Crianças apresentam metade do risco de contaminação e transmissão da covid-19

Decisões importantes relacionadas à covid-19 e às crianças têm considerados mais questões políticas do que a ciência, mas estudos em grande escala estão mudando esse cenário.

Publicado 14 de dez de 2020 13:00 BRST
Alunos ocupam seus lugares no primeiro dia de aulas presenciais de educação infantil na Escola de ...

Alunos ocupam seus lugares no primeiro dia de aulas presenciais de educação infantil na Escola de Ensino fundamental Walter P. Carter em Baltimore, em 16 de novembro de 2020.

Foto de Rosem​ Morton, The New York Times

EM MEIO ao pior surto de covid-19 dos Estados Unidos, muitas autoridades estaduais e locais se perguntam mais uma vez se devem fechar as escolas. Agora, novas pesquisas confirmaram que escolas não são as principais fontes de surtos do novo coronavírus, mas que contribuem para o aumento gradual dos casos e a propagação da doença toda vez que um país deixar de controlar a pandemia de covid-19.

A National Geographic teve acesso exclusivo aos resultados de um estudo islandês que fornece provas definitivas sobre o papel das crianças na disseminação do SARS-CoV-2. Pesquisadores da Direção de Saúde do país e da deCODE genetics, empresa de genoma humano de Reykjavik, monitoraram todos os adultos e crianças que foram mantidos em quarentena no país após uma possível exposição à doença no segundo trimestre, por meio do rastreamento de contatos e sequenciamento genético, a fim de identificar elos entre diferentes grupos que geraram surtos da doença. Esse estudo com 40 mil pessoas concluiu que menores de 15 anos tinham cerca de metade da probabilidade dos adultos de serem contaminados e apenas metade da probabilidade dos adultos de transmitirem o novo coronavírus a outras pessoas. Quase todas as transmissões de SARS-CoV-2 a crianças se originaram em adultos.

“Crianças podem contrair e transmitir a doença a outras pessoas, mas em uma frequência menor do que os adultos”, afirmou Kári Stefánsson, presidente da deCODE.

Essa análise faz parte de uma publicação recente de estudos em grande escala que confirmam a conclusão de que adultos contaminados representam um risco maior a crianças do que crianças a adultos. Esses estudos podem contribuir para que autoridades tomem decisões esclarecidas ao determinar quando devem ou se devem fechar escolas, já que esses fechamentos são prejudiciais às crianças. Além dos ensinamentos acadêmicos imprescindíveis, as escolas prestam diversos serviços essenciais às comunidades. Por essa razão, na semana passada, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos recomendaram que as escolas fossem “os últimos estabelecimentos a fechar” e “os primeiros a reabrir”.

Contudo, ainda que as crianças em geral sejam menos suscetíveis ao novo coronavírus, quando ocorre um novo surto de covid-19 em uma comunidade, os riscos em escolas podem aumentar drasticamente. Em meio ao contágio desenfreado nos Estados Unidos, as escolas de ensino fundamental e médio do país registraram mais de 313 mil casos de covid-19 em 10 de dezembro.

Em segurança

A propagação de uma doença infecciosa nas escolas depende de dois fatores: a frequência de contaminação das crianças pelo novo coronavírus e a facilidade de transmissão de covid-19 a outras pessoas. Se as crianças fossem muito suscetíveis e altamente infecciosas, as escolas provavelmente provocariam novos surtos de covid-19, como ocorre em casos de gripe comum. Mas se as crianças possuem um baixo risco de contaminação e de transmissão, as escolas deveriam simplesmente seguir o exemplo da comunidade em geral.

Antes do fim de setembro, entretanto, os dados sobre SARS-CoV-2 em crianças eram escassos, sobretudo porque as escolas dos Estados Unidos haviam fechado logo no início na pandemia de covid-19. Além disso, as pesquisas divulgadas na metade do ano muitas vezes eram limitadas.

Crianças desempenham um papel secundário na transmissão do novo coronavírus, mas isso não justifica a reabertura imediata das escolas sem que outras medidas de controle de transmissão comunitária sejam tomadas.

