Por causa da carapaça, esta ave rara luta ara sobreviver

Os calaus-de-capacete estão virando alvo do tráfico de animais silvestres, ao mesmo tempo que encolhem os seus hábitats no Sudeste Asiático.Wednesday, September 26, 2018

Por Rachael Bale
Fotos de Tim Laman
Numa floresta no sul da Tailândia, um calau-de-capacete macho aproxima-se da árvore onde a parceira e o filhote ficaram encerrados durante meses, dependendo dele para se alimentar.
Confira a reportagem completa na edição de outubro da revista National Geographic Brasil.
 

Esta reportagem foi produzida em colaboração com o Laboratório de Ornitologia da Universidade Cornell e faz parte de um esforço para aumentar a conscientização global sobre o calau-de-capacete.

Vim para essa floresta para conhecer uma ave. Mas agora me pergunto se vale a pena tanto esforço.

O terreno no Parque Nacional Budo-Su-ngai Padi, no sul da Tailândia, é tão íngreme que, em certos trechos, dá até para a gente se inclinar para a frente e tocar com as mãos a trilha que ainda vamos percorrer. Em cada passo no solo encharcado de chuva, é enorme o risco de escorregarmos de volta lá pra baixo. Insetos zumbem nos nossos narizes e orelhas, e quem se arrisca a olhar em volta topa com um exército de sanguessugas avançando em sua direção com os pequenos corpos carnudos e ávidos de sangue.

Estamos aqui em busca do calau-de-capacete (Rhinoplax vigil), uma ave antiga, de aparência esquisita e que está se tornando cada vez mais rara. À frente do grupo está Pilai Poonswad, a “grande mãe dos calaus”. Desde 1978, essa cientista tailandesa vem estudando essas aves e lutando a favor da sua proteção. Também estão conosco o fotógrafo Tim Laman e um cinegrafista, além de membros da equipe de Pilai e alguns moradores do vilarejo que fica no sopé da montanha – são eles que carregam os suprimentos e vão nos ajudar na hora de montar o acampamento. Nós sabíamos que aquela missão seria árdua, uma espécie de odisseia – tanto pelos calaus-de-capacete serem aves muito esquivas como pela dificuldade para encontrá-las devido à rapidez com que estão desaparecendo.

O casco do calau – a carapaça queratinosa acima do bico – é quase todo sólido. Mais tenro que o marfim, pode servir de base para delicados entalhes de figuras e cenas artísticas. Estes cascos, esculpidos com desenhos chineses,estão confiscados nos Estados Unidos.
Cascos de calau-de-capacete, tigres empalhados e outros itens da fauna silvestre lotam a sala de uma repartição pública em Jacarta, na Indonésia. Bandos criminosos controlados por chineses passaram a contrabandear também os cascos do calau.

Quando, afinal, avistamos a árvore que nos interessa, guardamos uma distância de cerca de 40 metros, ocultos atrás de um pano de camuflagem e galhos entrelaçados. É uma espécie tropical, com 55 metros de altura, erguendo-se bem acima da maioria das outras árvores na floresta. E, projetando-se logo acima da metade do seu tronco, via-se uma cavidade retorcida na qual uma fêmea de calau-de-capacete havia se encerrado meses antes para botar um ovo. Do posto de observação no chão, não é possível vermos nada no interior do ninho, mas sabemos que é apenas uma questão de tempo até que o macho apareça, trazendo comida para a parceira.

As horas vão passando enquanto esperamos, devaneando, imaginando que estamos longe das formigas ou das sanguessugas ou, ainda, daquela incômoda tábua que nos serve de banco. O sol ainda está subindo, mas a umidade já me envolveu com um abraço molhado e pegajoso.

Não sou uma observadora de aves, mas imagino que essa deva ser a experiência típica de quem se dedica a isso. Meu devaneio é interrompido por uma onda se espraiando no ar – Uoosh- -uoosh! As lacunas entre as penas nas asas fazem com que os calaus sejam aves ruidosas ao voar.

Um caçador ilegal exibe a pele e a cabeça de um calau R. undulatus (à direita), o crânio e a carapaça de um calau-rinoceronte (no topo), assim como o casco e duas penas da cauda de um calau-de-capacete. Um intermediário rejeitou o calau-de-capacete, alegando que era pequeno demais para ser entalhado.

Hu. Hu. Hu-hu-hu, hahahaha! Então ouvimos o riso maníaco de um calau-de-capacete. Pelo som, o macho está apenas a algumas árvores de distância. Prendemos a respiração. E, de repente, lá está ele: um dinossauro vivo, medindo mais de 1 metro (sem contar as penas centrais da cauda, que lhe acrescentam mais meio metro), empoleirado na saliência do tronco, com um bicho-pau no bico, os olhos atentos espreitando ao redor.

Silêncio total à nossa volta. O calor irritante se foi, cessou o latejamento no meu tornozelo (torcido dias antes em casa, nos Estados Unidos). Acabou o tormento dos insetos, as cigarras deixaram de estrilar. Ficamos siderados diante daquela cabeça enorme, pesada com o “capacete” ou casco avermelhado sobre o bico amarelo em forma de cunha. Contemplamos o pescoço vermelho enrugado e sem penas, as longas penas pretas e brancas da cauda. É uma visão sobrenatural. Nada havia nos preparado para a sensação esmagadora de maravilhamento que sentimos.

O calau inclina-se sobre a cavidade do ninho e, através da abertura, passa o bicho-pau para o filhote. Missão cumprida, e com outro uoosh das asas, ele vai, atrás de mais comida para a família. 

Confira a reportagem completa na edição de outubro da revista National Geographic Brasil.
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