Conheça as adoráveis araras da capital da Venezuela

Caracas é o lar de centenas de araras de cores vivas, que se transformaram em mascotes comunitários da cidade.

Arara-canindé (Ara Ararauna) abre as asas ao pousar em telhado no bairro de Macaracuay, em Caracas, Venezuela.

Foto de Alejandro Cegarra National Geographic Collection
Por Paula Ramón
Publicado 19 de set. de 2022 11:45 BRT

Para ter um alívio temporário do confinamento imposto pela pandemia de Covid-19, Elinor Zamora subia ao telhado de seu prédio para respirar ar puro. Nesse local, em 2020, ela testemunhou uma cena surpreendente: avistou dezenas de araras enormes e coloridas se aproximarem pouco antes do pôr do sol, atraídas por um vizinho que as alimentava. 

Fascinada pela grandiosidade das aves, Zamora se comoveu com a cena. Assim como as araras, iniciou uma peregrinação diária ao telhado para observar todo o esplendor desses animais. “O que quer que aconteça, todos sabem que, às 16h, vou para casa para me encontrar com minhas guacamayas no telhado”, conta.

As aves, que podem alcançar até 90 centímetros de comprimento, são um símbolo de Caracas, capital construída em um vale separado do mar do Caribe pelas cordilheiras costeiras venezuelanas. As aves frequentam telhados e varandas de inúmeros prédios em busca de alimento. 

As pessoas as alimentam e inundam as redes sociais com fotos da plumagem azul, verde, amarela e vermelha-viva (em geral, especialistas desaconselham alimentar a fauna silvestre, pois essa atitude pode prejudicar os animais tornando-os dependentes dos humanos. Porém, tal conselho parece não ter sido ouvido ou aceito nesse caso).

As pessoas também trocam informações sobre a vida das aves, como se fossem mininovelas. São comentários como “a amarela está namorando a laranja, mas ela está sendo maltratada”.

“Essa amarela está sempre suja; deve passar o dia em uma oficina mecânica”, brinca alguém. “A blanquita está muito mimada”, comenta uma terceira pessoa.

Ao longo do tempo, as aves se tornaram mascotes comunitários da capital.

Araras de inúmeras cores

O que torna únicas as araras de Caracas é a diversidade delas, afirma Malú González, bióloga e professora da Universidade Simón Bolívar. “Entre araras, papagaios e periquitos, temos 17 espécies voando pela região”, explica González.

Isso inclui quatro espécies de araras, todas nativas da Venezuela. A maracanã-guaçu (Ara severa), predominantemente verde, é a menor e a única desta região central. A arara-macao (Ara macao) – cuja coloração amarela, azul e vermelha lembra a bandeira nacional da Venezuela – é originária das planícies e da região amazônica. A arara-vermelha (Ara chloroptera) possui pequenas populações no leste e oeste do país. As duas últimas foram afastadas do céu de Caracas pela arara-canindé (Ara ararauna).

À esquerda: No alto:

Elinor Zamora alimenta araras no telhado de seu prédio em Caracas, hábito iniciado logo após os fechamentos impostos pela pandemia de covid-19.

À direita: Acima:

Lawrence Ginnari sentado em reservatório d’água no telhado de seu prédio para alimentar as araras. “Elas vêm todas as manhãs e... me acordam”, conta ele. Lawrence se tornou um criador de conteúdos do TikTok (S8Law) e usa a renda obtida por meio da plataforma para comprar sementes para as araras.

fotografias de Alejandro Cegarra National Geographic Collection

Gabriel Zamora, de 9 anos, observa duas araras chegarem à sua varanda pedindo alimento.

Foto de Alejandro Cegarra National Geographic Collection

Historicamente, as araras não eram nativas da capital e não se sabe ao certo por que começaram a nidificar nas palmeiras da cidade, mas González acredita que a chegada delas tenha sido motivada pelo comércio de bichos de estimação.

“Gerações inteiras cresceram com um papagaio, periquito ou arara em casa”, explica González. “Algumas aves escaparam, outras foram soltas.”

Em muitas conversas sobre as araras de Caracas, são comuns referências a Vittorio Poggi, imigrante italiano que uma vez resgatou uma arara-canindé ferida. Embora Poggi não tenha mantido a ave em cativeiro, ela o acompanhava enquanto ele andava de moto pelas ruas da capital. Poggi ficou conhecido como o “homem das araras”.

Devido a essa fama, durante anos, muitas pessoas levavam aves feridas ou doentes, além de araras de estimação que não desejavam mais manter em casa, para que ele cuidasse.

