Como fotógrafos capturam um mundo cercado por doenças infecciosas

Com a disseminação do coronavírus, profissionais não podem se deixar abater pela paranoia para que consigam mostrar o rastro devastador da doença.quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

PARA ESSES FOTÓGRAFOS, não é guerra, mas também pode ser mortal.

Para mostrar os efeitos de doenças infecciosas no mundo, os fotógrafos da National Geographic ficam próximos de surtos de doenças e vírus mortais, alguns não muito diferentes do coronavírus visto nas últimas manchetes, que causa uma doença semelhante à pneumonia.

Por mais difícil que seja o fotojornalismo, há uma certa paranoia que se intensifica quando você está perto de uma doença mortal, diz Nichole Sobecki. A fotógrafa sediada no Quênia trabalhou no semestre passado para a National Geographic em hospitais, centros de tratamento e cemitérios da República Democrática do Congo, cobrindo o atual surto de ebola em meio a conflitos.

“Há um momento”, diz Sobecki ao meu colega David Beard,” em que você começa a suspeitar que tudo ao seu redor pode estar infectado com o ebola. O tecido da sua camisa, a alça da câmera, a maçaneta da porta do seu quarto, até a sua própria pele — tudo começa a parecer sinistro. Foi essa leve paranoia, até mesmo dentro de mim, que me ajudou a entender como uma sociedade pode se apegar a uma mentira e ater-se a ela com firmeza, e como boatos falsos podem levar a uma violência muito real.”

Nuvens se acumulam no céu sobre familiares e amigos em luto, que caminham entre túmulos recentemente cobertos, rumo ao enterro do policial Tabu Amuli Emmanuel (50) no cemitério Kitatumba, em Butembo, República Democrática do Congo, em 2 de março de 2019. Nas colinas com vista para Butembo, a maior cidade do nordeste da RDC, este cemitério abriga as vítimas da recente luta do Congo contra o ebola. A pessoa enterrada neste dia foi o policial Tabu Amuli Emmanuel, morto por homens armados enquanto defendia um Centro de Tratamento de Ebola do Médicos Sem Fronteiras (MSF), em Butembo.
Foto de Nichole Sobecki. national Geographic

Lynn Johnson, que cobriu matérias para a National Geographic sobre a SRAG, a gripe aviária e a varíola dos macacos, entre outras, se sensibilizou ao fotografar Norbert, um jovem do Congo “que estava sofrendo terrivelmente com varíola dos macacos. Tão corajoso”, lembrou ela na sexta-feira. Ela também precisou se concentrar na cobertura de “doenças armadas”, como o ebola, a febre de Marburg e a varíola. “Como se não houvesse perigo suficiente na natureza, ainda existe algo mais virulento que elimina uns aos outros”, disse Johnson.

Sobecki e Johnson estavam dispostas a trabalhar um pouco mais, mas o colega Joel Sartore, mais conhecido por sua coleção Photo Ark de mais de 9,8 mil espécies vulneráveis, havia sido exposto à febre de Marburg, da família do ebola. “Tivemos que levá-lo no primeiro voo que partia de Uganda e ele ficou em quarentena em sua casa”, diz a editora de fotos Kathy Moran. Mais tarde, Sartore teve que passar por um tratamento semelhante à quimioterapia, que durou meses, para se livrar da leishmaniose, um parasita transmitido pela picada de flebotomíneos.

“Quase todos os nossos fotógrafos foram expostos à malária, dengue etc.”, diz Moran.

Para os fotógrafos e repórteres presos entre as 36 milhões de pessoas afetadas pelo isolamento de treze cidades da China central, epicentro do recente surto, Sobecki tem um conselho:

“Fiquem calmos, sigam as recomendações dos profissionais de saúde e saibam a diferença entre compartilhar histórias importantes e contribuir para a disseminação do medo. O maior desserviço àqueles que vivem em meio a um surto infeccioso é usar sua situação, que é muito real e complicada, para transformá-la em uma fantasia cheia de horror.”

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