Spray em vez de injeção? Futuras vacinas contra covid-19 podem ser por pulverização nasal

Estimulados pela pandemia, cientistas estudam as vantagens das vacinas intranasais e o que as torna mais potentes do que injeções no braço.

Publicado 26 de jul. de 2021 17:00 BRT
H1N1 Nasal Vaccine

Pesquisadores estudam se vacinas intranasais protegem contra infecções por Sars-CoV-2.

Foto de RJ Sangosti, The Denver Post, Getty Images

O lote atual de vacinas contra a covid-19 previne efetivamente doenças graves e morte e oferece proteção substancial contra as variantes. Mas as vacinas autorizadas não impedem todas as infecções. Para eliminar a chance de infecção, os cientistas exploram novas maneiras de aplicar vacinas que produzam uma imunidade ainda maior e mais duradoura contra o Sars-CoV-2. Uma abordagem promissora pode ser, no lugar da injeção no braço, um spray para o nariz.

Nos últimos meses, enquanto alguns fabricantes produzem doses de reforço para uma terceira aplicação de imunizantes contra o novo coronavírus, alguns estudos promissores revelaram a eficácia das vacinas intranasais em ratos, furões, hamsters e primatas não humanos. Estão em desenvolvimento seis candidatas a vacinas contra a covid-19, aplicadas na forma de spray nasal, que estão atualmente na fase 1 dos estudos clínicos.

Na reunião da Sociedade Americana de Virologia dos Estados Unidos, há alguns dias, a empresa Meissa Vaccines anunciou que uma única dose de sua candidata a vacina intranasal contra a covid-19 apresentou resultados promissores em primatas não humanos. Se chegarem ao mercado, imunologistas dizem que essas vacinas podem oferecer maior proteção devido à sua semelhança com a forma de infecção natural do vírus: através das membranas mucosas do nariz e das vias aéreas superiores, o que, segundo os imunologistas, faz diferença na resposta imune.

“Para gerar uma resposta imune sustentável e duradoura, o ideal é vacinar de forma localizada”, afirma José Ordovas-Montañes, imunologista da Universidade de Harvard que estuda a imunidade nos tecidos da mucosa nasal e do intestino. Ordovas-Montañes explica que uma injeção no braço induz imunidade em uma escala corporal sistêmica, em que anticorpos e linfócitos T se distribuem em torno dos vasos sanguíneos. Embora possa parecer suficiente, essa abordagem está aquém do ideal porque as células do sistema imune estão dispersas e não concentradas no local de entrada do vírus no corpo. Uma imunização pelo nariz, por outro lado, fornece um grande reforço de imunidade no trato respiratório superior e, possivelmente, nos pulmões, provocando uma resposta de linfócitos T e anticorpos locais, o que permite que o patógeno fique aderido às células imunes e seja destruído por elas logo na entrada.

“Acredito que a grande vantagem é gerar imunidade no local da infecção”, afirma Donna Farber, imunologista da Universidade da Colômbia. “É justamente onde é necessária a imunidade: no local de entrada do vírus.”

Uma injeção no braço é como uma imunização de dentro para fora. Geramos imunidade em todo o corpo e alguns desses anticorpos infiltram-se nas vias respiratórias e nas fossas nasais. Mas o spray nasal funciona ao contrário, estimulando primeiro o local da infecção e depois o restante do organismo. “É basicamente uma ação dupla”, observa Paul McCray, pneumologista pediatra da Universidade de Iowa.

McCray e colegas publicaram um artigo neste mês no periódico Science Advances, mostrando que ratos e furões estão protegidos de doenças graves após apenas uma dose de vacina intranasal. Eles lançarão um estudo clínico no fim de julho com 80 adultos saudáveis com idades entre 18 e 75 anos em três locais nos Estados Unidos.

Uma vacina mais prática

Vacinas que visam às membranas mucosas não são inéditas. Existem muitas vacinas orais aprovadas para combater infecções como a poliomielite e a cólera. O conceito é que elas preparam os tecidos da mucosa do trato intestinal da mesma forma que as vacinas intranasais preparam o trato respiratório. Em muitos casos, como na vacina viva atenuada contra a poliomielite, essas formas orais de imunização funcionam melhor do que por injeção. Mas as vacinas intranasais permanecem raras no panorama geral das vacinas. Muitos esperam que a pandemia mude esse cenário.

