Como variante mais contagiosa do vírus se tornou dominante nos EUA

A cepa B.1.1.7 está se espalhando entre adultos e crianças, e especialistas dizem que essa é mais uma razão para se vacinar, e rápido.

Por Sanjay Mishra
Publicado 19 de abr. de 2021 07:00 BRT
B.1.1.7

A variante B.1.1.7 possui uma série de características preocupantes, incluindo o fato de que pode fazer com que alguns kits comerciais para teste de covid-19 forneçam um resultado falso negativo.

Foto de Lisa Maree Williams, Getty Images

A variante do novo coronavírus conhecida como B.1.1.7, que estudos revelam ser mais letal e mais transmissível do que a versão original do Sars-CoV-2, é agora a cepa mais comum em circulação nos Estados Unidos, e sua crescente prevalência tem deixado epidemiologistas em alerta.

No início da pandemia, poucas crianças estavam sendo infectadas pelo coronavírus e elas não pareciam ser fontes principais de transmissão do vírus para outras faixas etárias. “Isso mudou com a B.1.1.7”, afirma o epidemiologista Michael Osterholm, diretor do Centro de Pesquisa e Política de Doenças Infecciosas. “Agora estamos observando um número significativo de surtos em escolas e atividades relacionadas à escola.”

Um estudo realizado no Reino Unido, onde essa variante foi detectada pela primeira vez, mostrou que mais crianças foram infectadas pela cepa B.1.1.7 do que com outras variantes do Sars-CoV-2, em comparação com grupos de idade mais avançada. O mesmo cenário está agora surgindo nos Estados Unidos.

Um surto crescente de covid-19 no condado de Carver, Minnesota, tem sido associado a atividades realizadas por escolas e clubes esportivos. Em um estudo realizado pelo Departamento de Saúde de Minnesota, pesquisadores produziram um mapa detalhado da transmissão de covid-19 mostrando que a variante B.1.1.7 causou cerca de 25% desses casos. Um surto semelhante foi relatado em Wisconsin, onde todas as crianças de uma creche do condado de Dane que testaram positivo para o vírus tinham 6 anos ou menos.

O ponto positivo, se houver, é que um estudo sugere que crianças mais novas têm menos probabilidade de transmitir o vírus do que adultos. Além disso, as vacinas atualmente autorizadas para uso nos Estados Unidos são eficazes contra a B.1.1.7 e podem ajudar a reverter o curso da pandemia, contanto que as pessoas também continuem a limitar a exposição ao vírus seguindo as precauções e restrições de saúde pública vigentes.

“Esse é mais um motivo para se vacinar”, comenta William Schaffner, médico e professor de doenças infecciosas no Centro Médico da Universidade Vanderbilt. “Essa variante não é apenas mais contagiosa, mas quando infecta alguém, existe maior probabilidade de avançar para o estágio grave da doença. Por isso estamos preocupados.”

Variante mais contagiosa entra nos Estados Unidos

No início de dezembro, enquanto o otimismo aumentava em relação ao ambicioso lançamento da vacina no Reino Unido, cientistas britânicos e autoridades de saúde pública observavam um aumento de casos no condado de Kent, no sudeste da Inglaterra. Embora apenas 4% desses casos tenham sido sequenciados, descobriu-se que quase metade foi causada pela nova variante do Sars-CoV-2.

Por ser muito mais contagiosa, essa variante, agora denominada B.1.1.7, se espalhou rapidamente pelo mundo e, em 29 de dezembro, o Departamento de Saúde Pública e Meio Ambiente do Colorado relatou o primeiro caso nos Estados Unidos. No entanto, diversos estudos agora mostram que o B.1.1.7 provavelmente circulou nos Estados Unidos diversas vezes entre novembro de 2020 e janeiro de 2021 — mais cedo do que se pensava.

No início de fevereiro, Karthik Gangavarapu, pós-graduando do Instituto de Pesquisa Scripps, em La Jolla, Califórnia, foi coautor de um estudo que previa que a B.1.1.7 se tornaria dominante nos Estados Unidos até o final de março de 2021.