Foto de Rosem Morton, The New York Times

A melhor opção para entender como ocorre o contágio entre crianças e adultos seria monitorar constantemente famílias saudáveis com crianças em idade escolar e verificar se foram contaminadas. Com testes frequentes, os cientistas identificariam as infecções logo que surgissem, comprovando quem adoeceu primeiro.

A Islândia e a deCODE aplicaram essa estratégia por meio de rastreamento de contatos e testes abrangentes, que foram aplicados em mais da metade da população do país: qualquer um que tivesse sido exposto foi mantido em quarentena e isolado da comunidade, mas, muitas vezes, suas próprias famílias ficavam expostas. Ao comparar a diferença entre adultos e crianças nessas quarentenas, a deCODE verificou que crianças desempenham um papel menor na transmissão do SARS-CoV-2.

A Islândia em nenhum momento fechou as escolas de ensino fundamental, embora tenha fechado as de ensino médio no auge do primeiro surto de covid-19. Dados relacionados à onda da doença em setembro confirmam a hipótese de que crianças mais novas são menos propensas a adoecer ou contaminar outras pessoas. Stefánsson ainda pretende publicar esses resultados em um periódico com revisão por pares, mas afirma que os dados mais detalhados são conclusivos no caso da transmissão islandesa — “e acabamos sendo um modelo animal representativo da população humana”.

Stefánsson adverte que, se todos os estabelecimentos fossem fechados, exceto escolas e creches, as crianças passariam a ser um dos principais focos de transmissão. Ele explica que, embora o risco individual seja baixo entre jovens, ainda haverá surtos de covid-19 nas escolas.

É nesse momento em que a questão deixa de ser científica e passar a ser sobre o grau de risco que a sociedade está disposta a aceitar para manter as  escolas abertas: “qual seria o risco aceitável?”, indaga ele.

Faixas etárias diferentes, tratamentos diferentes

Além do estudo da Islândia, outra pesquisa revelou que pré-adolescentes apresentam uma probabilidade significativamente menor de adoecer. Com isso em mente, os funcionários das escolas precisam fazer uma distinção entre crianças menores e adolescentes com suas particularidades.

Um estudo recente em grande escala sobre como conter a transmissão viral confirma essa conclusão. Quando a epidemia de covid-19 tinha apenas poucas semanas de existência, milhares de pessoas viajaram para comemorar o Ano Novo Lunar na China. Em Hunan, província próxima ao local onde o novo coronavírus foi descoberto pela primeira vez, o governo organizou testes em locais de viagens e rastreamento de contatos. Utilizando dados desses postos de controle, os pesquisadores analisaram 1.178 pessoas infectadas e seus 15.648 contatos próximos.

Os resultados, publicados na revista científica Science no fim de novembro, mostram que menores de 12 anos estavam menos propensos a contrair a doença do que adultos após serem expostos ao novo coronavírus, segundo Kaiyuan Sun, coautor do estudo e pesquisador do Centro Internacional Fogarty dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos. O estudo também verificou que o risco de transmissão dentro de residências, especialmente durante o confinamento, era muito maior do que entre contatos mais casuais, como aqueles das escolas. Quando casos positivos para SARS-CoV-2 foram isolados e seus contatos entraram em quarentena, as vias de transmissão foram interrompidas, o que sugere que intervenções inteligentes podem ajudar a impedir surtos maiores de covid-19, inclusive em escolas.

Muitos outros estudos concordam que a idade seja um fator importante. Um estudo recente ainda não publicado rastreou 4.524 pessoas em 2.267 residências de Genebra, na Suíça, entre abril e junho. Os pesquisadores verificaram que crianças entre cinco e nove anos tinham até 22,7% menos probabilidade de serem contaminadas pelo novo coronavírus, e o risco aumentava conforme a idade.

A conclusão é que a principal mudança ocorre entre os 10 e 12 anos. No período da puberdade, adolescentes passam a ter um risco maior de contaminação e transmissão do novo coronavírus. O COVID Monitor, grupo que rastreia informações de mais de sete mil distritos escolares nos Estados Unidos, constatou que as taxas de casos no ensino médio são quase três vezes maiores do que no ensino fundamental.

