Animais

Ovos desta ave brasileira valem ouro no mercado ilegal da Europa. Veja por que

Alguns fatores têm incentivado traficantes a contrabandear ovos em vez de aves vivas. Entre eles, a facilidade no transporte e a possibilidade de vender os filhotes legalmente como aves de cativeiro.quarta-feira, 5 de junho de 2019

Por Denise Hruby
A compra e a venda de araras-azuis capturadas na natureza são proibidas. Embora seja legal comercializar araras nascidas em cativeiro, sabe-se que essas aves têm dificuldade para se reproduzir. Isso gerou uma demanda por ovos retirados da natureza, que são contrabandeados com mais facilidade da América do Sul para a Europa do que as aves vivas.

Em meio a uma multidão de turistas voltando das praias tropicais do Brasil, um passageiro chamou a atenção dos agentes alfandegários suíços no aeroporto de Zurique, que disseram, posteriormente, que o sujeito tinha um andar “engraçado”. Suspeito de carregar drogas no corpo, os agentes o revistaram. Quando chegaram à cueca, não encontraram narcóticos, mas 25 ovos de papagaios e araras contrabandeados do Brasil. Ele prendeu os ovos na barriga para mantê-los quentes durante o voo de 11 horas.

“Eu me lembro bem,” diz Bruno Mainini – chefe adjunto da filial suíça da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (Cites), que regulamenta o comércio transfronteiriço de vida selvagem – sobre o ocorrido em 2010.

Mainini e seus colegas da alfândega e da polícia já tinham ouvido falar de casos semelhantes em outro lugar da Europa. Em vez de caçar ilegalmente aves vivas, os traficantes roubavam ovos de espécies protegidas para contrabandear e incubar na Europa. Ao nascer, os filhotes eram vendidos como se fossem crias de aves mantidas em cativeiro.

Assim como a lavagem de dinheiro, que dá ar de legalidade a lucros ilícitos, a “lavagem de ovos” deixa parecer que a ave é proveniente de uma fonte fidedigna, ou seja, pode ser vendida legalmente sem levantar suspeita.

Em Zurique, investigadores descobriram algo mais: o contrabandista de ovos no aeroporto contou que trabalhava com outro suíço, que vivia em um local remoto, nas montanhas, onde mantinha aves exóticas.

As leis de privacidade na Suíça são tão rígidas que o nome de nenhum dos homens foi divulgado e as informações sobre ações judiciais não ficam disponíveis ao público. No entanto, Mainini diz que se lembra claramente de ter ficado impressionado com as centenas de aves exóticas encontradas na casa do segundo homem.

Uma espécie rapidamente chamou a atenção do investigador: a arara-azul-grande, uma ave azul e amarela conhecida como a “rainha das araras”. A popularidade dessa ave entre os colecionadores quase a levou à extinção. Estima-se que, nos anos 1980, cerca de 10 mil araras-azuis foram retiradas de seu habitat natural para suprir o comércio mundial de aves de gaiola. Em 1990, a população atingiu seu menor número, 1,5 mil indivíduos.

Atualmente, o comércio de araras-azuis é estritamente proibido, com leis nacionais e acordos internacionais que protegem a espécie. As únicas que podem ser vendidas legalmente são as nascidas em cativeiro, que custam no mínimo 10 mil dólares. Algumas são adquiridas por um valor bem maior.

É um alto preço para uma ave de estimação, mas uma quantia que muitos pagam felizes. “É como um Porsche”, diz o criador alemão Norbert Hebel. “Não se trata de preço, o que importa é ter um.”

“É como um Porsche – não se trata de preço, o que importa é ter um”

por NORBERT HEBEL
CRIADOR DE AVES

Um alerta importante para os criadores: araras-azuis são conhecidas por terem dificuldade em se reproduzir em cativeiro e ninguém sabe por quê. Mesmo quando botam ovos, os embriões frequentemente morrem ou não são fertilizados com êxito.