“A covid-19 acelerou bastante desenvolvimentos lógicos, porém deixados de lado”, afirma David Curiel, pesquisador de terapia genética na Universidade de Washington em St. Louis. No início deste ano, ele publicou um estudo demonstrando uma resposta robusta após uma dose de vacina intranasal em primatas não humanos. Ele ressalta que outra vantagem de desenvolver esses tipos de vacinas é que seriam de aplicação mais fácil, sobretudo em locais em todo o mundo sem bons sistemas de saúde.

O lote atual de vacinas aprovadas é altamente eficaz, mas não há doses suficientes para vacinar todas as pessoas do mundo, e a pandemia está longe de terminar, especialmente na Índia e em vários países da África e América do Sul. Não precisar de agulha, suprimento que pode ser escasso, seria vantajoso. As vacinas nasais contra a covid-19 podem marcar uma nova era na imunidade das mucosas.

Onde está localizada a imunidade?

A maioria das pessoas acredita que o sistema imune é representado pelo sangue. As células imunes geralmente são descritas como minivigias que patrulham os vasos sanguíneos à procura de invasores. Contudo, ao longo da última década ou mais, a compreensão sobre o sistema imune evoluiu e os pesquisadores agora sabem que muitas células imunes estão localizadas nos tecidos.

Mais de 95% dos linfócitos T, por exemplo, se estabelecem permanentemente nos tecidos e órgãos, com populações distintas na pele, intestino, cérebro, fígado e pulmão. As células destruidoras naturais, que estão relacionadas aos linfócitos B e T, passam sua existência no útero remodelando o tecido durante a gravidez. Existem até algumas células imunes, denominadas micróglias, que permanecem no cérebro e nunca circulam pelos vasos sanguíneos. Em vez disso, migram para o sistema nervoso central no início da embriogênese e permanecem lá pelo resto da vida do organismo.

Essas células imunes específicas de tecidos podem ser úteis quando se trata de vacinas, pois se recordam do patógeno e também de seu local de invasão original.

O sistema imune desenvolveu uma maneira sofisticada de fazer isso, denominada “impressão imunológica”, conta Ulrich von Andrian, professor de imunologia em Harvard. Von Andrian foi o primeiro a demonstrar, em ratos, como o sistema imune rastreia o local de entrada de um determinado patógeno no corpo.

O sistema imune é alertado de novas ameaças quando células especializadas, denominadas de “células apresentadoras de antígenos”, como macrófagos, capturam pequenos fragmentos do vírus pelo corpo e os apresentam aos linfócitos T. Esse processo é denominado “aprendizagem de linfócitos T” e é como uma “reunião informativa” ao sistema imune. Ele ocorre nos gânglios linfáticos, por onde são drenados todos os fluidos linfáticos, junto com as células e fragmentos de vírus. Esses pequenos centros de treinamento estão distribuídos por todo o corpo e, como pode atestar qualquer um que tenha ficado muito doente e seu linfonodo tenha inchado, são mais abundantes no pescoço, nas axilas e na virilha. Von Andrian demonstrou em seu experimento original que essa inteligência do organismo transmite informações sobre a ameaça específica e também sobre o local onde foi detectada pela primeira vez.

Em um experimento em seu laboratório em 2003, linfócitos T foram extraídos de ratos e colocados em diferentes placas de Petri, onde foram misturados com células apresentadoras de antígenos de nódulos linfáticos, da pele e do intestino. Após cerca de uma semana na placa de Petri, os linfócitos T foram injetados de volta nos ratos. Os linfócitos T que haviam sido misturados com células apresentadoras de antígeno do intestino, imediatamente se aglomeraram no intestino. Como um pombo-correio que voa grandes distâncias para voltar para casa, essas células dispunham de um senso inato do local para onde deveriam ir. Permaneceram no intestino por muito tempo, de prontidão para uma invasão.

Von Andrian afirma que os nódulos linfáticos ensinam os linfócitos T a migrar de volta à parte do corpo onde foi encontrado o patógeno pela primeira vez. Os gânglios linfáticos mais próximos dos tecidos nasais estão localizados no pescoço; e os gânglios linfáticos conectados ao braço, onde as vacinas são aplicadas, estão “em uma parte diferente do organismo”.

“Quando uma infecção é contraída nas superfícies mucosas da cavidade nasal, o corpo prepara os linfócitos T e todo o sistema imune no trato respiratório superior, o que significa que essas células permanecerão no trato respiratório superior, fixando-se e agindo como sentinelas na defesa”, explica Marcus Buggert, imunologista e pesquisador de linfócitos T do Instituto Karolinska, na Suécia. “Uma vacina aplicada no braço não induzirá esse tipo de resposta dos linfócitos T.”

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