Malu Gonzalez adverte que as aves não são adaptadas à vida em cativeiro. “A verdade é que essas aves são péssimos bichos de estimação”, afirma González. “São barulhentas, quebram tudo e fazem uma bagunça. Muitas pessoas querem tê-las em casa devido à beleza delas. Adoram durante o primeiro mês, mas depois não aguentam e procuram maneiras de se livrar delas.”

Lembranças e recordações preenchem um quadro na casa de Vittorio Poggi, na Venezuela. Vittorio, imigrante italiano de Gênova, tornou-se um cuidador de araras quando umas das aves entrou desajeitadamente pela sua janela.

Foto de Alejandro Cegarra National Geographic Collection

Vittorio Poggi e a arara Pancho em casa. Na juventude, Poggi ficou conhecido como o homem que falava com araras. Ao longo dos anos, as pessoas começaram a trazer-lhe araras que não desejavam mais.

Foto de Alejandro Cegarra National Geographic Collection

Durante décadas, Poggi soltou na área urbana dezenas desses animais que recebeu de pessoas cansadas de mantê-los em casa. Essa não foi a única causa da proliferação das araras, mas “favoreceu em parte a predominância das canindés”, observa Gonzalez.

Quantas araras voam pelo céu de Caracas?

Não se sabe quantas araras existem em Caracas, porém, em 2016, Gonzalez contou entre 300 e 400 canindés.

“Depois ocorreram dois eventos”, lembra. Os protestos em Caracas em 2017 “afetaram as populações”, prossegue. Aves podem ter sido mortas por gás lacrimogêneo e outras perturbações. Mas então surgiu a pandemia. “Reocuparam espaços vazios, e acredito que houve um crescimento populacional”, acrescenta.

Mural do artista Oscar Olivares ilustrando araras voando, feito com cerca de 200 mil tampinhas pintadas.

Foto de Alejandro Cegarra National Geographic Collection

González tenta compreender como a interação com humanos altera o comportamento dessas aves, cujas populações em seus habitats originais estão em declínio. Parte de seus esforços envolve os “‘cuidadores’ que admiram as aves, dedicando-lhes bastante tempo, e essa observação os torna especialistas”, afirma. Para ajudar nessa pesquisa, ela busca financiamento para desenvolver um aplicativo com reconhecimento facial de aves que criaria um banco de dados a partir da colaboração das pessoas que observam e alimentam as aves todos os dias.

Pouco se sabe sobre os efeitos que a vida urbana exerce nas aves. Mas Gonzalez explica que algumas mudanças já podem ser notadas nas próprias araras. “Estão se reproduzindo com parentes próximos. Isso torna mais comuns mutações, que seriam extremamente raras”, afirma.

Araras-canindés voam entre prédios residenciais. Araras formam casais para toda a vida e é comum voarem em pares.

Foto de Alejandro Cegarra National Geographic Collection

Gonzalez explica que certas mutações, comuns em pequenas populações mantidas em cativeiro, que se reproduzem entre si, mas raras na natureza – como a coloração branca – estão cada vez mais frequentes em Caracas porque as aves não se afastam da cidade.

Há outro fenômeno cada vez mais visível: araras híbridas, resultado da miscigenação entre duas espécies diferentes. A abundância de cores pode indicar a existência de aves híbridas – laranja, por exemplo – ao contrário das aves que apresentam mutações e perdem uma tonalidade, como as brancas.

Araras urbanas

Em geral, especialistas recomendam não alimentar animais silvestres. Em manguezais e florestas, as araras normalmente têm uma alimentação variada e voam longas distâncias. Contudo, na cidade, as aves consomem alimentos processados, bananas ou alguns tipos de sementes que lhes são oferecidas – e tendem a ser relativamente sedentárias, o que reduz a expectativa de vida das araras de Caracas. Algumas vezes, são atropeladas por carros, e a poluição urbana também pode prejudicar a saúde delas.

Essa dieta alimentar alterada pode, por sua vez, afetar seus ciclos reprodutivos, esclarece González. De acordo com ela, “a abundância de árvores frutíferas em Caracas, juntamente com as sementes e alimentos oferecidos nos telhados, possibilitou o aumento populacional”. A bióloga tenta determinar se essa fartura está aumentando as taxas de eclosão dos ovos.

Não está claro se os animais são selvagens, ferais ou domésticos. Algumas pessoas os consideram bichos de estimação, ao passo que outras não. Mas por que comprar uma ave para manter em uma gaiola quando há araras voando pela cidade?

Elinor Zamora, por exemplo, nunca teve uma ave. Não precisa. “Sempre digo que moro sozinha, com minhas guacamayas.”

O fotógrafo Alejandro Cegarra nasceu em Caracas e atualmente mora na Cidade do México. Essa viagem para fotografar as araras foi sua primeira viagem a seu país natal desde o início da pandemia. Siga-o no Instagram @alecegarra.

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