Efeitos colaterais são bastante improváveis após período próximo à vacinação

Pesquisa revela que mesmo as reações mais graves ocorrem apenas durante as primeiras semanas após a aplicação das vacinas contra a covid-19.

Publicado 27 de jul. de 2021 12:00 BRT
Vax Side Effects

Uma estudante recebe a vacina contra covid-19 em uma clínica de vacinação no campus da Universidade de Washington em 18 de maio de 2021, na cidade de Seattle.

Foto de David Ryder, Getty Images

Os Estados Unidos começaram a administrar vacinas contra a covid-19 há sete meses, mas os dados mais recentes de uma pesquisa que está sendo realizada pela Kaiser Family Foundation (fundação sem fins lucrativos) revelam que 10% dos adultos nos Estados Unidos ainda estão receosos e querem “esperar para ver” como serão as reações nas pessoas vacinadas antes de se vacinar. Essa parcela da população que ainda mostra certa resistência em tomar a vacina é representada principalmente por jovens adultos de 18 a 29 anos, negros e hispânicos.

Os principais argumentos dessas pessoas para evitar as vacinas são que as vacinas são “muito novas” e podem desencadear reações inesperadas ou com risco de vida, que podem surgir meses ou anos depois. De fato, relatos de novos efeitos colaterais podem levar meses para surgir, pois os as vacinas são testadas primeiro em testes clínicos com milhares de pessoas para depois chegar a milhões no mundo real, o que pode causar variações naturais em reações humanas à vacina. Porém, mais de 100 milhões de pessoas já passaram por essa fase nos Estados Unidos e alguns dos primeiros participantes de testes clínicos iniciais já tomaram a vacina há mais de um ano.

Até agora, efeitos colaterais graves das vacinas contra o coronavírus, como a síndrome de Guillain-Barré ou a miocardite, se mostram extremamente raros e foram identificados rapidamente porque já constavam nas listas oficiais de problemas em potencial a serem observados em relação às reações das vacinas contra covid-19. Além do mais, esses e outros efeitos colaterais surgem logo após a aplicação da vacina. Isso sugere que não há necessidade de se preocupar com reações tardias ou de longo prazo.

As vacinas contra covid-19 estão reproduzindo o padrão de segurança das vacinas desenvolvidas mais recentemente. Até mesmo os efeitos mais graves surgem pouco tempo após a vacinação.

“Os efeitos colaterais quase sempre ocorrem algumas semanas após a vacinação”, explica John Grabenstein, diretor de comunicação científica da Immunization Action Coalition. Ele acrescenta que o tempo mais longo para a manifestação de um efeito colateral, entre todas as vacinas já desenvolvidas, foi de seis semanas.

“Não é impossível que algo de inesperado ocorra em relação às vacinas contra covid-19 futuramente, mas, com base no que sabemos, é improvável”, acrescenta Miles Braun, professor adjunto de medicina da Escola de Medicina da Universidade de Georgetown e ex-diretor do departamento de epidemiologia da Agência de Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês).  

Como afirma Onyema Ogbuagu, infectologista da Yale Medicine e principal pesquisador da fase de ensaio da vacina da Pfizer-BioNTech contra covid-19, um dos principais motivos para que a taxa de efeitos colaterais seja tão baixa é o curto período que a vacina permanece no corpo humano. Ao contrário dos medicamentos que as pessoas tomam todos os dias ou semanas, as vacinas são geralmente administradas apenas uma ou algumas vezes na vida. As moléculas de RNAm utilizadas nas vacinas da Pfizer e da Moderna são frágeis, então “elas saem do organismo em um ou dois dias”, explica o infectologista.

Depois desse período dentro do organismo, as vacinas começam a estimular o sistema imunológico a memorizar a estratégia do vírus e preparar uma resposta rápida para quando se deparar com o vírus em uma situação real. “Esse processo é concluído em cerca de seis semanas”, diz Inci Yildirim, vacinologista e especialista em doenças infecciosas pediátricas da Yale Medicine. É por isso que reações adversas graves, que podem ser desencadeadas pelo processo imunológico, surgem nesse primeiro momento. Depois disso, tudo é colocado em uma prateleira na biblioteca de patógenos já conhecidos pelo organismo, diz Yildirim.

Os efeitos colaterais da vacina surgem imediatamente, segundo dados históricos

Uma viagem à história da vacina confirma que mesmo os efeitos colaterais mais prejudiciais ocorreram dentro de seis semanas.