O motivo ainda não está claro. Uma teoria defende que as crianças são expostas com mais frequência a outros tipos de coronavírus, conferindo-lhes certa proteção. Outra hipótese acredita que as crianças possuam menos receptores de ECA2, um alvo do novo coronavírus, em suas vias aéreas superiores. Por fim, diz-se que pulmões menores não expelem tantas gotículas nem geram tantos aerossóis quanto pulmões maiores, por exemplo.

Apesar dessa distinção, crianças e adolescentes costumam ser colocados juntos em análises de doenças, o que, segundo Alasdair Munro, pesquisador clínico de doenças pediátricas infecciosas do Hospital Universitário de Southampton na Grã-Bretanha, “é extremamente problemático”.

Mas a transmissão não depende apenas de fatores biológicos. Fatores comportamentais também desempenham um papel. Em novembro, um estudo conduzido na Índia com meio milhão de pessoas encontrou “padrões de maior risco de transmissão” do novo coronavírus em menores de 14 anos, incluindo muitos casos em que crianças foram contaminadas por outras crianças.

“Se uma escola abre, as crianças mantêm contatos muito mais frequentes do que adultos”, afirma Sun. Sua análise também reitera a estimativa do CDC de que a transmissão pré-sintomática é responsável por cerca de 50% das contaminações de covid-19 — o que significa que nem sempre é possível isolar as pessoas antes de transmitirem SARS-CoV-2 a terceiros. É por essa razão que as escolas sempre representam certo nível de risco.

Quando é necessário fechar as escolas?

Como diferentes abordagens foram adotadas pelos países com relação às escolas, o mundo inadvertidamente acabou proporcionando um experimento natural sobre o papel exato das escolas na transmissão de covid-19.

No Reino Unido, um novo artigo publicado na revista científica The Lancet constatou que as reaberturas parciais de escolas na metade do ano foram associadas a um baixo risco de casos; entre mais de 57 mil escolas e creches, o estudo encontrou apenas 113 casos associados a 55 surtos da doença. Esses casos possuíam uma forte correlação com taxas de infecção locais, ressaltando a importância de reduzir a transmissão comunitária para manter as escolas em segurança. “A transmissão ocorre em escolas, assim como em qualquer local em que haja interação entre as pessoas”, esclarece Munro. “Mas as crianças não são as principais transmissoras do novo coronavírus.” Pelo contrário, fica cada vez mais evidente que, em muitos países, são pessoas entre 20 e 30 anos que desencadeiam surtos que atingem idosos e crianças.

Pátio vazio de escola pública na cidade de Nova York, em 19 de novembro de 2020. Erros e mensagens dúbias do governo sobre a pandemia de covid-19 aumentaram as disparidades raciais na educação.

Foto de Wang Ying, Xinhua/Alamy Live News

Dados da Alemanha reiteram essas conclusões. Recentemente, cientistas conduziram milhares de testes de anticorpos com crianças da Bavária e obtiveram resultados positivos em seis vezes mais crianças do que o esperado, sugerindo que muitos casos pediátricos não estão sendo detectados. Mas poucos desses casos causaram surtos mais disseminados da doença. O país também coletou dados de suas 53 mil escolas e creches; apesar do aumento de casos na comunidade em outubro, uma média de 32 escolas registrou mais de dois casos positivos por semana. Susanne Kuger, diretora do Centro de Monitoramento Social do Instituto Alemão da Juventude, afirma que, muitas vezes, “são os adultos que transmitem a doença, até mesmo nas creches”, quando os pais levam as crianças à escola ou quando os funcionários se reúnem nos intervalos.

A Alemanha também tomou muitas medidas adicionais para apoiar os pais, como aumentar o número de dias de licença médica para que possam ficar em casa por mais tempo se seus filhos forem acometidos por covid-19. Essas etapas são essenciais, explica Kuger, porque “os pais transmitem medo e preocupações aos filhos. Quanto mais estressados estiverem os pais, mais estressada ficará a criança.”

