Por que doses anuais de reforço contra a covid-19 podem se tornar um padrão

Para manter o novo coronavírus sob controle e se prevenir contra novas variantes, podem ser necessárias vacinações anuais, como ocorre no caso da gripe.

Publicado 30 de abr. de 2021 12:30 BRT
booster shot

Seringas com doses da vacina da AstraZeneca contra covid-19 no Museu de Ciência e Tecnologia de Milão em 22 de março de 2021.

Foto de Alessandro Grassani, The New York Times via Redux

Mesmo com dezenas de milhões de pessoas vacinadas que agora podem respirar um pouco mais aliviadas depois de receber a vacina contra a covid-19 de uma ou duas doses, alguns se perguntam se uma única aplicação da vacina é suficiente ou se será necessária mais uma — ou ainda outra.

Os cientistas ainda não sabem a validade da proteção oferecida pelas remessas atuais de vacinas contra o coronavírus. Desde a descoberta da cepa original, no final de 2019, o vírus continuou a sofrer mutações, produzindo variantes — versões semelhantes do vírus, mas que possuem maior potencial de contágio, letalidade e de sobrevivência contra as proteções dos anticorpos proporcionadas pelas vacinas existentes contra a covid-19. Para se antecipar à evolução do vírus, alguns fabricantes de vacinas estão correndo contra o tempo para desenvolver novas vacinas e combater as novas variantes enquanto trabalham também para descobrir a validade da imunização oferecida pelas doses atuais.

E o “novo normal”, segundo alguns especialistas, pode significar que precisaremos de uma vacinação de rotina, ou de reforços, contra a covid-19.

O que é um reforço?

Segundo a alergista, imunologista clínica e presidente da American Medical Association, Susan R. Bailey, o reforço é “uma dose repetida de uma vacina já recebida para reforçar a imunidade”. O sistema imunológico desenvolve uma memória de combate ao vírus a partir da exposição repetida. É comum que em um segundo ou terceiro contato com um antígeno, molécula que estimula a produção de anticorpos, o organismo crie uma resposta imunológica “mais reforçada e mais duradoura”, afirma Bailey.

A vacinação contra a herpes zoster, por exemplo, recomendada para todos os adultos saudáveis com mais de 50 anos, requer uma primeira dose e, após um período de dois a seis meses, um reforço para garantir que seja 90% eficaz na prevenção da infecção e de seus efeitos colaterais.

As vacinas da Pfizer-BioNTech e da Moderna contra a covid-19, que são vacinas de mRNA, incluem uma dose inicial e uma segunda dose a ser aplicada depois de três e quatro semanas, respectivamente. Atualmente, a terceira vacina contra a covid-19 autorizada para uso emergencial nos Estados Unidos, desenvolvida pela Johnson & Johnson, é administrada em dose única, mas a empresa está testando também a eficácia de uma segunda dose de reforço.

Em fevereiro, a Pfizer-BioNTech lançou um estudo sobre uma terceira dose para esse sistema de administração em duas doses da vacina. Inclusive, no dia 15 de abril, o CEO da Pfizer, Albert Bourla, disse à CNBC que as pessoas provavelmente precisariam de uma terceira dose um ano após a aplicação da primeira dose.

Cada uma dessas vacinas oferece eficácia impressionante contra a covid-19 com a administração de suas doses recomendadas. Porém, há questões que permanecem, por exemplo: quanto tempo essa imunidade pode durar? Ou ainda: as doses adicionais serão necessárias em um futuro próximo (ou não tão próximo) para manter o alto nível de proteção?

As vacinas contra covid-19 são novas, o que significa que os cientistas ainda não sabem por quanto tempo serão eficazes sem intervenção adicional. Os pesquisadores monitoraram a eficácia das vacinas em pessoas vacinadas e os estudos mostram que as vacinas permanecem altamente eficazes por pelo menos seis meses.

“Infelizmente, muitas pessoas têm entendido que essa informação significa que a eficácia é de apenas seis meses”, quando na verdade “essa informação significa que sabemos que a eficácia das vacinas dura seis meses, mas esperamos que dure ainda mais”. A única forma de identificar exatamente a validade da proteção, “é esperar para ver", complementa a imunologista.

