Algum dia saberemos o número real de mortes por covid-19?

O ano passado chamou a atenção de forma gritante para as desigualdades globais — incluindo os recursos necessários para coletar dados oportunos e precisos sobre os óbitos. Algumas pessoas com ideias inovadoras querem solucionar esse problema.

Sepultura sendo preparada em Nova Delhi, em 23 de abril de 2021, para um homem que faleceu de covid-19.

Foto de Atul Loke, The New York Times via Redux
Por Amruta Byatnal
Publicado 17 de jun. de 2021 06:00 BRT

Em uma noite sufocante de abril em Amedabade, a maior cidade do estado indiano de Gujarat, Shayar Rawal chegou às 23h55 de motocicleta em um hospital público de tratamento para covid-19. Nas 24 horas seguintes, ele tinha uma única tarefa: contar o número de cadáveres levados para o necrotério.

Rawal — repórter do jornal diário de Gujarat Divya Bhaskar — contou quatro mortes na primeira hora. Parentes enlutados retiraram mais cinco cadáveres na hora que se seguiu. Segundo ele, quando o número chegou a 100, foi o choque de realidade.

“Eu sabia que o governo estava escondendo números, mas isso era muito mais do que eu esperava”, relembra Rawal.

Oficialmente, a cidade registrou apenas 15 mortes por covid-19 naquele dia. Mas, ao fim de sua vigília, Rawal havia contado 112 corpos — e eram os mortos de apenas um hospital da cidade. Nas semanas seguintes, seus colegas também contaram os corpos em crematórios e cemitérios e acessaram os atestados de óbito de distritos de todo o estado. A análise final revelou que o número de mortos em nove semanas no estado de Gujarat foi 10 vezes maior do que o número oficial.

Em resposta ao relatório publicado no jornal Divya Bhaskar, o governo estadual apresentou várias razões para a discrepância, desde dizer que as mortes com comorbidades não podem ser contabilizadas como falecimentos decorrentes de covid-19 até alegar que foram emitidos atestados de óbito em duplicata.  O governo estadual de Gujarat não respondeu às perguntas da National Geographic.

“Existem desafios fundamentais e inerentes”, afirma Samira Asma, vice-diretora geral da divisão de dados e análises da Organização Mundial da Saúde. Até mesmo em países ricos, as autoridades se opõem a diagnósticos incorretos, irregularidades no rastreamento de dados e outros fatores que podem encobrir o verdadeiro impacto do vírus. “Por isso, não temos um entendimento completo de todo o alcance da pandemia.”

Mas o ano passado também chamou a atenção de forma gritante para as desigualdades em todo o mundo — incluindo os recursos necessários para coletar dados oportunos e precisos sobre óbitos. Em uma avaliação realizada em 2019, a OMS constatou que cerca de dois terços dos países do mundo carecem de sistemas sólidos de registro civil e estatísticas vitais para a manutenção de uma contagem de nascimentos e mortes.

Essa disparidade tem consequências perigosas em meio à pandemia de covid-19. O relatório anual sobre Estatísticas Mundiais de Saúde divulgado no mês passado declarou que houve três milhões de mortes direta e indiretamente atribuídas ao vírus Sars-CoV-2 — ou seja, 1,2 milhão a mais do que os números oficiais relatados pelos países e, posteriormente, computados pela OMS.

A falta de dados robustos em países de baixa e média renda, como a Índia, significa que os empenhos individuais como o de Rawal são cruciais para determinar o verdadeiro número de mortes, o que, por sua vez, afeta nossa compreensão da trajetória global da pandemia.

“Ter um entendimento preciso da mortalidade histórica é fundamental para sabermos a eficácia das diferentes intervenções e também para nos ajudar a prever com mais exatidão o que pode ocorrer no futuro da pandemia”, esclarece Oliver Watson, pós-doutorando em epidemiologia de doenças infecciosas no Imperial College de Londres.

Mortes decorrentes da covid-19

No início da pandemia, a ausência de métodos padronizados entre os países para classificar as mortes por covid-19 levou à subnotificação. Em uma tentativa de compreender melhor os verdadeiros números, demógrafos, repórteres e economistas desenvolveram métodos alternativos de rastreamento e cada um deles abordou o problema de diferentes ângulos.

Para Ariel Karlinsky, tudo começou com uma publicação nas redes sociais.

