitos foi a quantidade de ursos-pardos permitidos, além de remoções letais relacionadas a ações de gestão e outras causas de mortalidade. Em 2017, 56 ursos morreram devido à caça ilegal, conflitos com caçadores e fazendeiros, e impactos como colisões com carros na região.

Escolhendo pecar pelo excesso de cautela, o estado de Montana, outro estado na área do grande Yellowstone, rejeitou a possibilidade da caça em 2018. O Estado de Idaho diz que permitirá a morte de apenas um urso macho.

Urso famoso

As fêmeas da espécie muitas vezes não concebem seus primeiros filhotes até completarem quase uma década e, depois disso, uma mãe dá a luz a novos filhotes apenas a cada três anos. Uma vez que a perda de relativamente poucas fêmeas adultas pode significar a diferença entre o crescimento ou declínio de uma população, esforços agressivos foram feitos para mantê-las todas vivas nas últimas décadas.

A história da família de pardos 399 ilustra o tamanho do impacto que a sobrevivência de uma única fêmea saudável pode ter. Ao longo de seus incríveis 22 anos, a fêmea 399 deu à luz a três ninhadas de trigêmeos, além de pares de gêmeos. No total, 17 ursos são seus descendentes, mas boa parte deles morreu devido ao encontro com pessoas, mostrando como pode ser frágil a sua recuperação.

“A ursa-parda 399 é notável, porque milhões de pessoas a conhecem”, disse Mangelsen. “Mas, na verdade, há uma versão da 399 em cada córrego ou riacho onde podemos encontrar ursos-pardos hoje na região do Yellowstone.”

Caça como gestão?

Membros da comissão de vida selvagem de Wyoming concordam com o gestor sênior de carnívoros do estado, Dan Thompson, que diz que a caça é uma importante ferramenta de gestão. Quando empregada de maneira responsável, ela gera um maior suporte para a conservação dos ursos entre a população rural, que lida com os ursos-pardos em seu cotidiano, ele disse.

“Está na hora [dos ursos serem caçados]”, disse o ex-senador dos Estados Unidos Alan K. Simpson, residente da cidade de Cody, na região do Parque Nacional de Yellowstone. Ainda irritado com os processos judiciais conduzidos por ambientalistas que retardaram a entrega da gestão de lobos para o controle do estado, Simpson diz que a caça de espécies consideradas biologicamente recuperadas faz parte do acordo que acompanha a remoção dos animais de proteção federal.

Mas alguns defensores dos ursos-pardos discordam. Populações de águias-carecas e falcões-peregrinos também foram recuperadas nos Estados Unidos com o Ato de Espécies Ameaçadas, eles observam, mas nenhuma das duas aves icônicas pode ser caçada hoje.

Bonnie Rice, representante do Sierra Club na região, aponta para uma gama de problemas em potencial que podem surgir com a caça, incluindo ursas fêmeas sendo confundidas com machos, mães sendo mortas, deixando seus filhotes órfãos, rinhas de ursos (que ainda são permitidas em uma parte da zona de caça), causando conflitos entre ursos-pardos, além de ursos como a 399, conhecida por sua alta reprodução, que poderão ser eliminados indiscriminadamente.

Visando oferecer uma maior proteção aos ursos conhecidos, como a 399, o estado não permitirá a caça nas proximidades dos parques de Yellowstone e Grand Teton, mas ursos ainda podem ser abatidos a 500 metros de estradas em todas as sete zonas de caça.

Thompson diz que qualquer caçador que obtiver sua permissão para caçar ursos-pardos deve participar de um curso. A última coisa que o estado quer é que a população chegue a um número abaixo de 500 ursos, ele diz, o que poderia resultar na volta dos ursos-pardos à lista de espécies protegidas federalmente. Medidas de segurança adequadas foram adotadas para garantir que isso não aconteça, ele disse.

A oposição aumenta

No momento, diversos processos judiciais conduzidos por ambientalistas e tribos indígenas americanas estão em trâmite buscando restaurar a proteção federal para os ursos-pardos, o que poderia resultar na suspensão da caça esportiva.

Mais de 650 mil comentários públicos foram submetidos em resposta à remoção dos ursos da proteção federal, o que permitiu alguns estados recomeçarem a caça. A maioria expressou oposição. Cientistas e fotógrafos de vida selvagem também escreveram cartas apontando que a observação de ursos, atividade que pode chegar a movimentar 1 bilhão de dólares na economia da região em ecoturismo, faz dos ursos-pardos muito mais valiosos vivos do que mortos.