A vacina Salk contra a poliomielite foi lançada no ano de 1955. Alguns de seus primeiros lotes continham, não intencionalmente, vírus vivos da poliomielite, e não a forma inativada do vírus. Dentro de semanas, esse errou causou algumas infecções e até mesmo mortes por poliomielite. O “incidente de Cutter”, apelido dado aos laboratórios que produziram o maior número de vacinas com vírus ativados, deu origem a regulamentações governamentais mais rígidas para a produção de vacinas. Hoje, as vacinas contra a poliomielite são monitoradas para garantir que o vírus das vacinas administradas em crianças esteja completamente inativado.

Em 1976, casos raros da síndrome de Guillain-Barré surgiram entre duas e três semanas depois que as pessoas receberam uma vacina contra a gripe à base de ovo contra uma cepa perigosa da gripe suína H1N1. Os cientistas concluíram que o efeito acometia de uma a duas pessoas por milhão de vacinados. A síndrome de Guillain-Barré é uma doença tratável, mas com o fim da temporada de gripe daquele ano, as companhas de vacinação foram abandonadas.

Recentemente a síndrome de Guillain-Barré foi relacionada à vacina contra covid-19 da Johnson & Johnson, com uma centena de relatórios preliminares após a administração de aproximadamente 12,5 milhões de doses, de acordo com os dados da FDA. Nesses casos, a síndrome surgiu cerca de duas semanas após a aplicação da vacina, especialmente em homens com mais de 50 anos.

Em 2008, alguns bebês desenvolveram convulsão febril entre sete e dez dias após receber a vacina tetra viral (como é conhecida a vacina contra sarampo, caxumba e rubéola com adição da vacina contra catapora). Esses casos de convulsão ocorriam em uma criança a cada 2,3 mil doses de vacina aplicadas. Por isso, o Comitê Consultivo em Práticas de Imunização dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) atualmente recomenda a vacinação em duas doses.

Após receber a vacina contra a febre amarela, um número muito pequeno de pessoas desenvolve doenças como inflamação do cérebro (encefalite), inchaço da cobertura da medula espinhal (meningite), síndrome de Guillain-Barré ou uma disfunção de múltiplos órgãos, chamada doença viscerotrópica. Pessoas que planejam viajar para lugares onde essa doença fatal é endêmica ainda são estimuladas a tomar a vacina, embora o CDC recomende que pessoas acima de 60 anos considerem os riscos e benefícios da vacinação com acompanhamento médico.

A rara exceção das reações que surgem seis semanas após a administração da vacina é a vacina contra a dengue, Dengvaxia, que o governo filipino aprovou em 2016 para a aplicação em crianças. A primeira infecção com o vírus da dengue costuma ser de quadros leves. Mas a reação pode ser muito mais grave e, em alguns casos, fatal, quando se trata de uma reinfecção com uma variante diferente.

Como previsto por alguns especialistas, a vacina produzida com vírus inativados agiu como uma primeira infecção, o que significa que muitas crianças que foram picadas pelo mosquito portador do vírus da dengue após tomar a vacina desenvolveram um quadro da doença ainda pior. Em 2019, a FDA aprovou a administração da vacina contra dengue, mas apenas em crianças que vivem em territórios com maior risco de infecção pela doença e que já tivessem histórico de uma primeira infecção atestado por laboratório.

Esses dados mostram que nenhuma vacina causou o surgimento de doenças crônicas anos ou décadas depois, explica Robert Jacobson, diretor médico do programa científico de saúde da população da Clínica Mayo. “Muitas pesquisas tentaram identificar esse problema em todos os tipos de vacinas e ele nunca foi encontrado”, diz o médico.

Uma metanálise de 2016, realizada em 23 pesquisas que estudavam a possibilidade de vacinas infantis comuns (como a tríplice viral ou a vacina contra Haemophilus influenzae B) causarem diabetes na infância. A metanálise não encontrou nenhuma conexão entre as vacinas e diabete infantil. Para testar relações em potencial entre vacinas e doenças autoimunes, como esclerose múltipla em adultos, uma revisão de literatura realizada em 2017 avaliou nove vacinas comuns, entre elas as vacinas contra tétano, papilomavírus humano e gripe sazonal. Esse estudo revelou que os casos de esclerose múltipla também não têm relação com as vacinas.

Monitoramento das vacinas contra covid é mais rigoroso

Com a covid-19, os órgãos reguladores redobraram a atenção para os casos de reações adversas à vacina para relatá-las o mais rápido possível.

