Pardais mudaram seu canto de forma rápida e sem precedentes

Os pardais-de-garganta-branca de todo o Canadá estão abandonando o canto tradicional e substituindo-o por uma nova melodia mais moderna. O motivo permanece um mistério.

Saturday, July 11, 2020,
Por Corryn Wetzel
Um pardal-de-garganta-branca (Zonotrichia albicollis) canta em Manitoba, no Canadá, onde um novo chamado característico substituiu o ...

Um pardal-de-garganta-branca (Zonotrichia albicollis) canta em Manitoba, no Canadá, onde um novo chamado característico substituiu o anterior.

Foto de Glenn Bartley, Minden Pictures

A maioria das aves possui chamados distintivos que normalmente não se alteram. É assim que os observadores de pássaros conseguem reconhecer uma espécie sem vê-la. Contudo, novas pesquisas demonstram que essas melodias podem ser alteradas.

Ao longo de duas décadas, pardais-de-garganta-branca em todo o oeste e centro do Canadá modificaram uma de suas melodias, substituindo um chamado de três notas por um composto por duas notas. A nova melodia começou na Colúmbia Britânica e se dispersou para o oeste — agora, a maioria dos pássaros do Canadá repete esse canto. E ainda está se alastrando por Quebec, a mais de 3,2 mil quilômetros de seu local de origem.

Embora alguns cantos de pássaros passem por evoluções lentas, essa transição rápida no canto de um pássaro nunca havia sido observada, afirma Ken Otter, autor principal do estudo, publicado no periódico Current Biology.

“Nunca observamos algo com uma dispersão tão acelerada assim”, afirma Otter.

Com a propagação do canto de oeste a leste, os ornitólogos se indagam o que torna a melodia tão cativante — e se a tendência persistirá. A descoberta foi possível devido a gravações de cantos de pássaros feitas por voluntários, revelando padrões que podem ter passado despercebidos.

Nasce um canto

Os cantos dos pássaros não são apenas agradáveis, mas também repletos de informações, como a saúde e a boa forma do interlocutor. Assim como os demais pássaros, os pardais machos cantam para marcar o território e atrair as fêmeas. Alguns cantos são exclusivos dos machos, que os aprendem durante um período crítico no início de seu desenvolvimento.

Otter, que estuda o comportamento e a comunicação de pássaros na Universidade do Norte da Colúmbia Britânica, notou pela primeira vez que havia algo diferente nos chamados dos pardais no fim da década de 1990. Ele conduzia um estudo de campo na Colúmbia Britânica, a uma pequena distância a oeste das Montanhas Rochosas, com um colega que normalmente analisa as populações orientais dessa espécie.

“Estávamos andando... e, de repente, ele disse: ‘seus pardais têm um canto curioso.’” Otter não havia percebido antes, mas concordou: o canto era de fato peculiar.

“No Canadá, costuma-se dizer que o canto clássico dos pardais-de-garganta-branca é semelhante à frase em inglês ‘Oh, my sweet Canada, Canada, Canada’ (ah, meu doce Canadá, Canadá, Canadá)”, explica ele. “Agora nossos pássaros parecem estar cantando: ‘ah, meu doce Cana– Cana– Cana– Canadá.’”

A nova canção

A nova tendência sonora teve início na década de 1990 no norte da Colúmbia Britânica, onde Otter e seu colega ouviram o “curioso” chamado pela primeira vez. A partir de então, o canto avançou para o leste, passando por Alberta, Saskatchewan e Manitoba.

Em 2004, aproximadamente metade dos pardais em Alberta cantava a nova rima, mas, em 2014, todos os pardais da região já haviam feito a transição. Em 2015, todos os pardais a oeste do centro de Ontário repetiam a rima. E não parou por aí. No oeste do Quebec, a mais de 3 mil quilômetros do local de origem da canção, ela ainda está se espalhando.

Cientes de que os cantos dos pássaros são aprendidos uns com os outros, Otter e seus colegas suspeitaram que os pardais do leste e do oeste poderiam estar se encontrando.

Em 2013 e 2016, eles colocaram geolocalizadores em 50 pardais machos que estavam em fase de reprodução em Prince George, na Colúmbia Britânica, para monitorar sua rota de migração sazonal e as regiões onde passam o inverno.

Otter contou que esperava que as populações de pardais ocidentais viajassem diretamente para o sul, até as áreas onde permaneceriam durante o inverno na Califórnia. Em vez disso, os pássaros atravessaram as Montanhas Rochosas, encontrando-se com populações orientais nas Grandes Planícies do sul dos Estados Unidos, no Texas, Oklahoma, Arkansas e Kansas. Essa convergência de pardais ocidentais e orientais pode atuar como um local de aprendizado para os machos jovens, onde podem aprender a nova melodia antes de retornar às suas respectivas áreas de reprodução.

Utilizando dados gravados por cidadãos durante duas décadas, contendo mais de 1,7 mil gravações, Otter e sua equipe conseguiram mapear a disseminação do canto. Indicando a nova melodia em azul e a antiga em vermelho, os mapas de Otter mostram uma enxurrada de pontos azuis avançando para o leste de 2000 a 2019. Apenas uma estreita faixa de pontos vermelhos — pássaros cantando a melodia antiga — ainda se mantém na extremidade leste do país.

“É interessante que esse tipo de migração ao acaso permitiu que alguns pardais ouvissem pássaros cantando de forma diferente” — e então espalhassem a nova forma — “como o contágio de um vírus”, afirma Jeffrey Podos, especialista em canto de aves da Universidade de Massachusetts Amherst, que não participou do estudo.

Podos não está surpreso com o fato de os pássaros aprenderem uns com os outros, mas admite que o ritmo de propagação do novo canto é “de certa forma impressionante”.

“É como uma onda azul,” conta ele.

Gorjeio da moda

Novas variações de cantos surgem constantemente, mas a grande maioria delas não é repetida por outros pássaros.

“Por algum motivo, alguns pássaros simplesmente abandonaram o canto tradicional”, afirma Podos, descrevendo o advento do novo canto que termina em uma quadra. “Seria natural imaginar que se perderia aos poucos, mas, de algum modo, outros pássaros devem ter achado interessante”.

Otter e sua equipe não encontraram nada que indicasse que o desempenho dos pássaros que cantam as novas melodias terminadas em quadras fosse melhor em atrair companheiras ou defender territórios. Portanto não parece ser nem vantajoso nem prejudicial, o que apenas aumenta o mistério do canto que viralizou.

“O único aspecto desejável possível de cogitar é que as fêmeas podem se sentir atraídas por novidades”, afirma Otter.

É possível que já tenham ocorrido evoluções abrangentes em cantos como esse, mas não foram identificadas. O estudo de Otter contou com gravações do eBird e Xeno-Canto, bancos de dados com cantos de pássaros gravados e enviados por pessoas de todo o mundo.

Bob Planqué, cofundador do Xeno-Canto e professor de matemática da Universidade Livre de Amsterdã, afirma que essas informações fornecidas por voluntários são “de grande valia ao mundo acadêmico”. Uma das razões pelas quais esse modelo se presta tão bem ao estudo de pássaros, conta Planqué, é que gravar cantos é uma tarefa fácil e simples. Planqué afirma que centenas de artigos por ano utilizam dados do Xeno-Canto, que contém mais de meio milhão de gravações.

Ter voluntários contribuindo com a ciência é “como ter milhares de assistentes de pesquisa espalhados pelo continente”, afirma Otter. “Ela permite que os pesquisadores explorem formas totalmente novas de estudos e analisem essa questão em uma escala bastante abrangente, de forma inédita”.

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