“Com base no que observamos com essa variante em outras partes do mundo, não havia razão para acreditar que isso não aconteceria nos Estados Unidos, e acredito que, para a maioria dos epidemiologistas, não é uma grande surpresa”, declara Gangavarapu.

Atualmente, nos Estados Unidos, o número de casos provocados pela B.1.1.7 está aumentando a uma taxa de cerca de 7,5% ao dia.

Os pesquisadores acreditam que a variante se espalha tão rapidamente devido à cepa B.1.1.7 ter acumulado um grande número de alterações genéticas17 no total — incluindo oito na proteína de espícula, característica do vírus. A proteína de espícula se liga à proteína receptora ACE2, que é encontrada na parede externa de 72 tipos de células humanas. Depois que o vírus se agarra ao receptor ACE2, ele pode entrar na célula hospedeira, se replicar e desencadear a infecção.

Ao se ligar mais firmemente aos receptores ACE2, “essas mutações oferecem uma vantagem seletiva à B.1.1.7. É por isso que agora ela está se espalhando por toda parte”, explica Olivier Schwartz, chefe da Unidade de Vírus e Imunidade do Instituto Pasteur, em Paris, França. “É uma espécie de processo de seleção natural.”

Um estudo que analisou mais de 100 mil pessoas infectadas pela B.1.1.7 ou com a cepa original também mostra que a nova variante é mais mortal.

Quando os pesquisadores compararam os dois grupos de pacientes, a B.1.1.7 apresentou um índice de mortalidade entre 32% e 104% mais alto, afirma o líder da equipe, Robert Challen, clínico da Universidade de Exeter, no Reino Unido.

Alguns pesquisadores acreditam que a B.1.1.7 se comporta de maneira tão diferente da cepa original que pode até ser “tratada como uma epidemia separada”, segundo Ravindra Gupta, professor de microbiologia clínica da Universidade de Cambridge.

A B.1.1.7 também tem causado problemas de outras maneiras. A variante carrega algumas mutações genéticas na proteína de espícula denominadas deleções, que têm esse nome porque eliminam parte do código genético, o que ajuda essa variante a escapar dos anticorpos durante a resposta imunológica do organismo após uma infecção.

Essas deleções também podem fazer com que certos kits de teste comerciais forneçam um resultado falso negativo, por não conseguirem detectar o gene da proteína de espícula. A Food and Drug Administration (agência norte-americana responsável pela regulamentação de alimentos e medicamentos) emitiu recomendações para abordar possíveis resultados falsos negativos que surjam devido ao aumento da prevalência da B.1.1.7 e outras variantes com deleção nos Estados Unidos.

Implicações para crianças

O risco da B.1.1.7 para as crianças, e consequentemente para suas famílias, pode não se dever tanto a uma maior transmissibilidade, mas à incapacidade das crianças de manter o distanciamento social, usar máscaras e evitar esportes de contato, explica Osterholm.

De acordo com Schwartz, como a variante é mais infecciosa para todas as faixas etárias, as crianças agora podem ser infectadas com mais facilidade por causa do contato próximo em escolas e creches. Assim, elas podem transmitir o vírus mais frequentemente umas às outras e a suas famílias em casa.

Devido à crescente demanda para reabrir escolas, há agora uma transmissão maior da variante B.1.1.7 entre as crianças. Isso significa que mais escolas terão dificuldade em manter o ensino presencial.

A boa notícia é que as pessoas que foram vacinadas, ou previamente infectadas com outra variante, possuem anticorpos que ainda neutralizam a B.1.1.7, afirma Schwartz, que conduziu um estudo que evidencia o fato. Os fabricantes de vacinas já estão divulgando dados clínicos mostrando que as vacinas disponíveis protegem crianças de 12 a 15 anos, e estudos em crianças mais novas estão em andamento.

“O desafio é que não teremos vacinas em quantidade e tempo suficientes” para controlar a pandemia, a menos que as pessoas sigam as restrições de segurança enquanto isso, conclui Osterholm. “Se não limitarmos nossa exposição a esse vírus e tentarmos desafiar a gravidade da doença, não seremos capazes de controlá-la.”

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