“Para todas as vacinas, existe uma fase quatro”, diz Yildirim. Essa quarta fase envolve um minucioso monitoramento depois que uma vacina conclui seu ensaio clínico de fase três e recebe a aprovação da FDA. Esse acompanhamento acontece nos Estados Unidos principalmente por meio do Sistema de Notificações de Reações Adversas a Vacinas (VAERS, na sigla em inglês), no qual qualquer indivíduo ou médico pode preencher um formulário sinalizando possíveis efeitos colaterais relacionados a vacinas. A partir disso os cientistas avaliam se as reações relatadas pela população estão diferentes do esperado.

A informática também é utilizada como braço direito do processo, através do Vaccine Safety Datalink. Esse programa é uma colaboração entre o CDC e nove grandes redes de saúde, quase todas fazendo parte do sistema Kaiser Permanente. Por meio de uma análise rápida, o Vaccine Safety Datalink rastreia os registros de milhões de pacientes logo após terem tomado a vacina.

“Essa análise é realizada semanalmente. Se houver sinais de reações adversas, conseguimos verificar rapidamente”, diz Nicola Klein, diretor do centro de estudos de vacinas da Kaiser Permanente na cidade de Oakland, na Califórnia, que está liderando a análise dos pacientes que tomam as vacinas contra covid-19. O Datalink notificou as convulsões febris das vacinas tetra virais, e a informação foi divulgada em poucos meses, afirma Klein.

No contexto da pandemia de covid-19, o CDC desenvolveu o aplicativo V-safe, em que os usuários podem informar possíveis reações adversas após serem vacinados através de mensagens de texto. Outros programas contam com instituições que oferecem cuidados médicos contínuos e grandes seguradoras para a notificação de problemas observados em seus pacientes.

“O alcance dos sistemas de vigilância supera as limitações de abordagens individuais, tornando a combinação dos sistemas de vigilância bastante robusta”, disse Grabenstein, da Immunization Action Coalition.

Quais foram os efeitos colaterais relacionados à vacina contra covid-19?

Os especialistas já iniciam o trabalho de monitoramento de reações à vacina com uma lista de efeitos colaterais possíveis. “A lista é formulada com base em análises dos ensaios clínicos (mesmo que esses dados não fossem estatisticamente significativos), do que poderia ser causado pela própria doença e em ocorrências com vacinas anteriores”, diz Frank DeStefano, diretor do Gabinete de Segurança da Vacinação do CDC.

Para as vacinas contra covid-19, as reações adversas incluem cerca de 20 doenças, dentre elas artrite, narcolepsia, encefalite e derrame.

A trombose também foi adicionada à lista. Klein explica que a doença foi acrescentada após terem sido relatados problemas com a vacina da AstraZeneca na Europa, pois a vacina desenvolvida pela Johnson & Johnson, autorizada nos Estados Unidos, emprega uma tecnologia de vetor de adenovírus semelhante. Logo depois, os reguladores viram o efeito colateral ocorrer em um número ínfimo de mulheres jovens que tomaram a vacina da Johnson & Johnson, sendo que os coágulos surgiram na segunda semana após a vacinação.

A síndrome de Guillain-Barré sempre esteve na lista de vigilância, pois já havia ocorrências da doença relacionadas a outras vacinas. As inflamações cardíacas, miocardite e pericardite, que acometeram homens jovens alguns dias após serem vacinados com as vacinas de RNAm, também já estavam na lista.

Claro, os especialistas dizem que também estão atentos a reações inesperadas. Grabenstein lembra que em 2004, quando liderou uma campanha de vacinação contra a varíola para o exército dos Estados Unidos, vários pacientes desenvolveram miocardite rapidamente, embora essa condição não tivesse aparecido durante outras campanhas de vacinação contra varíola nas décadas de 1940 e 1950. “A melhor explicação é que as vacinas anteriores foram aplicadas em bebês. Nesse caso, estávamos administrando a vacina em jovens de 20 anos”, recorda o médico.

Com tantas vacinas contra o coronavírus administradas em tão pouco tempo, ficou mais fácil detectar reações raras, diz Yildirim. As reações à vacina da Johnson & Johnson foram notificadas poucos meses após a autorização da vacina. Isso mostra que o sistema está funcionando. “Não gostamos de ouvir falar dos efeitos colaterais, mas o fato de sabermos sobre eles é um bom sinal, porque significa que estão sendo identificados”, diz ela.

DeStefano acredita que não haverá reações graves relacionadas a vacinas autorizadas no fim de 2020. “Temos sistemas que rastreiam reações tardias”, diz ele. “Mas nossa experiência com outras vacinas mostra que os efeitos tardios das vacinas contra covid-19 são improváveis”.

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