Por que ocorrem efeitos colaterais da vacina e quando são preocupantes

Calafrios, dor de cabeça e fadiga são bastante comuns após tomar uma vacina. Mas as reações podem variar muito e não refletem como o sistema imunológico reagiria a uma infecção de covid-19.

Publicado 21 de mai. de 2021 07:00 BRT
vaccine side effects

BOGOTÁ, COLÔMBIA - 10 DE ABRIL

Profissional de saúde recebe uma dose da vacina da Pfizer-BioNTech em um posto de vacinação drive-thru no shopping center Bima, em meio a um isolamento rígido restabelecido para ajudar a conter a disseminação do novo coronavírus.

Foto de Guillermo Legaria, Getty Images

Os efeitos colaterais podem ser um grande obstáculo e impedir as pessoas de decidirem se vacinar. Para resolver esse problema, em 1991, um grupo de cientistas em Minnesota — do Departamento de Assuntos de Veteranos e da Clínica Mayo — planejou um estudo para observar a frequência com que essas reações desagradáveis ocorriam.

O estudo envolveu mais de 300 veteranos acima de 65 anos que receberam uma vacina contra a gripe e duas semanas depois uma injeção de placebo contendo água salgada, ou uma injeção de placebo e duas semanas depois a vacina verdadeira.

Quando os pesquisadores revelaram as informações de tratamento para saber quem havia recebido a vacina e o placebo, os efeitos colaterais estavam divididos igualmente entre os dois grupos, relata Robert Jacobson, diretor médico do programa de ciências de saúde populacional na Clínica Mayo. “Cerca de 5% disseram que nunca haviam ficado tão doentes em toda a vida”, conta Jacobson. Metade dessas pessoas havia recebido o placebo e, mesmo assim, queixaram-se das piores dores de cabeça ou da pior febre que já tiveram. Segundo Jacobson, o que podemos aprender com isso é: “que é fácil confundir uma reação alérgica com nervosismo ou emoções, ou até mesmo dores de estômago causadas por ansiedade”.

Estudos recentes mostram que alguns efeitos colaterais, mesmo os causados pelas vacinas contra a covid-19, não são devidos às injeções, mas aos nossos próprios medos. “Observamos isso no exército, quando jovens recrutas, os quais acham que podem tolerar qualquer coisa, desmaiam ao receber as injeções, porque seus corpos reagem de forma exagerada”, explica Jacobson.

É uma lição que pode ser útil para profissionais de saúde, pois podem tranquilizar os pacientes de que a maioria dos efeitos colaterais são normais e previsíveis — e podem nem mesmo ser causados pela injeção. No caso em questão, em estudos da vacina da Pfizer/BioNTech, 23% das pessoas entre 16 e 55 anos que receberam o placebo se queixaram de fadiga após a segunda dose e 24% apresentaram dores de cabeça.

Estudos sugerem que até sete em cada dez pessoas que recebem a segunda dose têm algum tipo de reação. Alguns sentem dor na região do braço onde foi aplicada a injeção, podem apresentar coceira, urticária, ou uma série de sintomas semelhantes aos da gripe, como calafrios, febre, dores de cabeça ou fadiga debilitante, que podem deixá-los acamados por um ou dois dias. Ainda assim, é importante colocar esses efeitos colaterais em perspectiva, esclarece Jacobson, “porque são reações leves, temporárias e transitórias que desaparecem em poucos dias”.

Mas o que causa essas reações imunes?

No caso das vacinas contra a covid-19 autorizadas nos Estados Unidos — Pfizer, Moderna e Johnson & Johnson — todas contêm um código genético para a produção de proteínas de espícula, proteínas localizadas na superfície do novo coronavírus que permitem que ele infecte as células humanas. Quando as células humanas recebem essas instruções, elas produzem cópias da proteína de espícula. Mas como as células produzem apenas uma porção do vírus, e não todo o patógeno em si, a doença não se instala. Embora a proteína de espícula introduzida no organismo não possa causar a doença, ela pode ativar uma resposta imune de duas etapas — exatamente como se espera.

A reação física imediata à vacina contra a covid-19 é causada pelo sistema imune inato. Quando uma pessoa recebe uma dose, um grande número de glóbulos brancos, chamados macrófagos e neutrófilos, são acionados para o local da injeção e começam a produzir substâncias químicas, denominadas citocinas. Essa resposta desencadeia diversos sintomas, desde inflamação e inchaço no local da injeção até febre, fadiga e calafrios.