Karlinsky é pós-graduando na Universidade Hebraica de Jerusalém e economista do Kohelet Policy Forum, um grupo de estudos. Quando Israel entrou em isolamento em março de 2020, uma publicação popular em circulação nas redes sociais era de que a covid-19 estava levando tantas vidas quanto a gripe nos anos anteriores. Curioso para saber se isso era verdade, Karlisnky começou a pesquisar em busca de dados, mas não encontrou nada. Então, ele começou a coletar dados por conta própria de cada país — enviou e-mails para gabinetes de estatísticas nacionais e regionais, bem como para pesquisadores que trabalhavam nesse assunto em vários países.

Em janeiro de 2021, ele começou a colaborar com Dmitry Kobak, cientista e pesquisador da Universidade de Tübingen. Sua iniciativa levou à criação do World Mortality Dataset, que inclui informações de 95 países e territórios. Desde então, o jornal The Economist tem usado esses dados para fazer suas próprias projeções sobre mortes globais em decorrência da covid-19. Em reconhecimento ao trabalho de Karlinsky, a OMS o convidou para fazer parte de um grupo de assessoria técnica cuja finalidade é mapear o número de mortos em todo o mundo em virtude da pandemia de covid-19.

Karlinsky se sente surpreso. “Existem  organizações como o Banco Mundial e a OCDE [Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico] que normalmente fazem o que eu fiz. Eles coletam dados de cada país individualmente e os conciliam. Por algum motivo, não o haviam feito e ainda não o fizeram”, disse ele quando conversamos pela plataforma Zoom em uma tarde de domingo recente. “Mesmo que agora estejam usando meus dados, tudo isso é estranho, porque são organizações oficiais com um orçamento muito maior do que meu laptop e eu.”

Karlinsky agora também analisa números locais de mortalidade com base em dados de regiões menores, como cidades ou estados em todo o mundo. Ao coletar e padronizar esses dados em um único local, mais pessoas podem utilizar as informações para tomar decisões esclarecidas sobre sua resposta local à pandemia.

“Existem muitos dados, mas eles não estão sendo utilizados nem compartilhados — sendo assim, é como se não existisse nenhum dado, certo?”, ressalta ele.

Fontes novas, problemas antigos

Uma nova fonte do World Mortality Dataset é proveniente da jornalista de dados indiana Rukmini S que, assim como Karlinsky, acredita que existem esses dados no sistema de registro civil da Índia, o qual registra nascimentos e mortes em todo o país. Sabendo disso, Rukmini reuniu dados de mortalidade por todas as causas na cidade de Chennai, no sul da Índia.

Uma maneira de ter conhecimento sobre as mortes por covid-19 quando as causas específicas não estão disponíveis é examinar o que se denomina de excesso de mortalidade. Esse número representa a diferença entre o número de mortes em um ano normal, após ajuste relacionado ao crescimento demográfico, e a quantidade de mortes em um ano com uma circunstância de força maior, como uma pandemia.

O excesso de mortalidade pode representar as mortes por covid-19 que não foram relatadas, mas também pode ser decorrente de causas indiretas, como impossibilidade de acesso ao atendimento médico durante o isolamento forçado, ou devido a doenças não relacionadas. Embora sejam necessários mais dados e análises para relacionar as mortes em excesso no ano passado com a covid-19, os pesquisadores estão se baseando cada vez mais nos números referentes ao excesso de mortalidade para entender as consequências diretas e indiretas do novo coronavírus.

Em Chennai, os dados mostram mais de 74 mil mortes em 2020, número 12 mil vezes maior do que a média dos cinco anos anteriores. É um aumento de 20%, apesar de o número oficial de mortes por covid-19 notificadas na cidade durante esse período ser de “apenas” quatro mil.

Em outros locais, especialistas em saúde pública encontraram fontes de dados ainda mais novas. Em Damasco, na Síria, a pressão pública fez com que o órgão funerário passasse a divulgar dados sobre mortes por todas as causas para um período limitado de oito dias entre 25 de julho e 1° de agosto de 2020. Watson, do Imperial College de Londres, comparou essas informações com dados de um grupo do Facebook que exibe obituários.

Utilizando esses dados, Watson e seus colegas calcularam estimativas para toda a duração da pandemia, de fevereiro a setembro de 2020, para chegar a um número impressionante: seu modelo mostra que apenas 1,25% das mortes de covid-19 em Damasco foram relatadas até 2 de setembro de 2020, e mais de 4,3 mil mortes podem ter sido subnotificadas através do sistema de notificação oficial.