Não há um registro de quantas aves são mantidas em cativeiro e quantas se reproduzem de forma bem-sucedida, mas como Hebel e outros especialistas comprovaram, a demanda sempre é maior que a oferta, já que a reprodução é tão complicada. É por isso que os traficantes estão fazendo uma espécie de “lavagem” dos ovos de araras.

Um crime cada vez mais comum

Harald Garretsen, inspetor da Autoridade para Segurança de Alimentos e Produtos ao Consumidor da Holanda, onde aves exóticas são animais de estimação populares, investigou o tráfico de animais silvestres pelo mundo. Ele acredita que o contrabando de ovos é um crime crescente porque é mais fácil carregar ovos do que aves vivas – eles são menores, não fazem barulho, não piam e podem ser facilmente destruídos antes de uma inspeção de bagagem.

“Para nós é difícil acompanhar as inspeções realizadas nos criadores”, afirma ele. A maior parte dos países europeus não leva a sério o tráfico silvestre, conta ele, e quando se fala em “lavagem de ovos”, a maioria dos departamentos de polícia nunca ouviu falar disso.

O roubo de ovos e a perda do habitat estão fazendo pressão sobre a população que resta de araras-azuis, a qual se estima que hoje seja de 4,3 mil exemplares adultos.

O crime é feito da seguinte maneira: um caçador ilegal na floresta brasileira, por exemplo, pega os ovos de um ninho. Em seguida, ele ou um comparsa prende os ovos ao corpo – de forma a chocá-los – e os leva para a Europa, principalmente Portugal, para onde se viaja com menos conexões. Já na Europa, os ovos são levados a um aviário legítimo.

A equipe do aviário incuba os ovos, cuida dos filhotes e coloca argolas de metal em suas patas, que permanecem no tornozelo das aves pelo resto de suas vidas e são considerados uma prova de que a ave foi criada em cativeiro. Com as tornozeleiras e os pedigrees dos criadores, as aves podem ser vendidas legalmente no mundo todo. Mesmo se outras autoridades fizerem perguntas, os criadores apresentam a papelada de importação e exportação das aves criadas em cativeiro.

É exatamente isso que os investigadores encontraram na Suíça, uma documentação que parecia estar na mais perfeita ordem, argolas nas patas que não levantariam nenhuma suspeita e diversas araras jovens que, de acordo com o cidadão suíço, eram filhotes das araras adultas sob seus cuidados.

A única maneira de constatar se a alegação era verdadeira seria fazendo um exame de DNA para descobrir a paternidade da ave. Penas das araras adultas e jovens foram retiradas e enviadas a um laboratório. Os resultados mostraram que três araras-azuis-grandes e outras quatro aves protegidas não eram crias das aves declaradas na documentação. As sete aves valiam mais de 100 mil dólares.

“Com esse resultado, a única conclusão lógica era que elas tinham sido traficadas”, diz Mainini. O tribunal concordou e, segundo Mainini, condenou os dois homens a pagarem multas. Mas ambos ainda possuem permissão de criar e vender aves exóticas, conta ele.

Máfia dos ovos

É impossível dizer quantos ovos ou aves foram traficados por meio dessa rede suíça, mas esses casos apresentam uma dimensão do problema.

Autoridades austríacas estão trabalhando em um caso que teve início em 2016, com o confisco de 80 aves protegidas, incluindo araras-azuis, de um armazém nas proximidades de Viena. Logo ampliou-se para uma investigação sobre o tráfico de ovos de araras-azuis e outras aves protegidas, diz Andreas Pöchhacker, um dos agentes alfandegários do caso que se referiu à rede como uma “máfia de contrabando de ovos”.