Como consequência, os efeitos colaterais são uma reação natural à vacinação. Essa resposta — denominada de “reatogenicidade” — significa que as vacinas provocam uma resposta imune inicial forte, desencadeando diversos sintomas. Das cerca de 3,6 milhões de pessoas vacinadas que participaram de uma pesquisa em fevereiro, aproximadamente 70% relataram dor no local da injeção, 33% sentiram fadiga, 29% apresentaram dor de cabeça, 22% tiveram dores musculares e 11% apresentaram calafrios e febre após a primeira dose de uma vacina contra a covid-19. Os sintomas foram ainda mais acentuados após a segunda dose. Ainda assim, a resposta imune inata tem curta duração, de apenas alguns dias.

Por que as reações às vacinas são diferentes e o que isso significa?

Porém, nem todos apresentam efeitos colaterais após tomar uma vacina contra a covid-19. Alguns se sentem bem após as duas doses. Os cientistas não sabem exatamente o porquê, relata Sujan Shresta, imunologista do Centro de Pesquisa de Doenças Infecciosas e Vacinas do Instituto de Imunologia La Jolla, na Califórnia. “Mas não é surpresa que cada pessoa apresente uma resposta imune de forma diferente.”

Diversos fatores podem contribuir para essa ampla variação. As mulheres, por exemplo, costumam ter reações imunes mais fortes do que os homens, o que pode ser um fator que as torna mais propensas a sofrer os efeitos colaterais das vacinas.

“Todos temos nosso sistema imunológico individualizado”, diz John Wherry, diretor do instituto de imunologia da Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia. “É quase como nossa própria impressão digital imunológica caracterizada pela genética, sexo, alimentação, nosso ambiente e até mesmo nossa história de vida, que são os fatores aos quais nosso sistema imunológico foi exposto no passado e treinado para responder ao longo dos anos.”

Mesmo que uma pessoa não tenha uma reação desagradável, as vacinas ainda funcionam, porque a verdadeira função do sistema imunológico — e das vacinas — ocorre durante a segunda fase, a da resposta imune adaptativa. Durante essa fase, a proteína de espícula gerada pela vacina condiciona os linfócitos B a produzir anticorpos específicos contra o vírus, e os linfócitos T a buscar e destruir as células infectadas. Mas o organismo leva dias a semanas para fornecer essa proteção de longa duração contra o vírus.

Esse também é o motivo pelo qual as pessoas costumam ter reações mais fortes após a segunda dose. Três semanas após a primeira injeção, o sistema imunológico já foi preparado e os linfócitos B e T estão prontos para combater o vírus. Após a administração da segunda dose, os sistemas inato e adaptativo respondem.

Mesmo assim, não sabemos realmente se uma resposta grave às vacinas é um reflexo da potência do sistema imunológico. Também não sabemos se isso significa que alguém que não tem uma resposta inata forte será mais vulnerável à covid-19 ou mais resistente. “Realmente não temos dados de campo sobre isso — se uma pessoa com efeitos colaterais fortes teria uma infecção por covid-19 mais grave e vice-versa”, observa Wherry.

Mulheres apresentam mais efeitos colaterais

Em um estudo de fevereiro que analisou os dados dos primeiros 13,7 milhões de vacinados contra a covid-19 nos Estados Unidos, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) constataram que quase 80% das pessoas que relataram reações eram mulheres, embora apenas 61,2% das doses tivessem sido administradas a elas. De forma semelhante, o CDC relatou que todas as reações anafiláticas à vacina da Moderna ocorreram em mulheres; 44 das 47 pessoas que apresentaram essas reações à vacina da Pfizer eram do sexo feminino.

As mulheres foram a maioria a apresentar problemas graves de coagulação sanguínea com a vacina da J & J e também com a da AstraZeneca na Europa e no Reino Unido. “Existem especulações sobre os papéis desempenhados pelos hormônios — que são sempre os primeiros culpados ao se observar uma grande diferença entre os sexos”, enfatiza Wherry da Universidade da Pensilvânia.

Diversos outros fatores também podem contribuir para esse desequilíbrio entre os gêneros. Além disso, as mulheres parecem ter um sistema imunológico mais resistente, tanto em suas respostas inatas quanto nas reações imunes adaptativas. “As mulheres apresentam uma resposta de anticorpos mais forte do que os homens, o que representa um ponto positivo e um negativo, porque é exatamente por isso que as mulheres têm mais doenças autoimunes do que os homens”, explica Shresta, do Instituto de Imunologia La Jolla.

