Animais

Tarântula recém descoberta tem um chifre bizarro nas costas

Encontrada em parte pouco explorada de Angola, o aracnídeo faz tocaia para suas presas durante a noite. Sexta-feira, 22 Fevereiro

Por Carrie Arnold

Assim que John Midgley voltou ao acampamento e abriu o pequeno pote, ele sabia que tinha encontrado algo incrível.

À luz do fogo crepitante ao sudeste de Angola, o entomologista examinou a tarântula de aparência estranha que acabara de capturar. Havia um chifre grande e levemente maleável nas costas do animal.

Como Midgely não é especialista em aranhas, enviou mensagens com fotos de sua descoberta a seu colaborador, Ian Engelbrecht na Universidade de Pretória.

“Ian me acusou de ter usado Photoshop nas fotos,” brinca Midgley, do Museu KwaZulu-Natal na África do Sul. Então, ele saiu na noite seguinte e encontrou várias outras tarântulas com o mesmo chifre.

“Foi assim que eu soube que tínhamos descoberto uma nova espécie. É estranho saber que já temos algo especial logo no início do processo,” diz ele.

A equipe batizou a nova tarântula de Ceratogyrus attonitifer, que em latim significa “aquela que traz admiração” e publicou seus resultados esta semana no periódico African Invertebrates.

Pescando aranhas

Após uma guerra civil de 26 anos que terminou em 2002, a biodiversidade da Angola continuava sendo um grande mistério—ninguém sabia o que havia restado.

Em 2015, a National Geographic Society e uma equipe internacional de cientistas lançaram o Projeto Okavango Wilderness, cujo objetivo é pesquisar essa região importante e subvalorizada. O projeto convidou diversos especialistas, incluindo Midgley, a irem à região central e leste da Angola para descobrir quais espécies viviam lá.

Em novembro de 2016, Midgley estava cruzando Angola em busca de insetos e aranhas, escaneando o solo à procura de sinais de seus amigos de várias patas.

Em um gramado pantanoso sazonal rodeando um lago em Angola (Midgley não conta o local exato para evitar o contrabando dessas tarântulas como animais de estimação), ele identificou uma série de buracos de cerca de 2,5 cm de diâmetro e pouco mais de meio metro de profundidade.

Para ver se algo vivia lá dentro, inseriu uma folha de grama. Imediatamente, alguma coisa puxou a ponta. Então, ele voltou à noite e, assim que sentiu uma fisgada, puxou a tarântula de dentro da toca.

“Foi bem parecido com uma pesca,” conta Midgley. “É preciso segurar firme para que não tirem a grama da sua mão.”

Uma predadora que fica de tocaia

O grande chifre nas costas da tarântula imediatamente a classificou como um membro do gênero Ceratogyrus. Muitas aranhas deste grupo apresentam protuberâncias similares, mas que são bem menores e mais duras. A haste nas costas da C. attonitifer é do tamanho de seu abdômen e é composto por gordura, e não músculo.

Os cientistas sabem muito pouco sobre essa nova aranha—incluindo a forma como usa seu chifre—mas sabem que a C. attonitifer é uma predadora que faz tocaia noturna. Ela dorme durante o dia no fundo da toca e passa as noites na entrada, esperando para atacar subitamente insetos e outras presas.

A aranha utiliza veneno para matar e dissolver suas vítimas, sorvendo a nutritiva sopa de inseto depois da ação do veneno.

Particularmente caseiras

Embora Midgley tenha descoberto dez tocas nos 300 metros quadrados ao redor de seu acampamento—uma alta densidade para um predador—ele só encontrou a espécie em volta de um lago angolano em particular.

“As aranhas babuínas habitam lugares bem específicos,” diz Heather Campbell, entomologista ecologista da Universidade de Harper Adams e que não participou do estudo. “Aranha babuína” é um termo genérico para a subfamília de tarântulas nativas da África. “Uma das espécies pode fazer suas tocas apenas em um determinado tipo de areia, enquanto outra pode construir próximo a um tipo de rocha específica.”

Se seu habitat for comprometido, essas aranhas simplesmente não conseguem se mudar. Isso, em conjunto com uma expectativa de vida longa e baixa taxa de reprodução, faz com que essa espécie recém-descoberta seja vulnerável.

Esse tipo de pesquisa de biodiversidade básica é muito útil para desvendar os mistérios de Okavango.

“Toda vez que estamos em meio à natureza, encontramos novidades admiráveis e fascinantes,” diz Campbell.

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