Fóssil de suposto tubarão com 'asas' de raia é diferente de tudo já visto

O fóssil de 95 milhões de anos deixou paleontólogos se perguntando se outros tubarões antigos também possuíam formatos de corpo tão peculiares.

Publicado 18 de mar de 2021 18:01 BRT, Atualizado 20 de mar de 2021 02:01 BRT
Aquilolamna milarcae

Reconstrução artística do Aquilolamna milarcae.

Foto de Ilustração de Oscar Sanisidro

A ideia de um tubarão com características de raia pode parecer coisa de filme B. Mas paleontólogos acabam de reportar a descoberta de uma criatura desse tipo em rochas do período Cretáceo no México. Esse estranho tubarão combina um corpo hidrodinâmico com grandes barbatanas em formato de asas, um antigo animal diferente de qualquer outro já observado em registros fósseis.

Em 2012, um funcionário desconhecido de uma pedreira encontrou um curioso conjunto de ossos em camadas de pedra de 95 milhões de anos de idade próximo a Vallecillo, no México, diz Romain Vullo, paleontólogo no Museu de Karlsruhe, na Alemanha. O fóssil chamou a atenção do paleontólogo Margarito González González, que vive na região. González o coletou e o preparou, removendo as pedras em torno do esqueleto preservado. Fotos do tubarão começaram a fazer burburinho em conferências de paleontologia e o espécime foi descrito em um estudo publicado hoje no periódico Science.

Batizado de Aquilolamna milarcae, o fóssil tem 1,83 m de comprimento e representa um tipo de tubarão que se alimenta por filtração e diferente de todos os outros conhecidos. “A primeira coisa que pensei ao ver o fóssil foi que esta morfologia era única e totalmente diferente e desconhecida entre tubarões”, diz Vullo, o principal autor do novo estudo. Na maior parte das vezes, fósseis de tubarão são identificados pelos dentes e ocasionais pedaços de coluna espinhal. Encontrar um esqueleto completo, e um tão estranho, oferece uma rara oportunidade de estudar a anatomia deste antigo nadador.

Fóssil do período Cretáceo do Aquilolamna milarcae encontrado no México.

Foto de Wolfgang Stinnesbeck

Apesar dos dentes do Aquilolamna não terem sido encontrados, Vullo e seus colegas propõe que ele pertença à mesma família de tubarões que inclui os tubarões-brancos, mako e tubarões-elefante. No entanto, a cabeça larga e comprida e as nadadeiras em formato de asas sugerem que este não era um caçador. Nesse sentido, Aquilolamna era mais parecido com um animal filtrador, que abre sua bocarra para comer plâncton e outros pequenos organismos aquáticos.

Estranheza pré-histórica

O Aquilolamna parece combinar características tanto de tubarões como de raias manta, sendo que esta última evoluiu milhões de anos depois do registro do fóssil. O corpo do Aquilolamna é longo e tubular, similar a outros tubarões que vagam pelo oceano. Mas as nadadeiras peitorais expandidas são um resquício das raias, formando largas asas subaquáticas.

Isso faria do Aquilolamna um dos mais antigos animais a mover-se por “voos subaquáticos”, lentamente batendo suas nadadeiras como fazem as raias manta. “É provável que o Aquilolamna nadava relativamente devagar, com movimentos singelos da nadadeira caudal enquanto as longas nadadeiras peitorais agiam como um estabilizador eficiente”, diz Vullo.

Esse tipo de corpo é completamente inesperado para tubarões, diz Kenshu Shimada, professor de paleobiologia na Universidade de DePaul, em Chicago. Tubarões mais antigos de antes dos tempos dos dinossauros tinham uma larga variedade de formatos de corpo, mas acreditava-se que todos eles já tinham evoluído para formas mais modernas no período Cretáceo.

O Aquilolamna poderia ser uma evidência de uma variedade de tubarões que seguiram existindo por muito mais tempo do que imaginávamos. “O formato de corpo e o estilo de vida de animal filtrador propostos no novo estudo são convincentes”, diz Shimada.

Tubarão ou algo totalmente diferente?

Mas nem todos especialistas estão convencidos de que essa nova criatura era um tubarão parecido com uma raia manta. “Há muitas características incomuns descritas pelos autores, e eu tenho algumas reservas sobre algumas de suas interpretações, por isso ficaria mais empolgado em ver novas investigações sobre esse novo, e notável, fóssil”, disse Allison Bronson, paleontóloga da Universidade Estadual de Humboldt, na Califórnia.

Apesar de impressões sobre a pele do Aquilolamna serem mencionadas no novo estudo, elas não mostram em detalhes suficientes para especialistas externos determinarem se o tecido é realmente pele fossilizada ou algum outro material que parece com pele, como uma colônia de bactérias. E mesmo que esse peixe tenha se alimentado por filtração de plâncton ou outros restos de alimento na coluna d’água, ele talvez tinha pequenos e pontudos dentes similares aos tubarões filtradores modernos, como o tubarão-elefante ou o tubarão-boca-grande. Esses dentes podem ser usados para determinar as relações evolutivas entre esses tubarões, mas nenhum foi encontrado no novo fóssil.

“É uma pena que que nenhum dente foi preservado no espécime para permitir que os pesquisadores determinem a exata afinidade taxonômica do novo tubarão”, diz Shimada.

A ideia de que este animal era um tubarão e um animal filtrador provavelmente terá que ser confirmada por descobertas futuras e novas análises. Se essa interpretação estiver correta, o Aquilolamna buscava por plâncton no oceano muito antes de seus parentes modernos começarem a fazer a mesma coisa. Talvez este tubarão represente uma maneira particular de se alimentar por filtração que evoluiu antes da extinção em massa que matou cerca de 75% de todas as espécies marinhas no fim do período Cretáceo. Outros animais filtradores, incluindo ancestrais do tubarão-boca-grande, baleias e tubarões-elefantes evoluíram depois que o oceano voltou a se recuperar.

Se o Aquilolamna era de fato um excêntrico parente dos tubarões-elefante, eles conviviam com tubarões e criaturas marinhas provavelmente ainda mais estranhas que ainda precisam ser descobertas por paleontólogos. “O registro fóssil de tubarões e raias é bom” em termos de registros ao longo de diferentes períodos de tempo, diz Vullo, mas “os formatos de corpo de muitas espécies extintas continuam sendo enigmáticos.” Talvez alguns dentes já encontrados por paleontólogos tenham pertencido a animais de formatos bizarros.

Até o famoso tubarão gigante Otodus megalodon foi apenas descrito através de dentes e vértebras – megalodon significa “grande dente” em grego –, o que levou a várias interpretações de como o animal se parecia de verdade. Fósseis excepcionais, como o do Aquilolamna, sugerem que muitos tubarões extintos eram muito mais diferentes do que cientistas acreditavam.

“Nós temos a oportunidade de descobrir esqueletos completos em locais como Vellecillo”, diz Vullo, “podemos ter surpresas.”

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