Em Wyoming, a opinião entre os moradores está dividida quanto à caça, embora as forças pró-caça tenham uma voz forte e influente. “O maior troféu dos Estados Unidos Continentais é um urso-pardo macho. Agora você não terá de ir até o Alasca para pegar um deles”, disse Scott Weber à um jornal local, residente da cidade de Cody, Wyoming, e membro da organização Wyoming Sportsmen for Fish and Wildlife. Muitas pessoas, principalmente comerciantes de lojas de caça e guias, compartilham do entusiasmo de Weber.

O premiado escritor de caça Ted Kerasote, morador de Kelly, Wyoming, cidade com vista para a Cordilheira Teton, já viu ursos-pardos atravessarem seu quintal. Kerasote diz que caça apenas animais que possa comer.

“As pessoas tentam me dizer que, se não sou a favor da caça de ursos-pardos, que eu sou anti-caça. Já fui chamado de anti-caça, mesmo tendo matado muito mais alces do que aqueles que disseram isso”, confessa. “Há uma atmosfera de tremenda polarização neste país. Ela é baseada na crença de que, se você não está totalmente a nosso favor, está contra nós. Aqueles que dizem que devemos matar ursos-pardos por esporte estão do lado errado da história. E eles não estão ajudando a causa da caça”.

Os estados não podem dizer que a caça é uma ferramenta de gestão essencial porque não é, disse Kerasote. Os ursos-pardos foram administrados com sucesso na região do Yellowstone sem a caça por quatro décadas. Além disso, entidades do estado não podem afirmar que as receitas geradas através da venda de licenças para ursos, tabeladas em 6 mil dólares para caçadores de fora do estado e 600 dólares para residentes de Wyoming, resolverão seus problemas de verbas. Wyoming tem observado uma séria crise orçamentária com a queda de receitas resultante do declínio do mercado de carvão.

“Wyoming, Montana ou Idaho não conseguirão se livrar de suas grandes crises fiscais montados nas cabeças de ursos mortos”, observa. “Não se pode matar essa quantidade de ursos através da caça, além da quantidade que já está morrendo devido a uma variedade de causas, e não ter um impacto negativo nas populações de ursos”.

Randy Newberg, da cidade de Bozeman, Montana, era membro de um grupo especial de trabalho encarregado de avaliar a situação da população de ursos na região do Yellowstone. Ele apresenta um dos programas esportivos mais populares do Youtube e apoia a caça. No entanto, ele está preocupado que um incidente ruim possa se tornar um pesadelo de publicidade para a imagem da caça, que já enfrenta números decrescentes em todo o país.

A oposição pública à caça dos ursos-pardos não é exclusiva a região do Yellowstone. No fim de 2017, autoridades governamentais da província ocidental do Canadá da Colúmbia Britânica, onde há uma estimativa de 15 mil ursos, movimentou-se para banir qualquer caça esportiva aos ursos-pardos.

“Como alguém preocupado com a caça e seu papel positivo na sociedade, estou muito preocupado que a caça de ursos-pardos na região do Yellowstone possa fazer com que a revolta causada por Cecil, o leão [em Zimbabwe, texto em inglês] pareça com um terremoto 1.0 na escala Richter”, ele disse. “No momento em que alguém atirar em um urso como a 399 acidentalmente, por despeito ou por ignorância, isso se transformará em um desastre para a comunidade de caçadores na mesma magnitude do terremoto de São Francisco em 1906”.

Ele oferece uma recomendação aos demais caçadores: “O urso-pardo é único. Os estados deveriam ter muito orgulho do fato de terem participado de sua recuperação”, disse Newberg. “Mas os ursos-pardos devem ser tratados como a espécie especial que são, sejam eles gerenciados através da caça ou não. Se fizermos isso errado, a culpa será nossa. O público nunca nos perdoará por isso”.

Em uma audiência perante a Comissão de Caça e Pesca de Wyoming, Mangelsen, um antigo caçador, defendeu a suspensão da caça esportiva de ursos-pardos.

“Eu e muitos, muitos dos meus amigos caçadores acreditamos que matar ursos-pardos por diversão, por esporte ou tratá-los como troféus para satisfazer o ego de alguns indivíduos é errado”, ele disse. “Considerem o panorama geral. Não há uma necessidade determinante. Esses animais merecem algo melhor. Como a minha querida amiga Jane Goodall diz, eles são extraordinários e raros no mundo moderno”.

Caso os processos judiciais dos ambientalistas não consigam impedir a caça, Mangelsen diz que há rumores entre defensores de ursos-pardos sobre grandes protestos. “Ao invés de protestos como o que aconteceu em Standing Rock em resposta à construção do gasoduto Keystone XL, nós chamaremos nosso protesto de Standing Bear” (ou ‘de pé pelos ursos’).

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