Serpentes tropicais estão desaparecendo por surto fúngico que tem dizimado suas presas

O fungo quitrídio aniquilou anfíbios em todo o mundo, e novo estudo mostra que ele também pode levar os predadores dos anfíbios à extinção.sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

NA ÚLTIMA metade do século, um fungo mortal assolou populações de sapos e salamandras em todo o mundo. Conhecido como quitrídio, o fungo causou o declínio ou extinção de ao menos 500 espécies, tornando-se o patógeno mais destrutivo do mundo em termos de perda de biodiversidade.

Naturalmente, é uma péssima notícia para os animais que se alimentam de anfíbios. Mas os cientistas sabem pouco sobre os efeitos do fungo contagioso sobre as cadeias alimentares em todo o mundo.

Agora, um novo estudo publicado na revista científica Science sugere que o declínio dos anfíbios afetou drasticamente as espécies tropicais de serpentes que se alimentam de sapos. Depois que a doença assolou o Parque Nacional Omar Torrijos Herrera no Panamá em 2004, o número total, a diversidade e a saúde das serpentes reduziram expressivamente, segundo o artigo. Provavelmente isso também ocorreu com outros predadores de anfíbios, afirmam os autores.

Há uma grande probabilidade de que ao menos uma dezena de espécies de serpentes tenha desaparecido da região e talvez muito mais, afirma Elise Zipkin, coautora e bióloga quantitativa da Universidade Estadual de Michigan.

É provável que o notável declínio das cobras tenha surtido seus próprios efeitos ecológicos e indique um impacto muito maior sobre a cadeia alimentar em geral.

“Deve estar afetando pássaros, mamíferos e toda a fauna”, afirma Julie Ray, outra coautora e professora adjunta da Universidade de Nevada, em Reno.

É por isso que o estudo é importante “até mesmo para quem não gosta de cobras”, acrescenta ela.

Perda de serpentes

Embora pareça óbvio que um declínio dos anfíbios pode afetar seus predadores, comprovar essa relação requer a obtenção de dados em longo prazo de um local específico, dados esses muito escassos e difíceis de serem obtidos, afirma Kelly Zamudio, professora de ecologia e curadora de herpetologia da Universidade de Cornell, que não participou da elaboração do artigo.

As observações e os dados do estudo foram minuciosamente reunidos durante levantamentos de animais silvestres no parque panamenho, perto da comunidade de El Copé, por mais de 13 anos, distribuídos por igual antes e depois do surto do quitrídio na área.

Apenas os dados brutos já foram suficientes para sugerir que o quitrídio estaria prejudicando indiretamente as serpentes. Antes da invasão fúngica, os cientistas registraram a observação de 30 espécies diferentes; depois dela, encontraram 21 e em quantidades muito menores. Das espécies avistadas cinco ou mais vezes, mais da metade foi encontrada posteriormente cada vez em menor quantidade.

Mas muitas das espécies já eram bastante raras: 13 das 36 espécies de cobras que os pesquisadores observaram ao longo de seus 13 anos em campo foram avistadas apenas uma vez. Muitas outras foram vistas apenas algumas vezes, o que levanta a questão: como estimar a abundância de espécies com avistamentos tão escassos?

Zipkin utilizou um modelo matemático para projetar tendências populacionais com base em avistamentos de cobras, o que sugere que muitas dessas espécies raras foram extintas na região e que a área perdeu ao menos uma dezena de espécies.

O artigo sugere que há uma “impressionante retração... e homogeneização da população”, afirma Zamudio. “A diversidade passou por uma mudança definitiva e muitas espécies podem ter desaparecido completamente”, lamenta ela.

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“Para mim, esse é um exemplo marcante da importância de coletar dados como esses”, afirma Zamudio.

Arrasador

Ray, a coautora que coletou os dados no mesmo parque nacional do Panamá ao longo de oito anos, não pretendia analisar o impacto do fungo, conhecido como Batrachochytrium dendrobatidis (Bd). Aliás, o fungo surgiu pouco antes do início de sua coleta de dados em 2005.

Na época, a intenção era fazer um levantamento da quantidade de serpentes e identificar os alimentos consumidos por elas, como parte de um estudo de doutorado sobre dois gêneros que supostamente se alimentavam principalmente de caracóis, como a Sibon argus, serpente esguia com cabeça arredondada e olhos discretamente salientes.

No fim, foi constatado que essa serpente, chamada popularmente em inglês de sugadora de caracóis, não sugava caracóis. Em vez de caracóis, ela preda principalmente ovos de sapo — o que se tornou um problema. Antes do surgimento do fungo, pesquisadores, como  Karen Lips, coautora e pesquisadora da Universidade de Maryland, registraram o avistamento dos ofídios 149 vezes. Mas sobrou apenas um terço desse número após o fungo, e os animais com os quais Ray se deparou estavam geralmente magros e desnutridos, afirma ela.

Cobras como essas, explica ela, por vezes alimentam-se apenas uma vez por ano — e assim conseguem sobreviver, embora em estado deplorável, por um longo tempo após o desaparecimento de suas presas.

Ray, que já conduziu pesquisas em outros dois locais no Panamá antes de iniciar o estudo em El Copé, observou quando os sapos começaram a perecer. Seis meses após a chegada do quitrídio, a grande maioria dos sapos morreu e seus corpos se acumularam em riachos.

“É gritante a diferença na quantidade de sapos observada antes e após o declínio”, diz ela. Pesquisas anteriores de Lips e outros descobriram que o quitrídio reduziu a abundância de anfíbios em 75% na região e levou ao extermínio de ao menos 30 espécies.

Mas então, as espécies que ela estudava — as cobras — começaram a ser afetadas. Procurando por elas todas as noites, encontrava cada vez menos.

“Em parte, eu estava tão envolvida na busca dos dados”, conta ela. Mas, em algum momento, ficou evidente que “se tratavam de dados reais ligados a animais de verdade. É arrasador.”

Subindo e descendo a cadeia alimentar

A perda de anfíbios produz outros impactos ecológicos que vão além das cobras. Ao observar a base da cadeia alimentar, a eliminação de girinos levou a um crescimento maior de algas nas correntezas, privando-as de oxigênio. Subindo na cadeia alimentar, a perda das cobras tem suas próprias repercussões.

“As cobras são muito importantes para a natureza, se forem erradicadas, tudo pode entrar em colapso”, acrescenta Ray.

“Suspeito que provavelmente haja outros predadores e presas afetados pela perda de anfíbios”, concorda Jamie Voyles, bióloga da Universidade de Nevada, Reno, que não participou do estudo.

“Esse estudo também ressalta a devastação que a quitridiomicose” — nome técnico da infecção patogênica — “e as doenças infecciosas emergentes podem produzir de forma generalizada na teia da vida”, acrescenta ela. “E mostra que as doenças infecciosas emergentes podem ter impactos que vão além de toda nossa compreensão anterior”.

Felizmente, há um fio de esperança: um pequeno subconjunto de espécies de anfíbios demonstrou sinais de resistência: algumas populações estão começando a se recuperar lentamente. Algumas espécies de serpentes também conseguiram passar a se alimentar de outras espécies, como lagartos e algumas serpentes que não se alimentam de anfíbios parecem ter apresentado um aumento na população, provavelmente devido à menor concorrência.

Contudo os efeitos do quitrídio estão apenas começando a ser compreendidos — e sem dúvida serão duradouros ou permanentes.

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