Para Watson, a análise foi uma revelação. “Mudou completamente a forma como entendemos a escala da pandemia”, afirmou ele. “Foi simplesmente chocante que pudesse haver essa quantidade de mortes, esse nível de colapso do sistema de saúde, e como isso não recebeu muita atenção da mídia.”

No início, diz ele, foi difícil convencer as pessoas de que o número de mortos oficialmente relatado não era exato. Mas ele observa que encontrou um senso de comunidade em outros pesquisadores que também estão dispostos a questionar os dados oficiais e experimentar vários métodos para chegar a melhores estimativas.

“Encontrar outras pessoas que compartilham da ideia de que, na verdade, não é bem assim, que todos nós estamos deixando passar muita coisa do que de fato aconteceu e precisamos fazer de uma forma muito melhor — colocar a mão na massa para encontrar esses dados — com certeza é uma experiência que nos une”, explica Watson.

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Transparência governamental

Embora reconheça os benefícios desses tipos de métodos criativos, Rukmini, a jornalista de dados de Chennai, enfatiza que é dever dos governos divulgar os dados mais precisos.

“Apesar de eu ser totalmente a favor de novas fontes, e todos que trabalham nisso o fazem com o espírito de investigação científica e, obviamente, se empenham muito para isso, estou um pouco preocupada com o fato de não haver pressão democrática suficiente para que as estatísticas oficiais sejam divulgadas”, indica ela.

Chinmay Tumbe, economista que estudou pandemias anteriores, acredita que depender de números do governo significaria que o número real só seria revelado daqui a alguns anos, quando os dados do censo forem disponibilizados. Mas já seria tarde demais para governos, empresas e outros legisladores utilizarem os dados para definir medidas que influenciam o curso da pandemia.

Conhecer o verdadeiro número de mortes ajudará a descobrir a real taxa de mortalidade por infecção, a proporção de todas as pessoas infectadas que morreram em decorrência da covid-19. Esse valor foi crucial no estágio inicial da pandemia para entender quais seriam as implicações se as restrições de saúde pública não tivessem sido implementadas e o vírus pudesse ter se disseminado livremente nas populações.

“Contudo é muito difícil estimar corretamente quando não sabemos o verdadeiro número de pessoas que morreram”, afirma Watson.

Ele explicou que a taxa de mortalidade pela infecção de covid-19 tem sido um assunto de debate. Algumas pessoas alegam que o número foi inflado e utilizaram essa justificativa para desestimular isolamentos e outras intervenções. Elas também indicam uma mortalidade mais baixa relatada em locais de baixa renda como evidência de que a pandemia não é tão mortal quanto se imaginava a princípio. “Esses argumentos estão escancaradamente incorretos, dada a escala de subnotificação observada”, diz ele.

Segundo Tumbe, é por isso que os pesquisadores têm que continuar a pressionar os governos a priorizarem a coleta de dados precisa e oportuna. “Acho que pode facilmente se tornar uma questão eleitoral. E pode até ser incluído em um manifesto — os candidatos podem dizer que, se forem eleitos, formarão um comitê para contabilizar as mortes.”

Prestação de contas necessária 

Em alguns países, a pressão sobre o governo funcionou. Recentemente, o Peru revisou sua contagem oficial de mortes, que agora ultrapassa 185,3 mil — quase o triplo do número original de aproximadamente 69,3 mil. Com 5.551 mortes por milhão de pessoas, o Peru tem o pior número oficial de mortes ocasionadas pela pandemia no mundo.

Convencer os países a aceitarem uma contagem de mortes maior do que o relatado oficialmente não será uma tarefa fácil. Com a ajuda da força-tarefa consultiva, a OMS tem um plano, relata Asma. Até novembro de 2021, a OMS pretende padronizar a metodologia de contagem de excesso de mortalidade, decidir quais parâmetros devem ser usados e apresentar estimativas revisadas para todos os países, seguidas de consultas com representantes de governos.

“Isso será feito de forma transparente, então será algo muito importante”, diz ela. Dessa forma, os países podem trabalhar com a OMS para sinalizar inconsistências e chegar às estimativas mais precisas. Ela acredita que um diálogo incentivará os países a chegarem a um consenso sobre o verdadeiro impacto da pandemia, além de reconhecer e divulgar dados melhores.

“Se os dados são um bem público, devem ser expostos”, afirma ela. “E essa é a única maneira de cada país se responsabilizar.”

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