Mas, “nem sempre as vacinas precisam de um reforço”, diz Amesh Adalja, médico infectologista e acadêmico sênior do Centro de Segurança Sanitária da Universidade Johns Hopkins. A vacina contra a febre amarela, por exemplo, oferece proteção vitalícia após a aplicação de dose única. Embora a vacina antitetânica por muito tempo tenha exigido uma dose de reforço a cada 10 anos para manter sua eficácia, recentemente pesquisadores têm questionado se doses adicionais são realmente necessárias.

Além do mais, há diferença entre a dose de reforço e o que alguns cientistas estão testando agora, que são aplicações direcionadas a variantes específicas.

Existem pelo menos cinco variantes preocupantes do SARS-CoV-2 original, o vírus que causa a covid-19. São elas: B.1.1.7, identificada pela primeira vez no Reino Unido; B.1.351, descoberta na África do Sul; P.1, que surgiu no Brasil; e ambas B.1.427 e B.1.429, que foram descobertas na Califórnia. Tendo em vista essa questão, a Moderna fez ajustes em sua vacina e atualmente está testando se ela é eficaz contra B.1.351 A Pfizer, por sua vez, disse à National Geographic, por meio de um porta-voz, que a empresa está discutindo o potencial para ensaios adicionais de vacinas que teriam como alvo as variantes atualmente em circulação.

Até agora, as vacinas existentes provaram que oferecem proteção contra essas variantes. “Não acho que estejamos a ponto de tomar uma decisão que possa mudar algo por causa das variantes”, afirma Adalja. Mas nem todo especialista em doenças infecciosas concorda com essa avaliação.

O novo normal

Daniel Lucey, especialista em doenças infecciosas do Centro Médico da Universidade de Georgetown, afirma que aplicações de doses adicionais para aumentar a imunidade ou deter variantes atuais ou futuras “provavelmente serão uma nova realidade” para algumas pessoas. O vírus tentará se modificar “para sobreviver”, diz ele, e pode reduzir a proteção das vacinas atuais.

Lucey acrescenta: “É uma série constante de batalhas e uma guerra de vários anos entre o SARS-CoV-2, suas variantes e nossas vacinas, que são de 2019. Estamos atrasados. O vírus não dorme, mas nós dormimos”.

Matthew B. Frieman, professor adjunto de microbiologia e imunologia na Escola de Medicina da Universidade de Maryland, que trabalhou com a Novavax no desenvolvimento de uma vacina contra a covid-19 ainda não lançada, concorda com essa afirmação. Para lutar contra as variantes do SARS-CoV-2, Frieman afirma que doses de reforço ou novas vacinas muito provavelmente serão necessárias no futuro. “A frequência com que precisaremos delas e se serão necessárias em todo o mundo ou em populações específicas é o que ainda não sabemos”, acrescenta o professor.

As vacinas de mRNA da Pfizer-BioNTech e da Moderna são eficazes contra a variante B.1.1.7, que se originou no Reino Unido e que agora é a cepa dominante nos Estados Unidos. Mas um estudo em fase inicial mostra que a vacina da Pfizer-BioNTech pode não ser eficaz contra a B.1.351, variante da África do Sul. No entanto, esse estudo não foi revisado por pares, o que significa que ainda não foi examinado por outros especialistas, e apenas um pequeno grupo de pessoas infectadas com a variante participaram dos testes.

No início deste mês, as empresas Pfizer e BioNTech atualizaram os dados sobre a eficácia de sua vacina contra a covid-19 desenvolvida em conjunto, dizendo em um comunicado à imprensa, no dia 1º de abril, que sua eficácia é de 91% na prevenção contra variantes em geral e “100% eficaz na prevenção de casos de covid-19 na África do Sul, onde predomina a variante B.1.351”.

Amesh Adalja diz que se as vacinas atingirem 50% de eficácia, um reforço ou uma nova aplicação da vacina poderão ser necessários. A U.S. Food & Drug Administration relatou que a expectativa é de que qualquer vacina contra a covid-19 previna doenças ou diminua a gravidade em pelo menos 50% entre as pessoas vacinadas. Ao considerar aplicações adicionais da vacina, Adalja afirma: “acredito ser um bom parâmetro a ser considerado”.

