O que sabemos sobre as misteriosas mortes de pássaros nos EUA

Enquanto centenas de pássaros canoros de diversos estados dos Estados Unidos ficam cegos e morrem, especialistas correm contra o tempo para descobrir o motivo. Reabilitadores de animais silvestres tentam aliviar o sofrimento dessas aves.

Publicado 28 de jul. de 2021 07:00 BRT
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Um jovem gaio-azul cego e doente é examinado no City Wildlife, centro de resgate e reabilitação de animais silvestres, localizado em Washington, no Distrito de Colúmbia, no dia 13 de junho. O pássaro, posteriormente sacrificado, é uma das milhares de aves da costa leste atingidas por uma doença misteriosa.

Foto de Belinda Burwell D.V.M.

Quando Brian Evans, ecologista especializado em aves migratórias e membro da equipe do Centro de Aves Migratórias do Instituto Smithsoniano de Biologia da Conservação  ouviu falar sobre a morte de pássaros na cidade de Washington D.C., em meados de maio, ele “não deu muita atenção”.

É comum pássaros morrerem durante a primavera do Hemisfério Norte, entre os meses de março e junho — tipicamente, apenas 30% dos pássaros canoros jovens permanecem vivos até a próxima estação. E, com as pessoas isoladas em suas casas durante a pandemia, “estamos prestando mais atenção a essas coisas”, diz Evans. “No ano passado, todo mundo começou a gostar de pássaros, e durante este ano perceberam que pássaros têm vidas terríveis!”

Então, no dia 28 de maio, Evans estava em seu jardim quando sua vizinha veio contar a ele sobre um pássaro que acabara de encontrar na estrada. Ele tremia e parecia que estava cego, ela relatou. Quando ela se aproximou, ele não se mexeu. “Foi quando um pensamento me veio à mente: ‘isso é muito incomum’”, recorda Evans. “Não é um comportamento típico de filhotes prestes a morrer.”

Mais tarde, no mesmo dia, um colega enviou a ele fotos de pássaros mortos. Meia hora depois, outro vizinho o chamou para ver um pássaro que apresentava secreções nos olhos e não conseguia ficar em pé. “Eu peguei o pássaro e o levei para o City Wildlife”, ele conta, referindo-se ao centro de reabilitação e liberação de animais silvestres no Distrito de Colúmbia. “Eu fui até lá e eles disseram: ‘isso é muito grave’”.

O Distrito de Colúmbia e pelo menos 12 estados na costa leste, de Connecticut até a Flórida, incluindo o Tennessee, estão em meio a uma epidemia que atinge pássaros canoros. Milhares de pássaros jovens, incluindo gaios-azuis, quíscalos comuns, tordos-americanos e estorninhos-comuns, subitamente apresentaram cegueira, secreções nos olhos, tremores e, por fim, morreram. Testes de laboratório descartaram possíveis causas, como os vírus do Nilo Ocidental e gripe aviária, e cientistas trabalham arduamente para encontrar novas hipóteses. 

Embora os casos no Distrito de Colúmbia e nos estados de Maryland e Virgínia tenham começado a diminuir no fim de junho, novos casos ainda são registrados em outros estados. E, conforme as equipes dos centros de reabilitação de animais silvestres enfrentam dificuldades para lidar com o impacto emocional de terem que aplicar eutanásia nos pássaros que eles não conseguem curar, especialistas correm contra o tempo para entender o que pode estar acontecendo. 

O alcance da epidemia

“Essa situação é notável”, afirma o ornitólogo Evans. “O que a torna significativa é o número de pássaros que adoeceram ou morreram e o número de espécies que foram afetadas.” Cambaxirras, aves da espécie Dumetella carolinensis, cardeais, aves da espécie Haemorhous mexicanus, pardais e outros pássaros também foram atingidos. Em maio, Evans encontrou “um corvo-americano parado na rua”, perto de sua casa. “Foi muito estranho. Ele morreu enquanto eu me preparava para levá-lo ao City Wildlife.”

