Visão rara: Lince é flagrado em região urbana nos Estados Unidos

Os linces estão presentes em todo continente norte-americano, mas geralmente não são encontrados nas cidades.segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

O ECOLOGISTA DAN HERRERA capta as imagens de diversos animais nas armadilhas fotográficas que ele ajuda a colocar nas áreas verdes em Washington D.C., capital dos EUA. O corredor verde que contorna o rio Potomac, no noroeste da cidade, ao longo do qual passam uma ciclovia e o canal Chesapeake e Ohio, possui grande abundância de animais: lá ele já avistou coiotes, raposas-vermelhas, castores e até esquilos-voadores.

Mas Herrera viu uma criatura surpreendente ao analisar as fotos tiradas por uma câmera localizada a oeste do bairro de Palisades: um lince. O animal silvestre, de sexo desconhecido, passou pelo local às 6h21 da manhã de 9 de novembro (há um grande acúmulo de fotos que ainda não foram analisadas).

“É muito empolgante”, afirma Michael Cove, pesquisador do Instituto Smithsoniano de Biologia de Conservação, que frequentemente trabalha com Herrera. “Claro que é inusitado ver um lince na capital dos Estados Unidos”. Não existem avistamentos confirmados do animal na história recente da cidade.

“Temos relatos de linces urbanos no oeste, mas, até onde sei, é um fenômeno relativamente recente na costa leste dos Estados Unidos”, afirma Herrera. “É fascinante e espero que estimule conversas a respeito.”

As fotos foram obtidas como parte do DC Cat Count (Contagem de Gatos em Washington D.C., em tradução livre), um programa com o objetivo de obter uma estimativa populacional de gatos domésticos e selvagens na região. É administrado conjuntamente pelo empregador de Cove e pela Humane Rescue Alliance, um abrigo localizado na cidade onde Herrera trabalha.

Área de ocorrência ampla

Embora Washington D.C. esteja bem no meio do habitat histórico dos linces, os arredios felinos raramente entram em áreas altamente urbanizadas. O único lince visto recentemente nessa capital foi um macho chamado Ollie que escapou do Zoológico Nacional em 2017. No entanto foi capturado novamente logo em seguida.

Os linces-pardos (Lynx rufus) têm como área de ocorrência todos os 48 estados dos Estados Unidos, à exceção do Alasca e do Havaí, e o animal está em situação relativamente boa: até recolonizaram algumas regiões anteriores das quais tinham sido exterminados, como Iowa, afirma Christopher Kozakiewicz, que estuda a dispersão dos animais no sul da Califórnia e em outros locais.

Assim sendo, para sobreviver, os felinos selvagens necessitam de áreas verdes extensas e bastante interligadas que abriguem populações saudáveis de pequenos mamíferos: ratos, esquilos e coelhos são importantes espécies de presas. Esses felinos possuem uma capacidade de adaptação um pouco menor do que os animais comumente observados na periferia urbana, como coiotes e raposas, que são onívoros e, portanto, possuem uma dieta mais ampla, afirma Cove.

O canal C&O, tecnicamente chamado de Canal Chesapeake e Ohio, um parque histórico nacional administrado pelo Serviço Nacional de Parques, trabalha há anos para melhorar as áreas verdes da cidade. Essa região abriga um habitat ribeirinho florestal, e a descoberta “demonstra a qualidade das áreas verdes que a capital tem a oferecer”, afirma Travis Gallo, ecologista urbano da Universidade George Mason, no condado de Fairfax, Virgínia.

Vindo de longe

Cove afirma que o avistamento mais próximo confirmado de um lince antes dessa descoberta foi cerca de 40 quilômetros a oeste no condado de Loudoun, Virgínia, embora não se saiba ao certo se esse animal vivia na região. É claro que existem populações reprodutivas bem estabelecidas de linces em outros locais da Virgínia, como no Parque Nacional Shenandoah e nas Florestas Nacionais de George Washington e na zona rural de Maryland, segundo Cove.

O rio Potomac serve como um corredor ideal para percorrer áreas rurais fora da cidade, incluindo os Apalaches, onde os animais estão bem estabelecidos.

Os linces são noturnos e ariscos; até mesmo quando os felinos selvagens estão em movimento, raramente são avistados. “São muito tímidos e arredios e evitam bastante as pessoas”, diz Kozakiewicz.

Da mesma forma, geralmente também evitam animais de estimação, afirma Julie Young, bióloga de animais silvestres do Departamento de Agricultura dos EUA que estudou a distribuição e dieta dos animais na região de Dallas-Forth Worth. Os pesquisadores não encontraram nenhuma evidência nas fezes dos linces de que os predadores estariam caçando cães ou gatos.

Os linces estão em boa situação em Dallas, aparecendo em áreas verdes como campos de golfe e até mesmo utilizando espaços altamente construídos, como passagens subterrâneas e até mesmo um estacionamento da loja Home Depot para se locomover, acrescenta Young.

Esse tipo de comportamento não é muito observado na costa leste dos Estados Unidos, onde os linces são mais ariscos, afirma Herrera.

O DC Cat Count continuará em operação, o que talvez forneça mais informações, e o laboratório de Gallo também colocará câmeras nas proximidades da capital na primavera em busca de animais como linces.

“Assim, poderemos analisar se os linces e outras espécies únicas estão apenas de passagem ou se realmente vivem e permanecem nessas áreas verdes”.

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