Animais

Por que alguns morcegos caçam durante o dia

Morcegos que enfrentam a luz do dia podem explicar por que a maioria de seus parentes tem hábitos noturnos. Quarta-feira, 5 Dezembro

Por Jeremy Rehm

A CERCA DE 32 QUILÔMETROS A LESTE da Península Malaia está a Ilha de Tioman, um pedaço de terra com florestas densas, contornado por praias de areias douradas. Centenas de espécies habitam a ilha, incluindo algumas “esquisitices”, como bagres que andam em terra firme, "lêmures voadores" chamados de colugos e morcegos que caçam durante o dia, a mais recente descoberta.

Não—você não leu errado. Cientistas observaram diversos morcegos-de-ferradura-de-Blyth voando pela floresta em busca de insetos em plena luz do dia, dia após dia.

Esse comportamento os diferencia de quase todas as demais espécies de morcego do mundo—do México ao Vietnã—porque esses outros morcegos caçam à noite.

"Esse é um caso especialmente interessante na ilha", diz Marcus Chua, estudante de pós-graduação na Universidade de George Mason, que descreveu o comportamento dos morcegos-de-ferradura no início do ano na revista científica Mammalia. "É bastante surreal".

Porém, essa não é a primeira espécie de morcego a se aventurar na luz do dia—na verdade, é a quarta. E as outras três espécies também têm uma ilha como seu habitat. Os cientistas não deixaram essas semelhanças passarem despercebidas. Pelo contrário, eles as utilizaram para responder a uma importante pergunta evolucionária: por que os morcegos possuem hábitos noturnos?

Forçados noite a dentro

Há cerca de 1,4 mil espécies de morcego em todo o mundo. E, independente de se alimentarem de frutas, néctar, insetos ou até mesmo sapos, a maioria, quase invariavelmente, caça à noite.

Nos últimos 40 anos, cientistas trabalham com a hipótese de que os pássaros tenham forçado os morcegos a se tornarem noturnos. A competição com pássaros que também se alimentam de insetos, como os andorinhões, ou ameaças vindas de aves que se alimentam de morcegos, como os gaviões e os falcões, pode ter pressionado os mamíferos voadores a evitarem a luz do dia há cerca de 54 milhões de anos, quando evoluíram e se transformaram nos animais que conhecemos hoje.

Outra teoria é que os morcegos sejam pouco tolerantes ao calor. Suas asas pretas e finas facilmente absorvem os raios solares. Consequentemente, os morcegos poderiam sofrer superaquecimento se ficassem expostos durante o dia.

John Speakman, zoólogo da Universidade de Aberdeen, começou a investigar os hábitos noturnos dos morcegos no início da década de 1990, principalmente porque ele nunca tinha uma boa resposta quando era questionado sobre o assunto pelo público, diz ele.

Para testar essas hipóteses, Speakman procurou um local onde os predadores e os concorrentes dos morcegos, ou ambos, estivessem ausentes—como uma ilha.

Ele tentou encontrar uma resposta na Ilha de São Miguel, a alguns quilômetros da costa oeste de Portugal. A ilha abriga um morcego que se alimenta de insetos chamado Azores noctule, que, de acordo com o que Speakman havia lido, era normalmente avistado voando durante o dia. Considerando que quase nenhuma ave insetívora ou predatória habita a ilha, parecia ser um bom ponto de partida.

"Para compreender por que eles voam à noite, é preciso analisar as exceções... [para] ver o que eles fazem e o que está acontecendo", afirma Speakman.

Ele e um colega viajaram para São Miguel em 1988. Ele conta que, na verdade, eles avistaram um morcego voando durante o dia algumas horas após terem chegarem à ilha.

Comportamento excepcional

Embora sejam poucos os morcegos que voam de dia, Speakman tinha um talento especial para encontrá-los, seja no continente europeu ou próximo ao Círculo Polar Ártico. As ilhas, entretanto, forneciam os experimentos naturais de que ele e outros precisavam para testar cada teoria.

Em 1995, Speakman enviou uma aluna à Samoa para testar a hipótese do superaquecimento com a raposa-voadora-da-Samoa, um morcego endêmico que voa durante o dia e consegue suportar o calor. Ela comparou o momento em que os morcegos apareciam para se alimentarem de frutas com as alterações climáticas anuais da ilha. A estudante observou que os morcegos regularmente evitavam as horas mais quentes, mas que ainda apareciam durante o dia com frequência, conta Speakman. Essas observações sugerem que a hipótese de os morcegos terem se tornado noturnos para evitar o superaquecimento não esteja correta.

Em alguns lugares, predadores, concorrentes ou ambos podem estar ausentes, dando aos morcegos a chance de aparecerem durante o dia. É um cenário especialmente ideal para morcegos que se alimentam de insetos, pois os insetos são quase 100 vezes mais abundantes durante o dia.

"É exatamente isso que acontece em algumas ilhas", diz Danilo Russo, ecologista animal da Universidade de Naples Federico II, na Itália, que posteriormente se juntou à investigação para entender os hábitos noturnos dos morcegos.

Entre 2009 e 2010, Russo e seus colegas viajaram para a Ilha de São Tomé, a oeste de Gabão. Eles queriam registrar a atividade dos morcegos-folha-redonda-de-Noack, a espécie da ilha. Devido ao fato de a ilha não possuir aves predatórias, os cientistas suspeitavam que os morcegos apareceriam de dia. E eles estavam certos, pois observaram morcegos caçando regularmente das 9 da manhã até às 3 ou 4 horas da tarde.

"Morcegos que voam durante o dia são a exceção que confirmam a regra", diz Russo.

O significado disso

Os cientistas concordam que o fato de os morcegos serem animais noturnos esteja provavelmente ligado à ação predatória de outros animais. Até mesmo os morcegos-de-ferradura da Ilha de Tioman voam por todos os cantos sem nenhum predador aéreo à espreita.

Contudo os cientistas ainda estão cautelosos em relação à conclusão. Algumas das ilhas com morcegos que voam de dia também abrigam outros morcegos que somente caçam à noite. E, considerando a pequena amostra de morcegos que caçam de dia, diz Speakman, é difícil afirmar alguma coisa com certeza.

Entretanto descobertas como essa na Ilha de Tioman continuam a fornecer aos cientistas novas oportunidades de pesquisa sobre os hábitos noturnos dos morcegos.

"Na minha opinião, esse comportamento sugere que os hábitos sejam muito mais flexíveis do que imaginávamos", afirma Chua.