Outro fato excepcional foi a ampla disseminação de casos da doença, reportados em pelo menos 12 estados e no Distrito de Colúmbia. “Não vimos nenhuma doença tomar essa proporção há um bom tempo”, afirma Evans. 

No entanto, ainda é difícil determinar o número total, ou até mesmo estadual, de casos, afirma Evans, que é especialista em ecologia populacional de aves migratórias e residentes. “Ainda estou tentando desesperadamente entender a distribuição” da epidemia, ele complementa. 

Cada estado tem seu próprio sistema de coleta de dados, e alguns são mais completos que outros, ele conclui. O estado de Virgínia, por exemplo, tem um sistema de registro público para que qualquer pessoa possa notificar casos de aves doentes ou mortas, incluindo sintomas, espécies e localização. Até o momento, 1,4 mil casos foram registrados nesse sistema. 

O que se sabe sobre as causas

No dia 2 de julho, o Serviço Geológico dos Estados Unidos, em um trabalho conjunto com órgãos relacionados à vida selvagem nos estados afetados, anunciou que “até o momento, não foi determinada nenhuma causa, ou causas, definitiva de doença ou morte.” Em vários estados, testes em pássaros mortos descartaram bactérias comuns como Salmonella e Chlamydia, e vírus como os da gripe aviária, do Nilo Ocidental, diversos vírus que causam herpes e muitos outros. Não houve relatos de transmissão para humanos, aves de criação ou outros animais.

Evans conta que a bactéria micoplasma foi encontrada em algumas amostras, “mas que ela não é incomum em aves e não está tipicamente associada aos sintomas neurológicos observados”. 

Determinar a causa de qualquer surto de doença costuma ser um processo lento porque é necessário descartar possibilidades. Ele comenta que esse caso tem se mostrado particularmente desafiador porque “sintomas neurológicos e oculares são uma combinação atípica”. Pode ser um patógeno totalmente novo, ou uma combinação de vários fatores.

“Nossa primeira estratégia em casos como esse é sempre investigar o que pode ter mudado no ambiente. O que está diferente em comparação ao ano anterior?”, ele explica.

Uma resposta óbvia e significativa: as bilhões de cigarras da periódica ninhada 10 que cobriram a Costa Leste — servindo como uma variedade de alimento para cada ave canora da região.

O curioso fator “cigarra”

Em meados de maio, quando as mortes de pássaros começaram, Evans e seus colegas estavam estudando a influência do canto das cigarras no comportamento das aves. “Enquanto eu pensava e conversava com meus colegas, estávamos cercados pelo barulho de cigarras. ‘É claro que são as cigarras’, nós pensamos, ‘elas estão por toda parte!’”

O fato de esses insetos surgirem somente a cada 17 anos e terem sido devorados por pássaros que depois adoeceram de forma misteriosa foi motivo para considerar seriamente a possibilidade de haver uma ligação, Evans relembra. “Há cerca de cinco hipóteses diferentes em relação às cigarras”, ele explica — sendo que a mais conhecida tem ligação com um fungo que afeta cerca de 5% das cigarras e produz uma toxina psicodélica chamada catinona. 

No entanto, ao longo das últimas semanas, tem ficado claro que as cigarras não parecem ser as responsáveis pela morte dos pássaros, ele diz. O alcance geográfico da epidemia que afeta os pássaros é muito maior do que o alcance do aparecimento da ninhada 10, e é improvável que as aves que viviam nas mesmas áreas das cigarras tenham voado para outros lugares. “As aves já haviam estabelecido seus locais de reprodução para o verão. Nesse ponto, não é normal se movimentarem para grandes distâncias”, afirma Evans.