“Com certeza, a Europa é o principal destino e um polo para o contrabando de ovos”, afirma Bernardo Ortiz-von Halle, ex-diretor da filial sul-americana da Traffic, organização de monitoramento de comércio de espécies selvagens. Criadores europeus são bem estabelecidos, possuem habilidades e tecnologia para criação, cuidado e “lavagem”, além de não se importarem com o que acontece com as aves na natureza, afirma Ortiz-von Halle. “Os europeus têm um total desrespeito pela conservação dessas aves.”

ver galeria

Ortiz-von Halle revisou recentemente novas histórias em português que citavam lavagem de ovos. (Portugal está conectado a aeroportos no Brasil, com mais de 60 voos diretos por semana, inclusive saindo de aeroportos menores no interior, que ficam mais perto das florestas onde aves, como as araras, fazem seus ninhos). Ele encontrou relatórios de 2003 e 2015 sobre 11 casos, nos quais as autoridades confiscaram mais de 358 ovos de pássaros, incluindo araras-azuis, contrabandeadas da América do Sul para a Europa, principalmente via Portugal.

O fato das araras-azuis e outras aves exóticas e raras serem populares na Europa também fica evidente nos anúncios online. Quando o Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal, uma organização sem fins lucrativos com sede em Washington, D.C., rastreou os anúncios de espécies ameaçadas e em perigo na Alemanha, Rússia, França e Reino Unido durante um período de 6 semanas, a organização encontrou anúncios de venda de 15 araras-azuis de um total de 2.881 aves protegidas. A vasta maioria dessas espécies de aves parecia ter pouca documentação, se é que havia alguma. Isso impossibilita determinar se as pessoas por trás dos anúncios violaram a lei por divulgar araras e outras aves importadas ilegalmente, afirma Tania McCrea-Steele, gerente de projetos internacionais da organização para crime contra espécies selvagens.

Apesar de correrem tanto perigo e serem o principal alvo de traficantes, as araras-azuis representam um dos esforços de conservação mais bem-sucedidos no Brasil, de acordo com Dener Giovanini, que vem lutando há décadas contra o tráfico de espécies selvagens e cujas exposições na mídia o transformaram na versão brasileira de David Attenborough. Giovanni diz que a população silvestre mais que dobrou entre 1990 e 2000 e estima-se que hoje esteja em 4,3 mil indivíduos adultos. No entanto, diz ele, o furto de ovos, juntamente com a perda do habitat, está fazendo uma pressão enorme nessa população que ainda é muito pequena. Renctas, a ONG fundada por Giovanini 20 anos atrás, coletou as poucas informações disponíveis sobre o comércio de ovos de araras.

“Não temos um padrão para as inspeções, há ausência de táticas e não há nenhuma estratégia para as operações. É triste, mas é um crime que compensa.”

por Dener Giovanini,
Ambientalista

A imensidão do Brasil, suas longas fronteiras e a pobreza de suas comunidades remotas, para as quais a caça ilegal de ovos oferece uma renda lucrativa, dificultam o combate ao crime. Porém, de acordo com Giovanini, o governo nem tenta. “Não temos um padrão para as inspeções, há ausência de táticas e não há nenhuma estratégia para as operações [de fiscalização]”, afirma ele. Dessa forma, as chances de que um contrabandista seja pego são mínimas e as punições geralmente consistem em multas simbólicas. “É triste, mas é um crime que compensa”, lamenta ele.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) encaminhou perguntas ao Ministério do Meio Ambiente sobre o contrabando de ovos de araras. O ministério ainda não respondeu.

A bióloga de vida selvagem Neiva Guedes, fundadora do Projeto Arara Azul, que recebe o apoio de doadores corporativos e privados, bem como de instituições governamentais, como o Ibama, é a maior especialista em araras-azuis selvagens. Ela diz acreditar que o governo está levando o contrabando de ovos a sério, mas que o crime é muito difícil de ser investigado. “Não é uma questão de ir à floresta e fazer uma prisão. É uma questão de reunir inteligência e conduzir uma longa investigação. Portanto, é um processo lento”, afirma ela.

Trabalho de inspetor

Em um dia nublado e úmido no sul da Holanda, no fim de novembro de 2018, Harald Garretsen, funcionário da Autoridade para Segurança de Alimentos e Produtos ao Consumidor, e Arno Paas, agente armado da unidade de crimes ambientais da Polícia Nacional Holandesa, se dirigiram a um bairro nobre, passando por moinhos e riachos, onde Kees Houwaart cria araras-azuis há 35 anos.

