Furacões estão mais potentes e duradouros, mesmo sobre o solo

Novo estudo é o primeiro a avaliar como as mudanças climáticas podem deixar os furacões mais devastadores mesmo após atingirem o solo.

Publicado 16 de nov de 2020 13:00 BRST, Atualizado 16 de nov de 2020 15:39 BRST
Estima-se que, em 2018, o Furacão Michael (nesta imagem mostrado como uma tempestade de categoria 4) ...

Estima-se que, em 2018, o Furacão Michael (nesta imagem mostrado como uma tempestade de categoria 4) tenha causado danos no valor de US$ 25,1 bilhões. Novo estudo descobriu que furacões estão durando mais tempo em terra do que o normal, um efeito das mudanças climáticas que poderia aumentar os danos a regiões mais afastadas da costa.

Foto de NOAA

OS FURACÕES PODEM durar mais tempo após atingirem o solo e espalhar seus danos para além da costa, de acordo com um novo estudo — um efeito das mudanças climáticas que ainda não havia sido descrito.

O estudo publicado recentemente na revista científica Nature analisou furacões que atingiram a América do Norte de 1967 a 2018. Foi constatado que os furacões que tocaram a terra na década de 1960 perderam 75% de sua força no primeiro dia após chegarem à costa. Na atualidade, após atingir o solo, um furacão perde normalmente cerca de 50% de força no primeiro dia, segundo o estudo.

O ano de 2020 tem enfrentado uma temporada de furacões sem precedentes, pois 29 tempestades já receberam nome até o momento e ainda faltam alguns dias para o fim oficial da temporada, em 30 de novembro. A Costa do Golfo teve um prejuízo de bilhões de dólares e o Furacão Eta, atualmente uma tempestade de categoria 1, se dirige à costa oeste da Flórida, após atingir Florida Keys. As regiões costeiras aprenderam a lidar com fortes tempestades, mas esse novo estudo sugere que regiões mais distantes do local inicial onde o furacão atinge o solo poderão ser mais afetadas no futuro.

Os autores do estudo afirmam que as crescentes temperaturas dos oceanos são a principal causa por trás da maior duração de um furacão. Eles acrescentam que se o aquecimento climático provocado pelos humanos continuar, o poder destrutivo dos furacões — alguns com ventos de mais de 160 quilômetros por hora e chuvas torrenciais — poderia se estender para além da costa e impactar comunidades mal equipadas para lidar com tempestades tão devastadoras.

Como é possível saber?

A descoberta de uma relação entre furacões mais duradouros em terra e o aquecimento dos oceanos ocorreu por acaso, dizem os autores do estudo.

Ondas do Furacão Leslie atingem a costa próximo a Lisboa, Portugal, em 13 de outubro de 2018.

Foto de Patricia de Melo Moreira, AFP, Getty Images

“Estávamos estudando a evolução de furacões que atingiram o solo com o uso de simulações, e continuamos a encontrar características que não podiam ser explicadas utilizando os modelos atuais”, contou Pinaki Chakraborty, chefe de mecânica de fluidos do Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa, no Japão.

Chakraborty diz que os modelos não consideravam um fator: o aumento do acúmulo de umidade dos furacões.

O ar quente retém mais umidade do que o ar frio, e diversos estudos anteriores demonstraram uma relação evidente entre as mudanças climáticas e furacões que causam mais chuvas. Considerando o furacão como um motor, a água quente do oceano embaixo dele age como combustível. Quando a água do oceano está particularmente quente, como as águas do Caribe e do Golfo do México, ela pode sobrecarregar os furacões.

À medida que o furacão se desloca sobre a terra, perde seu combustível rapidamente e, em seguida, começa a se dissipar e a enfraquecer. Mas se a água do oceano serve como combustível e os autores do estudo acreditam que um furacão consegue reter mais umidade devido ao aquecimento da atmosfera, então mais carga ele terá.

Para testar a taxa mais lenta de enfraquecimento de um furacão foram analisados os registros históricos e Chakraborty e seu coautor executaram quatro modelos que simulam um furacão se movendo sobre a terra. Em cada modelo foi ajustada a temperatura das águas do oceano abaixo das tempestades. Os pesquisadores descobriram que quanto mais quente a temperatura da superfície do mar, mais umidade a tempestade consegue manter sobre a terra, levando mais tempo para se desintegrar.

Segundo James Kossin, cientista climático da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) que não participou da pesquisa, “Foi demonstrada uma relação com as temperaturas mais quentes dos oceanos, o que, por sua vez, pode estar relacionado às mudanças climáticas.”

Precisaremos nos adaptar?

O novo estudo não cita um furacão específico dos últimos 50 anos como exemplo dessa maior duração. Cientistas geralmente concordam que não é possível estabelecer um vínculo direto entre as mudanças climáticas causadas pelos humanos e uma única tempestade e até mesmo uma temporada inteira de furacões.

“Se a conclusão dos autores são sólidas como parecem ser, então pelo menos na região do Atlântico poderia ser justificável a necessidade de aumentar as tarifas de seguro e de aprimorar as normas de construção em regiões mais afastadas da costa para compensar esse poder destrutivo adicional do vento e da água”, diz Brian McNoldy, meteorologista da Universidade de Miami.

Além das estruturas físicas, evidências de furacões que desencadeiam mais chuvas em regiões mais afastadas da costa podem influenciar os locais que receberão aviso de evacuação antes de uma tempestade.

“Esta é uma questão prática importante já que afeta potencialmente as decisões de evacuação”, escreveu por e-mail Kerry Emanuel, cientista climático do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Aguardando confirmação

Cientistas observam que mais pesquisas são necessárias para confirmar a existência desse novo fenômeno e compreender melhor seu impacto.

“Estou convencido de que esse é um problema importante, mas não considero que os resultados são definitivos, mais pesquisas são necessárias para confirmar ou refutar os resultados”, esclarece Emanuel, sugerindo que existem diversas formas de analisar os dados.

“Estou mais inclinado a acreditar que isso pode acontecer. Acho que a combinação dos dados e os experimentos de modelagem simples são muito convincentes”, afirma Dan Chavas, cientista atmosférico da Universidade de Purdue e um dos revisores do estudo. “Acho que o efeito é real, mas a questão é qual a potência desse efeito.”

Chakraborty afirma que mais pesquisas são necessárias para quantificar o nível em que uma determinada mudança de temperatura pode afetar o furacão, e a física detalhada de como a umidade adicional ajuda o furacão a permanecer intacto por mais tempo. A América do Norte geralmente possui os melhores dados históricos de furacões, mas cientistas ainda precisam aplicar a teoria em outras bacias de formação de ciclones tropicais, explica Chavas. O trabalho preliminar de Chakraborty sugere que essa teoria também pode ser válida para o Pacífico.

Mas Chavas diz que por enquanto a pesquisa no Atlântico é uma primeira análise importante para compreender um pouco sobre o efeito das mudanças climáticas.

“Quando li o artigo pela primeira vez, pensei ‘nossa, como não pensamos nisso antes?’”, conta ele.

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