Alguns laboratórios, como o de genética do Instituto Smithsoniano, ainda tentam descartar definitivamente a conexão com as cigarras, mas o momento em que as aves morreram fornece outra pista de que é improvável haver uma ligação entre os dois eventos. As cigarras da ninhada 10 morreram na última quinzena do mês de junho, mas ainda há pássaros adoecendo. No dia 8 de julho, um tordo-americano macho foi levado ao Centro para Animais Silvestres Tamarack em Saegertown, na Pensilvânia, com contrações musculares na cabeça e secreções nos olhos. O pássaro conseguiu se levantar por um breve momento antes de morrer. 

Cuidando dos pássaros moribundos

No City Wildlife, único centro de reabilitação de animais silvestres do Distrito de Colúmbia, a enxurrada de pássaros doentes que chegou em meados de maio foi “de partir o coração”, declarou o diretor executivo, Jim Monsma. 

“Quíscalos, estorninhos-comuns, gaios-azuis. Todos jovens — filhotes, prestes a começar a voar. Eles começaram a chegar, um após o outro, e então mais casos surgiram e havia milhares desses pássaros”, ele conta. “Soubemos que havia muito mais, porque eles morriam antes de chegar aqui.” Ele conta que os olhos são os primeiros órgãos afetados, com inchaços e aparência ensanguentada, e logo depois apareciam problemas neurológicos — eles giravam e caíam de costas ou de lado. 

O City Wildlife tratou os primeiros pássaros com antibióticos e analgésicos, procedimento padrão para aves com sintomas neurológicos. Mas, desta vez, eles perceberam rapidamente que “não importava o que fizéssemos, eles morreriam”, conta Monsma.

“Foi horrível. Difícil de ver. Não há nada mais triste do que um pássaro cego. As aves sabem que estão com problemas e não entendem que estamos cuidando delas”, então qualquer coisa que um humano faça para ajudar só os assusta mais, ele conta. De acordo com Monsma, a realidade é que não havia como ajudá-los. 

Ele conta que “os pássaros estavam aflitos e apavorados, e tivemos que começar a sacrificá-los”, procedimento feito com um inalante indolor. 

O City Wildlife recebeu 202 pássaros com sintomas da misteriosa doença entre meados de maio e 23 de junho; um gaio-azul foi recebido nesse dia e, depois disso, nenhum outro pássaro canoro doente foi levado até lá. Porém, recentemente, foram reportados seis falcões com sintomas semelhantes. Cinco morreram; um deles parece estar se recuperando. Monsma explica que a preocupação é que talvez os falcões tenham adoecido porque comeram pássaros infectados, mas “isso é só uma suposição”. A equipe de reabilitação do centro está aguardando os resultados dos testes.

Próximos passos

Embora os casos tenham diminuído em algumas regiões, ainda é essencial descobrir a causa da doença. Se for uma toxina ligada a humanos, “precisamos tomar providências”, afirma Evans. Se for uma doença infecciosa, a população em geral precisa saber, porque os comedouros para pássaros podem desempenhar um papel significativo na disseminação. 

“Não queremos pedir às pessoas que não os alimentem”, ele diz — mas os pássaros se aglomeram nos comedouros, compartilhando as mesmas superfícies. Em épocas normais, a equipe de Evans recomenda que as pessoas limpem os comedouros de forma regular e rigorosa, “mas, em meio a um surto, isso não é suficiente”. 

Nesse meio tempo, Monsma diz que passou a observar novamente gaios-azuis e estorninhos — as espécies mais afetadas pela doença — jovens e saudáveis nos arredores do Distrito de Colúmbia. Pássaros são resilientes: “eles podem perder a família inteira devido a doenças ou predação por gatos, e recomeçar. Eles simplesmente continuam a botar ovos”, ele diz. 

Contudo, “eles ainda sofrem. É para isso que estamos aqui”, ele afirma sobre o City Wildlife e outros centros de reabilitação. “Para aliviar o sofrimento deles. É muito difícil não poder fazer nada.” 

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