O clima no carro era tenso. Há anos eles estão com a pulga atrás da orelha em relação a Houwaart, que recebe permissão do Cites para vender de 10 a 12 filhotes por ano, os quais, conforme alegado por ele, são as crias de dois casais adultos que ele adquiriu legalmente alguns anos atrás. Segundo Garretsen, pela conhecida dificuldade que essas aves têm de se reproduzir, os números são extraordinariamente elevados e consistentes. “Ou ele é um dos criadores de maior sucesso no mundo ou está ‘lavando’ ovos.”

Howaart os convidou a entrar em sua casa decorada com muito bom gosto, com quadros de aves exóticas e estatuetas de cerâmica de cacatuas. No solário, um vaso cheio de penas azuis reluzentes adornava uma mesinha lateral e, na cozinha, em cima de uma longa mesa de madeira um desenho de criança escrito em letras garrafais azuis e verdes dizia: “Amo vocês, Vovô e Vovó”.

Depois de alguns goles de café expresso e uma conversa agradável, Howaart levou os inspetores para os fundos da casa, onde um mural de cerâmica brilhante de araras-azuis nas copas de árvores amazônicas adorna as paredes dos aviários em que 16 aves são mantidas em cativeiro. Ele pegou uma por uma e as segurou enquanto a equipe conferia se os microchips e as argolas nas patas batiam com a documentação que tinham. Não acharam nenhuma inconsistência. Quando puxaram uma pena de cada arara para o exame de paternidade por DNA, as aves soltaram grasnidos de ofensa. Várias semanas depois, os exames livraram Houwaart de qualquer suspeita.

Muitos dos clientes de Houwaart vão de carro até a Holanda, saindo de países do leste europeu, como Eslováquia e República Tcheca. Ele conta que, em geral, cobra cerca de 10 mil dólares por um macho e 15 mil por uma fêmea. Garretsen estima que, em média, Houwaart ganhe mais de 100 mil dólares por ano vendendo suas araras.

Houwaart diz que os criadores discutem o problema de contrabando de ovos porque isso denigre o comércio legal. Por isso ele recebeu a inspeção de Garretsen tão bem e forneceu de bom grado sua meticulosa documentação do Cites. E também foi por isso que ele levou os inspetores a um refrigerador na garagem para mostrar uma arara morta que ele mantinha lá há meses. Ele queria mostrar a Garretsen que não remove a argola da pata de uma ave para colocar em um filhote traficado.

Garretsen sabe que suas inspeções abalam muito pouco o comércio ilegal. As inspeções são demoradas e dispendiosas, os exames de DNA para quatro araras, em 2017, custaram US$ 13.500 ao departamento. Em partes, esse é um dos motivos pelo qual a “lavagem de ovos” é ignorada na maioria dos países e o tráfico persiste. Mas “imagine,” diz Garretsen, como seria muito pior “se nós nem existíssemos”.

Denise Hruby é jornalista e mora em Viena, Áustria. Ela cobre assuntos ambientais e sociais na Europa e Ásia, abordando desde tráfico humano e de espécies selvagens até desmatamento e mudanças climáticas. Ela é Exploradora da National Geographic e membro da Fundação Internacional das Mulheres na Comunicação Social (International Women’s Media Foundation). Siga Denise no Twitter.

Essa matéria foi financiada pela Earth Journalism Network. O Wildlife Watch é um projeto de reportagens investigativas da  National Geographic Society e da National Geographic Partners com foco em exploração e crimes contra animais selvagens. Leia as reportagens do Wildlife Watch e saiba mais sobre a missão sem fins lucrativos da National Geographic Society em nationalgeographic.org. Envie dicas, opiniões e ideias de reportagem para ngwildlife@natgeo.com.

Continuar a Ler