Como será o fim da pandemia? Surtos do passado fornecem indícios importantes

A resposta depende de diversos fatores, talvez o mais importante seja o caráter global da crise.

Publicado 10 de ago. de 2021 07:00 BRT
covid testing line

Profissional de saúde distribui suprimentos para autoexame de covid-19 por swab em um drive-thru em Houston, no estado do Texas, Estados Unidos.

Foto de Callaghan O'Hare, Bloomberg via Getty Images

Depois de meses de queda no número de casos, as infecções por covid-19 em todo o mundo atingiram um novo pico em julho, diminuindo a esperança de um fim próximo para a pandemia.

Em maio, com o aumento da cobertura vacinal, os casos de infecção pelo novo coronavírus estavam em queda em todos os Estados Unidos, em regiões da Europa e no Oriente Médio, permitindo flexibilização das restrições sociais e de viagens, bem como  a reabertura de estabelecimentos comerciais. Mas, pelo menos nos Estados Unidos, essa melhora não durou muito. Em julho, não houve aumento nas taxas de vacinação e as variantes altamente transmissíveis do novo coronavírus assolaram o país, forçando as autoridades de saúde a novamente recomendar o uso de máscaras e aumentar a cobertura vacinal.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia de covid-19 em 11 de março de 2020. Após 17 meses exaustivos e caóticos, pessoas esgotadas se perguntam quando a pandemia finalmente acabará?

“Existem respostas diferentes mesmo entre a comunidade científica”, afirma Rachael Piltch-Loeb, pesquisadora e membro do Programa de Pesquisa, Avaliação e Prática de Preparação para Emergências da Faculdade de Saúde Pública Harvard T.H. Chan. “Não existe definição para o fim de uma pandemia.”

Uma pandemia é uma crise global. O relaxamento de algumas medidas e intervenções de saúde pública nos Estados Unidos “deu às pessoas a sensação de que a situação crítica estava acabando”, revela Piltch-Loeb. Essa despreocupação impediu que muitos enxergassem a realidade mundial, que permanece assustadora.

“Até que esse vírus seja controlado ou poucos casos sejam notificados globalmente, ainda existirá um cenário de pandemia”, explica Piltch-Loeb. Isso significa que declarar o “fim” da pandemia pode ser um objetivo distante e que, de acordo com diferentes opiniões científicas, requer condições distintas.

Ciclo da doença

De acordo com a OMS, quando a propagação mundial de uma doença é controlada em determinadas regiões, não é mais considerada uma pandemia, mas sim uma epidemia. Se a covid-19 persistir globalmente em níveis “esperados ou normais” de acordo com a OMS, a organização a classifica como uma doença “endêmica”.

Nesse estágio, o Sars-CoV-2 será um vírus circulante “que trará menos consequências, pois teremos desenvolvido imunidade”, afirma Saad Omer, epidemiologista e diretor do Instituto para Saúde Global de Yale.

Apenas duas doenças na história registrada já foram erradicadas: a varíola, que causa bolhas dolorosas por todo o corpo e apresenta risco à vida para humanos, e a peste bovina, uma doença viral que infectou e matou bovinos. Em ambos os casos, campanhas intensivas de vacinação global impediram que novas infecções surgissem. O último caso confirmado de peste bovina foi notificado no Quênia em 2001, e o último caso de varíola conhecido ocorreu no Reino Unido em 1978.

Joshua Epstein, professor de epidemiologia na Faculdade de Saúde Pública Global da Universidade de Nova York e diretor fundador do laboratório de Modelagem Baseado em Agentes da faculdade, argumenta que a erradicação é tão rara que a palavra não deveria ser utilizada nesse contexto. As doenças “não são mais transmitidas por seus reservatórios animais ou sofrem mutações em níveis baixos”, explica ele. “Mas, normalmente, não desaparecem por completo do bioma global.”

A maioria das causas de pandemias anteriores ainda está presente entre nós. Segundo a OMS, entre 2010 e 2015, mais de três mil pessoas contraíram as bactérias que causam a peste bubônica e pneumônica. E o vírus causador da pandemia de gripe que devastou o mundo em 1918, matando pelo menos 50 milhões de pessoas, se transformou em variantes menos letais que se tornaram cepas da gripe sazonal.

Assim como a gripe pandêmica de 1918, é provável que o vírus Sars-CoV-2 continue a sofrer mutações, e que o sistema imunológico humano se adapte, em algum momento, para combatê-lo sem a necessidade de vacinas — mas não antes de provocar muitas doenças e mortes. “Desenvolver imunidade sem ser por meio de vacinas não é uma solução que devemos buscar”, adverte Omer.

Encontrar maneiras de desacelerar a propagação de uma doença e controlar os seus efeitos é, de longe, o caminho mais seguro, segundo especialistas. Atualmente, por exemplo, o controle de pragas e rigorosas medidas de higiene contêm as doenças, ao passo que quaisquer novos casos podem ser tratados com antibióticos.