Consequências desiguais

Após meses de aulas à distância, professores e pais de alunos tiveram a certeza de que fechar as escolas é prejudicial. Houve muitos relatos de aumentos de preocupações com saúde mentalviolência doméstica e até mesmo anos de vida perdidos devido à diminuição do aprendizado. É por isso que Fiona Russell, diretora do curso de doutorado do Departamento de Saúde da Criança e do Adolescente da Universidade de Melbourne, na Austrália, esclarece: “as escolas devem ser a prioridade máxima no quesito de reabrir as portas, e devem ser as últimas a fechar. Precisam ser tratadas com prioridade.”

Isso não significa a reabertura imediata das escolas sem antes tomar outras medidas de controle de transmissão comunitária de covid-19. O estado de Victoria, por exemplo, adotou uma abordagem muito conservadora no que concerne aos bloqueios. Lar de 6,5 milhões de pessoas, o estado não reabriu até que houvesse menos de 10 casos da doença no total. Russell afirma que as escolas foram fechadas não por serem inerentemente perigosas, mas para evitar a circulação de pessoas.

Brett Sutton, Diretor de Saúde de Victoria também disse que, em retrospecto, o estado não deveria ter fechado as escolas. Em parte, devido à sua orientação, a Irlanda manteve as escolas abertas durante o último confinamento e fechou apenas ginásios, igrejas, restaurantes e negócios não essenciais. Ainda assim, os casos de infecções por SARS-CoV-2 na comunidade diminuíram 80% em seis semanas.

“Nossa prioridade ao manter o novo coronavírus fora das escolas”, afirma Russell, “é mantê-lo longe da comunidade”.

Nos Estados Unidos, o presidente eleito Joe Biden afirmou que a reabertura das escolas será prioridade em seus primeiros 100 dias no cargo, mas a comunicação clara de informações científicas — e a honestidade sobre os riscos desiguais do SARS-CoV-2 de acordo com a etnia e a renda — será importante para conquistar a confiança dos pais conforme as escolas tentam reabrir.

Kaliris Salas-Ramirez, neurocientista da Universidade da Cidade de Nova York, é mãe solteira e decidiu manter seu filho de nove anos em casa, longe de sua escola que fica no Distrito 4 da cidade de Nova York. “Meu filho é negro e já sofre com muitos outros possíveis riscos”, explica ela, em referência aos perigos existenciais do racismo estrutural. “Famílias negras e pardas como a nossa não podem se dar ao luxo de arriscar ainda mais a vida dos filhos.”

Erros cometidos e mensagens dúbias enviadas pelo governo sobre a pandemia de covid-19 já aumentaram as disparidades étnicas na educação. Uma pesquisa recente de Massachusetts constatou que famílias negras, latinas e de baixa renda têm muito mais probabilidade de precisar encarar o ensino à distância neste trimestre, tendência observada em todo o país. Essas escolhas são intencionais e indicam uma análise lógica do risco desproporcional: a maioria das crianças contaminadas pelo SARS-CoV-2 e mortas em decorrência da covid-19 se enquadra nesses grupos étnicos. Por outro lado, escolas particulares são muito mais propensas a abrir para aulas presenciais.

“Não quero me colocar em risco, nem colocar meus filhos e seus professores nessa situação”, lamentou Naomi Pena, mulher negra, integrante do Conselho de Educação Comunitária do Distrito 1 da cidade de Nova York. Vários de seus amigos morreram devido à covid-19. Por essa razão, Pena decidiu manter seus filhos adolescentes em casa, apesar das dificuldades de aprendizagem de um de seus filhos. Assim como Pena, cerca de 60% das famílias do Distrito 1 optaram pelo aprendizado à distância para seus filhos.

Com a ciência finalmente chegando a um consenso sobre a segurança das escolas no que diz respeito ao SARS-CoV-2, os conselhos escolares precisarão formular planos pautados nas evidências, além de comunicar melhor quais medidas estão sendo tomadas para manter as crianças e as comunidades em segurança.

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