Outros estudos demonstraram que a resposta de uma mulher a meia dose da vacina contra a gripe foi igual à dose total em homens, portanto, talvez as mulheres não precisem de regimes de dose completos das vacinas contra a covid-19. “Existe o conceito de que uma dosagem serve para todos, mas isso pode ser parte do que está contribuindo para o maior índice de reações entre as mulheres”, adverte Rosemary Morgan, cientista especializada em pesquisa de gênero na Faculdade de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg. “Também existe um componente comportamental — as mulheres são mais propensas a buscar tratamento médico e a serem mais proativas ao relatar sintomas desagradáveis.”

Efeitos colaterais X eventos adversos

“Mas os efeitos colaterais e os eventos adversos — que muitas vezes são confundidos — não são a mesma coisa”, observa Wherry. “Os efeitos colaterais são muito comuns — ocorrendo talvez 50% a 70% das vezes. Já os eventos adversos são raros e inesperados, como os distúrbios de coagulação.”

Imediatamente após a injeção, cerca de duas a cinco pessoas por milhão sofrem anafilaxia, uma reação alérgica grave que provoca uma queda drástica na pressão arterial e dificuldade para respirar. Mas mesmo essa reação é facilmente tratável com epinefrina e anti-histamínicos, e é por isso que se solicita que todos aguardem por 15 minutos após receberam a vacina contra a covid-19.

Os coágulos sanguíneos associados às vacinas da Johnson & Johnson, que ocorreram dentro de seis a 13 dias após o recebimento da injeção, podem ser perigosos e até mesmo fatais. Porém a incidência é bastante baixa; há apenas 23 casos confirmados entre 8,4 milhões de doses administradas da vacina.

“É uma reação extremamente rara”, comenta Ofer Levy, diretor do programa de precisão de vacinas do Hospital Infantil de Boston e professor de pediatria na Faculdade de Medicina de Harvard. “O risco de contrair covid-19 e possivelmente morrer é muito maior do que o de apresentar coágulos sanguíneos por causa das vacinas.”

Temos conhecimento de todos os efeitos adversos?

Há uma preocupação de que possam existir outros efeitos adversos que não foram relatados.

As três vacinas contra a covid-19 autorizadas nos Estados Unidos foram testadas em milhares de pessoas em ensaios clínicos e os fabricantes foram obrigados a acompanhar pelo menos metade dos vacinados por dois meses ou mais após o recebimento das duas doses. Mas, agora que mais de 116 milhões de norte-americanos foram totalmente vacinados, efeitos colaterais raros que não ocorreram em pequenos ensaios clínicos em humanos podem surgir — razão pela qual os sistemas de vigilância são importantes.

Nos Estados Unidos, existem diversos sistemas: o Sistema de Notificação de Eventos Adversos de Vacinas (Vaers, na sigla em inglês), o Vaccine Safety Datalink e o novo programa de rastreamento por telefone do CDC, o v-safe.

Todos esses sistemas têm limitações, incluindo que “a pessoa precisa suspeitar que esses sintomas estão relacionados à vacinação e se dar ao trabalho de preencher um formulário”, observa Katherine Yih, bióloga e epidemiologista da Faculdade de Medicina de Harvard, especialista em doenças infecciosas, imunização e monitoramento de segurança de vacinas. “Temos um sistema de vigilância considerável em vigor. Mas não há como ter certeza de que estamos coletando informações de todos os casos.”

Além do mais, esses incidentes apenas mostram uma correlação. Em outras palavras, se alguém morreu ou sofreu um derrame após ser vacinado, os médicos não sabem se o desfecho foi provocado pela vacinação. Somente uma análise mais aprofundada pode revelar isso.

A rápida identificação do raro distúrbio de coagulação sanguínea relacionado à vacina da J & J foi reconfortante. Inicialmente, seis casos foram relatados, levando a Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) e o CDC a suspenderem temporariamente seu uso. Quando o Comitê Consultivo em Práticas de Imunização do CDC se reuniu no fim de abril para determinar o que seria feito em relação à vacina, 15 casos foram detectados entre sete milhões de pessoas que haviam recebido essa vacina. “A descoberta dessa associação com a vacina da J & J — que é bastante rara — é uma demonstração concreta de como nosso programa de segurança é bom”, afirma Jacobson da Clínica Mayo. “Neste ponto da pandemia, um risco de menos de três por milhão não deve influenciar a decisão de interromper ou não o uso dessa vacina.”

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