Com relação a outras doenças, como a gripe, as vacinas também podem fazer a diferença. As vacinas contra a covid-19 disponíveis são altamente seguras e eficazes, o que significa que um número suficiente de pessoas vacinadas pode acabar com esta pandemia mais rapidamente e com menor mortalidade do que se as infecções estivessem ocorrendo naturalmente.

Por que precisamos de vacinas para todos

Na semana passada, o diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, restabeleceu o objetivo de vacinar pelo menos 10% da população de cada país até setembro, com o objetivo maior de alcançar 40% de imunização global até o fim do ano e 70% em meados de 2022.

Porém, até o momento, apenas 28% da população mundial recebeu pelo menos uma dose de uma vacina contra a covid-19. A distribuição de imunizantes permanece extremamente desigual. Cerca de três quartos da população elegível da União Europeia estão pelo menos parcialmente imunizados; os Estados Unidos vacinaram 68% das pessoas com 12 anos ou mais.

Mas outros países com muitas mortes decorrentes da covid-19 — incluindo a Indonésia, a Índia e muitos dos países da África — avançam nas imunizações em um ritmo muito mais lento. Em parte porque o Covax, o programa apoiado pelas Nações Unidas para vacinação mundial, tem encontrado dificuldades para adquirir e entregar vacinas para os países mais pobres do mundo. Recentemente, a OMS solicitou que países ricos doassem doses de vacina às nações mais pobres antes de oferecerem doses de reforço às suas próprias populações.

Mesmo em países com suprimentos suficientes, o ritmo da vacinação é influenciado pela hesitação e desinformação. Nos Estados Unidos, a taxa diária de novas imunizações se estabilizou, diminuindo para uma média de 615 mil aplicações por dia, um declínio de 82% em relação ao pico de cobertura vacinal em 13 de abril. Os hospitais norte-americanos estão ficando sobrecarregados de pacientes conforme o número de casos aumenta em regiões onde pessoas não estão sendo vacinadas.

Com mais chances de propagação e mutação, o vírus desenvolveu novas variantes que não são apenas mais contagiosas, mas também mais evasivas. A Delta é a mutação mais contagiosa até o momento. A variante foi detectada pela primeira vez na Índia, onde foi responsável por um dos piores surtos do mundo em abril. Mais recentemente, a Delta contribuiu para um forte surto na Indonésia; dados referentes à presença de anticorpos sugerem que mais da metade da população da capital Jacarta foi infectada. Estudos iniciais também mostram que a variante Lambda pode ser resistente a algumas vacinas.

A complexidade de combater um vírus em rápida mutação “significa que, às vezes, damos dois passos para frente e um para trás”, observa Michael Osterholm, diretor do Centro de Pesquisa e Política de Doenças Infecciosas da Universidade de Minnesota.

Quem declara o fim da pandemia?

Segundo cientistas e historiadores, existe a possibilidade de as pessoas decidirem sobre o fim da pandemia muito antes de qualquer órgão governamental declará-lo oficialmente.

Isso já aconteceu no passado: a gripe de 1918 atingiu o auge na Primeira Guerra Mundial, e à medida que os combates cessavam, havia um “sentimento de deixar toda essa década para trás e abraçar um novo futuro”, conta Naomi Rogers, professora de história e história da medicina na Universidade de Yale. A população iniciou os “Loucos Anos 20” (Roaring Twenties), apesar do vírus da gripe ainda circular por todos os Estados Unidos.

Se a sociedade considerar o fim da pandemia antes de ele ser oficialmente declarado pela ciência, aceitaremos as graves consequências — incluindo mortes. Foi isso que geralmente ocorreu nas pandemias anteriores. A gripe já não é considerada uma pandemia e agora é uma doença endêmica que causa entre 12 mil e 61 mil mortes nos Estados Unidos todos os anos, com base nas estimativas dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) do país.

“Se conseguirmos reduzir o número de mortes a um determinado nível e retomar as nossas vidas normalmente, pode-se dizer que a pandemia ‘acabou’”, observa Jagpreet Chhatwal, cientista de decisão do Instituto para Avaliação de Tecnologias do Hospital Geral de Massachusetts em Boston. Reiteramos que as vacinas fazem a diferença. As mortes por covid-19 nos Estados Unidos diminuíram em regiões com alta cobertura vacinal.

Nos Estados Unidos, os CDC provavelmente informarão a população quando a pandemia alcançar a classificação endêmica no país, afirma Piltch-Loeb. Dessa forma, poderemos voltar, de certa forma, à normalidade, independentemente das declarações globais.

“Queremos voltar ao que era antes da pandemia de covid-19”, conclui Andrew Azman, epidemiologista da Faculdade de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg. “As pessoas não irão esperar a OMS declarar que a pandemia acabou para retomarem suas vidas.”

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