Frieman, também sobre aplicações adicionais da vacina, afirma que se um número suficiente de pessoas for vacinado não apenas nos Estados Unidos, mas no exterior, “a propagação dessas variantes poderia ser impedida”. Isso poderia, inclusive, afetar a necessidade de futuras vacinas. Porém, se doses de reforço ou novas vacinas forem necessárias, consequentemente as pessoas precisarão tomá-las em massa para que sejam eficazes.

Questões éticas das doses de reforço

Teneille Brown, professora de direito e professora adjunta de medicina interna da Universidade de Utah, comenta que “pedir ou exigir que as pessoas recebam um reforço pode ser mais difícil”, porque “se tornaria um compromisso contínuo e não seria solucionado de uma vez só”. A vacina contra a gripe, por exemplo, que é recomendada para quase todas as pessoas, teve uma cobertura vacinal anual de apenas 45% dos adultos norte-americanos entre 2017-2018 e 48% entre 2019-2020.

Embora o governo dos Estados Unidos não tenha exigido a vacinação contra a covid-19, regulamentos relacionados às vacinas já estão tomando forma: Os chamados “passaportes de vacina” podem ser exigidos para embarcar em aviões, por exemplo, ou para entrar em países estrangeiros. Algumas faculdades estão exigindo que os alunos que estão frequentando o campus sejam vacinados. E as empresas podem exigir que os funcionários recebam as vacinas contra a covid-19, embora não se saiba exatamente quantas o farão.

Se aplicações de vacina adicionais forem necessárias, é possível que elas também possam ser exigidas. Segundo Faith E. Fletcher, especialista em ética em saúde pública no Centro de Ética Médica e Políticas de Saúde da Baylor College of Medicine, exigir as vacinas por esses meios levanta algumas preocupações éticas e pode acentuar desigualdades sociais e sanitárias.

Por exemplo, trabalhadores que prestam serviços essenciais, negros e hispânicos tiveram mais dificuldades do que pessoas brancas para ter acesso à vacinação inicial. Sem encontrar maneiras de “tornar as vacinas disponíveis e acessíveis às populações marginalizadas”, diz Fletcher, “veremos disparidades no futuro relacionadas a esse problema”, incluindo quaisquer vacinas futuras contra a covid-19, obrigatórias ou não.

Brown e Fletcher concordam que o custo das doses futuras deva ser subsidiado. “Seria necessário haver alguma exigência de que as doses de reforço sejam subsidiadas por seguros de saúde, dispensando pagamentos em coparticipação. Caso contrário, não serão distribuídos de forma igualitária e veremos uma grande desigualdade entre quem receberá o reforço e quem não irá”. Mesmo um valor de US$ 20, diz ela, pode impedir pessoas de terem acesso à aplicação da vacina.

Mas, sobre aqueles que simplesmente não quiserem seguir as condições relacionadas à vacinação no futuro, seja do setor privado ou não, “a lei não estará do lado deles”, diz Brown. As leis existentes permitem mandatos, desde que haja isenções por motivos religiosos e médicos — uma alergia, por exemplo.

Mesmo assim, Brown compara tais mandatos a dirigir um carro.

“Se você quiser dirigir, precisa da carteira de motorista, de um seguro, etc.”, diz Brown. “Não é uma coisa só. A autorização para dirigir leva a obrigações contínuas para registrar seu carro, levar ao controle de emissão de gases poluentes e continuar a cumprir as leis de trânsito com suas eventuais mudanças. Você pode até discordar dessas leis, mas isso não lhe dá permissão para ignorá-las quando quiser.”

Brown diz que tem esperança de que toda manutenção necessária para manter a covid-19 sob controle se torne tão rotineira quanto renovar a carteira de motorista. “Na verdade, acho que o processo natural das coisas vai ajudar”, diz ela, porque “a resistência às vacinas vai diminuir com o tempo e conforme as vacinas forem se tornando menos polarizadas politicamente”.

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