Muitos animais simulam a própria morte — e não apenas para evitar serem devorados

Cobras, aves e outros animais, ao longo de sua evolução, passaram a ter diversos motivos para fingir a própria morte.

Publicado 6 de mai de 2021 17:00 BRT
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Uma cobra-dado finge estar morta perto de um riacho em Creta, na Grécia.

Foto de Blickwinkel, Alamy

De todas as maneiras pelas quais os animais evoluíram para escapar de predadores, fingir-se de morto pode ser uma das mais criativas — e arriscadas.

Cientificamente conhecido como tanatose, ou imobilidade tônica, o comportamento ocorre em todo o reino animal, de aves a mamíferos e peixes. Talvez o animal mais famoso por simular a própria morte seja o gambá-da-virgínia, nativo da América do Norte. Ele abre a boca, põe a língua para fora, defeca e excreta fluidos malcheirosos para convencer o predador de que já passou da data de validade.

Os porquinhos-da-índia e diversas espécies de coelhos também usam essa técnica, assim como diversas cobras, como a da espécie Drymarchon melanurus erebennus. No mundo das aves, os impostores incluem codornas-japonesas, galinhas domésticas e patos selvagens. Alguns tubarões também fingem ter chegado ao fim da vida: se o tubarão-limão for virado de barriga para cima e contido por alguns minutos, fica com o corpo mole, apresentando dificuldade para respirar e alguns tremores.

Dezenas de invertebrados praticam a imobilidade tônica, dessa forma, as espécies desses animais são as que mais apresentam esse comportamento — ou pelo menos são as mais estudadas.

Por exemplo, quando abordados por um predador, os gafanhotos-pigmeus do Japão simulam a morte esticando as pernas em várias direções, tornando quase impossível para as rãs engoli-los.

Em geral, os cientistas não têm conhecimento suficiente sobre esse comportamento intrigante, disse Rosalind Humphreys, estudante de pós-graduação na Universidade de St. Andrews, no Reino Unido, por e-mail. É difícil registrar o fenômeno na natureza e há preocupações éticas sobre a realização de experimentos de laboratório em que predadores atacam as presas, explica ela. Veja o que os cientistas sabem.

“A última chance”

Muitos insetos fingem estar mortos após serem capturados por um predador, um fenômeno chamado imobilidade pós-contato.

Por exemplo, as larvas do formiga-leão da espécie Euroleon nostras — um feroz inseto voador e predador — podem simular a morte por espantosos 61 minutos. Charles Darwin, por outro lado, ficou surpreso ao notar um besouro que se fingiu de morto por 23 minutos.

Funciona mais ou menos assim: um predador, digamos uma ferreirinha-comum, identifica um conjunto de orifícios feitos por larvas de formiga-leão e mergulha para capturá-las. A ave solta a larva, como acontece com certa frequência, e ela se finge de morta.

“É a última chance da sua vida”, diz Ana Sendova-Franks, pesquisadora visitante da Universidade de Bristol no Reino Unido e coautora de um estudo de março de 2021 sobre o comportamento, publicado na revista científica Biology Letters.

A imobilidade pós-contato é diferente de ficar momentaneamente imóvel, “como quando um ladrão entra em sua casa e você congela no lugar para que não seja visto”, diz Sendova-Franks. Em vez disso, muitas vezes trata-se de uma mudança fisiológica involuntária, como diminuir a frequência cardíaca.

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Simular a morte por comida ou acasalamento

Ao passo que a maioria dos animais finge estar morta para escapar do fim, outros encontraram usos alternativos para a técnica.

Veja a aranha-de-jardim por exemplo. As fêmeas costumam atacar os machos. Então, para acasalar, o macho reúne uma certa quantidade de alimento, se prende a ela e finge ter chegado ao fim da vida. A fêmea então rasteja ao redor da comida e do macho supostamente morto. Quando ela começa a se alimentar, o macho volta à vida e tenta o acasalamento novamente — às vezes com sucesso, conta Trine Bilde, professora de biologia da Universidade Aarhus, na Dinamarca. 

“Simular a morte parece ser um esforço de acasalamento do macho, além de, ou em vez de, ser uma estratégia contra predadores”, ela escreve por e-mail. “Talvez tenha ambas as funções.”

Na outra extremidade do espectro está a fêmea da libélula Aeshna juncea, que faz de tudo para evitar o acasalamento: ela se joga no chão em pleno voo para escapar de machos agressivos, que podem prejudicá-la.

O ciclídeo-americano finge a própria morte no fundo do lago para atrair peixes e outras presas. Quando outro peixe chega para dar uma mordida na carcaça, o ciclídeo acorda e ataca. Da mesma forma, o badejo-mira do Brasil simula a própria morte para atrair peixes jovens.

Um método de defesa peculiar, mas bem-sucedido

A imobilidade tônica pode parecer “estranha como ‘último recurso’ de defesa, pois espera-se que as presas quisessem lutar e fugir”, diz Humphreys. “No entanto, a imobilidade tônica pode reduzir a probabilidade de novos ataques de diversas formas.”

Por exemplo, nos experimentos com o formiga-leão do Reino Unido, os cientistas descobriram que larvas que simulavam a própria morte por mais tempo que outras larvas tinham menos chances de serem devoradas por um predador, que foi enganado ou que simplesmente ficou frustrado com a resposta da larva.

Em um experimento de 1975, os cientistas observaram como raposas-vermelhas em cativeiro atacavam cinco espécies diferentes de patos, sendo que a maioria delas se fingia de morta imediatamente quando capturada. As raposas levavam os patos até suas tocas para comê-los mais tarde. Raposas experientes sabiam matar ou mutilar os patos imediatamente, mas as inexperientes, às vezes, soltavam os patos supostamente mortos, permitindo a fuga.

É por isso que Sendova-Franks caracteriza o comportamento como sendo uma última chance. Movimentar-se certamente causará a morte, mas fingir-se de morto traz uma possibilidade — embora pequena — de sobrevivência.

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