Ave ameaçada de extinção se reproduz ‘sem fecundação’, feito inédito na espécie

As fêmeas dos condores-da-califórnia não precisam de machos para ter sua prole — juntando-se a tubarões, raias e lagartos na lista de criaturas que podem se reproduzir sem acasalar.

Publicado 4 de nov. de 2021 09:12 BRT
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O condor-da-califórnia quase foi extinto na década de 1980, mas desde então se recupera lentamente.

Foto de ZSSD, Minden Pictures

“Há alguma confusão nos dados do condor.”

Oliver Ryder não esperava ouvir essas palavras ao caminhar até seu carro após um longo dia de trabalho de resgate aos condores-da-califórnia, um dos animais mais ameaçados do planeta. Quando sua colega Leona Chemnick explicou o que observava, seu receio logo se transformou em fascínio.

Há décadas, cientistas tentam livrar o condor-da-califórnia da beira da extinção. A população total dessas aves foi reduzida a apenas 22 indivíduos em 1982. Em 2019, a reprodução em cativeiro e iniciativas de soltura aumentaram gradualmente a população total para mais de 500 indivíduos. As iniciativas exigiram um manejo criterioso das aves em cativeiro, sobretudo na seleção de quais machos e fêmeas poderiam procriar para produzir descendentes saudáveis.

Foi assim que, conforme os cientistas analisaram os dados genéticos, foi constatado que dois machos das aves — conhecidos apenas por seus números de registro genealógico: SB260 e SB517 — não apresentaram nenhuma contribuição genética paterna, ou seja, de aves que supostamente seriam seus pais.

Em outras palavras, as aves vieram ao mundo por partenogênese facultativa — ou nascimento virginal — de acordo com um artigo revisado por pares publicado em 28 de outubro no periódico Journal of HeredityEsse tipo de reprodução assexuada em espécies de reprodução sexual normalmente ocorre quando algumas células produzidas com o óvulo de uma fêmea se comportam como espermatozoides e se fundem com o óvulo.

Condor-da-califórnia em cativeiro (não o que gerou dois filhotes autofecundados) em instalação administrada pelo zoológico San Diego Zoo Wildlife Alliance.

Foto de Ken Bohn, San Diego Zoo Wildlife Alliance

Embora rara em vertebrados, a partenogênese ocorre em tubarões, raias e lagartos. Os cientistas também registraram a autofecundação em algumas espécies de aves em cativeiro, como perusgalinhas codornas-chinesas, geralmente apenas quando as fêmeas são mantidas sem acesso a um macho. Mas esse é o primeiro registro em condores-da-califórnia.

O mais curioso no que ocorreu com os condores, segundo Ryder, é que SB260 e SB517 tiveram mães diferentes, ambas mantidas em cativeiro com machos. Além disso, as duas fêmeas se reproduziram com êxito com esses mesmos machos antes e depois desses nascimentos.

“Por que isso aconteceu? Simplesmente não sabemos”, afirma Ryder, diretor de genética da conservação do zoológico San Diego Zoo Wildlife Alliance. “O que sabemos é que ocorreu mais de uma vez, e com fêmeas diferentes.”

“Será que vai acontecer de novo? Prefiro acreditar que sim”, revela ele.

Um recurso de sobrevivência?

Apenas cerca de 300 dessas espécies criticamente ameaçadas de extinção voam pelos céus dos estados da Califórnia, Arizona e Utah, nos Estados Unidos. Com uma população tão reduzida, é possível que os condores estejam usando partenogênese como um recurso de sobrevivência, afirma Reshma Ramachandran, fisiologista reprodutiva e microbióloga da Universidade Estadual do Mississippi, que não participou da pesquisa.

Há evidências em outras espécies que sugerem que a partenogênese possa ser um tipo de último recurso para uma espécie em apuros. Por exemplo, o peixe-serra, criticamente ameaçado de extinção, pode estar recorrendo à partenogênese conforme se torna cada vez mais difícil encontrar parceiros sexuais na natureza.

No entanto, essa teoria pode não se aplicar aos condores-da-califórnia. Um dos motivos é que as fêmeas em cativeiro, que geraram as aves machos em questão, tinham acesso a parceiros sexuais. Além disso, nenhum dos descendentes produzidos por partenogênese sobreviveu para se reproduzir. SB260 morreu após menos de dois anos; SB517 morreu antes de completar oito anos. Para fins de comparação, alguns condores-da-califórnia podem viver até 60 anos.

Como os cientistas fazem uma seleção criteriosa de possíveis distúrbios genéticos ao reproduzir condores em cativeiro, é possível que essas aves autofecundadas carreguem mutações genéticas que acabaram provocando mortes prematuras, sugere Ryder.

Embora seja uma ideia interessante, “é cedo demais para determinar a importância da partenogênese para a evolução da espécie ou sua conservação”, acrescenta Jacqueline Robinson, geneticista evolucionária da Universidade da Califórnia em San Francisco. “Temos muito poucos exemplos desse fenômeno raro.”

Com esse objetivo, no início deste ano, Robinson, Ryder e colegas publicaram um estudo detalhando o genoma completo do condor-da-califórnia, dados genéticos valiosos que, futuramente, poderão contribuir para uma compreensão melhor sobre o funcionamento da partenogênese nesses animais, observa ela.

Mais comum do que acreditamos?

Segundo cientistas, a possibilidade de que a partenogênese seja mais comum do que se acreditava é bastante intrigante.

Ramachandran, que publicou uma análise de pesquisas sobre partenogênese em aves em 2018, afirma que, embora o nascimento virginal seja documentado principalmente em animais em cativeiro, não há razão para descartar sua ocorrência na natureza.

“Aliás, agora estou na expectativa de receber mais relatos de ocorrências na natureza”, conta ela.

Ryder concorda. “A única razão pela qual foi identificada sua ocorrência em condores foram os estudos genéticos detalhados”, afirma ele. “Então, aves domésticas podem estar ocasionalmente produzindo filhotes partenogenéticos? Ninguém fez uma análise profunda o suficiente para responder a essa pergunta.”

Independentemente da resposta, ele afirma: “é um lembrete de que, quando você pensar que entendeu por completo a natureza, ela sempre surpreenderá”.

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