Por que não é tão fácil doar doses de reforço de vacinas contra a covid-19

Deixar de receber uma dose de reforço para que vacinas possam ser doadas a países no exterior pode parecer um gesto altruísta, mas especialistas advertem que existem métodos melhores para que vacinas sejam destinadas aos necessitados.

Publicado 1 de set. de 2021 07:00 BRT
Funcionários descarregam mais de três milhões de doses de vacinas da Sinovac de caminhão sob escolta ...

Funcionários descarregam mais de três milhões de doses de vacinas da Sinovac de caminhão sob escolta policial em Surabaya, na Indonésia, em 4 de janeiro de 2021.

Foto de Juni Kriswanto, AFP via Getty Images

Após o anúncio do governo Biden, dos Estados Unidos, de que oferecerá doses de reforço a norte-americanos vacinados com as duas doses da vacina contra a covid-19 a partir do fim de setembro, alguns sentiram um grande alívio por poderem, em breve, aumentar sua imunidade contra a variante Delta.

Outros, entretanto, receberam a notícia com apreensão: não há ainda consenso científico sobre a necessidade de doses de reforço, sobretudo em pessoas jovens e saudáveis. E em meio a pedidos de doações de mais doses em todo o mundo, onde mais de 67% das pessoas permanecem não vacinadas, alguns norte-americanos estão se questionando se tomar uma dose de reforço é a atitude correta diante de tantas pessoas que não conseguiram tomar nem sequer a primeira dose.

“Nos Estados Unidos, o dilema é que planejamos distribuir doses de reforço — a qualquer idade — para reduzir os casos, enquanto pessoas ao redor do mundo estão morrendo e não têm acesso a uma única dose da vacina”, afirma Ezekiel Emanuel, professor do departamento de ética médica e política de saúde na Faculdade Perelman de Medicina e na Faculdade Wharton da Universidade da Pensilvânia.

A Agência de Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (“FDA”, na sigla em inglês) autorizou a aplicação de doses de reforço em um grupo limitado de imunodeprimidos em 12 de agosto. Naquele momento, mais de um milhão de norte-americanos já haviam recebido uma dose adicional, fossem imunodeprimidos ou não. Dias depois, em 18 de agosto, a Casa Branca anunciou planos de aplicar doses de reforço a todos os norte-americanos totalmente vacinados.

Até o momento, apenas 1,4% da população de países de baixa renda recebeu uma dose da vacina contra a covid-19, deixando grandes regiões do mundo amplamente desprotegidas de desfechos mais graves da doença. Para alguns norte-americanos, deixar de receber sua dose de reforço — na esperança de que essas doses sejam destinadas aos mais necessitados — pode parecer uma atitude nobre.

Mas dispensar uma dose de reforço não implica necessariamente a distribuição das vacinas remanescentes contra a covid-19 por todo o mundo. O processo de doação é limitado por burocracias complexas, preocupações com disputas judiciais e problemas de distribuição dentro dos países que recebem as doses doadas. Além disso, o programa responsável pela distribuição de doações de vacinas dificilmente aceitará doses após passarem por farmácias e sistemas hospitalares onde estiveram disponíveis para imunização.

Entenda como funciona a doação de vacinas — e como é possível realmente fazer a diferença.

A complexa rede de doações de vacinas contra a covid-19

O processo de doação de vacinas contra a covid-19 é liderado pela Covax — coalizão da Organização Mundial da Saúde, Unicef e duas organizações sem fins lucrativos financiadas por Bill Gates: a Aliança Mundial para Vacinas e Imunização (“Gavi”, na sigla em inglês) e a Coalizão para Promoção de Inovações em prol da Preparação para Epidemias  — que negocia doações e lidera as iniciativas de distribuição global.

Em razão do consumo da maior parte dos imunizantes contra a covid-19 pelos países mais ricos, a Covax se tornou fundamental para garantir que nações menos ricas pudessem vacinar ao menos seus cidadãos mais vulneráveis, “sem nem sequer cogitar vacinar populações de baixo risco”, afirma Gian Gandhi, coordenador da divisão de suprimentos da Covax do Unicef.

Na melhor das hipóteses, o processo de doação por meio da Covax é mais ou menos assim: os países com acesso a suprimentos de vacinação contratados fazem uma previsão de quando atenderão às suas próprias necessidades e se comprometem a doar um determinado número de doses excedentes até uma data específica. A Covax recolhe as vacinas recém-saídas da linha de produção e as distribui a outras nações necessitadas.

Mas o melhor cenário nem sempre se concretiza. Segundo Thabani Maphosa, diretor administrativo de programas nacionais da Gavi, “o maior desafio enfrentado pela Covax nas doações de doses é sua previsibilidade. É comum haver pouco aviso com antecedência sobre a disponibilidade de novas doações — e embora essas contribuições sejam muito bem-vindas, é muito difícil planejar sua distribuição”.

Quando os países oferecem doações sem aviso antecipado, as doses podem estar próximas demais de seus prazos de validade para serem utilizadas, conta Gandhi. A Covax tem uma política de não aceitar vacinas com menos de dois meses de vida útil, e um dos motivos se deve “ao fato de que os países muitas vezes precisam de tempo para planejar e reunir os recursos adicionais necessários para receber e utilizar as doses”, explica Gandhi.

E até mesmo o melhor cenário enfrenta uma infinidade de obstáculos jurídicos, administrativos e logísticos.

Para receber vacinas, os países destinatários devem ter sua própria autorização regulatória de uso: como a autorização de uso fornecida pela FDA à vacina da Moderna contra a covid-19, por exemplo. E os fabricantes de vacinas exigem que sejam firmados acordos de indenização com os países destinatários, bem como com a nação doadora, para garantir que não sejam responsabilizados por quaisquer efeitos raros, mas adversos, das vacinas.

“Há também outras questões práticas”, afirma Maphosa, como a reetiquetagem das doses no idioma nativo de um país e a garantia de disponibilidade de seringas, refrigeradores e transporte adequados nos países destinatários. “Conciliar todos esses processos é uma tarefa complexa”, afirma Gandhi.

Os Estados Unidos se comprometeram a doar mais de 600 milhões de doses de vacinas contra a covid-19. Mas em 3 de agosto, haviam enviado apenas 110 milhões dessas doses. A União Europeia havia doado 7,9 milhões de doses — cerca de 4% dos 200 milhões de doses que se comprometeu a enviar — até o início de agosto.

“As doações dos países são essenciais à iniciativa de combate à desigualdade global na vacinação”, observa Maphosa, que acrescenta que é “crucial que essas promessas sejam cumpridas o quanto antes. Precisamos de doses imediatamente, não mais tarde, pois a demanda global ainda supera a oferta”.

Como ajudar

Para conter o aumento da variante Delta e ajudar a acabar com a pandemia, alguns cidadãos bem-intencionados podem cogitar abrir mão das doses de reforço na esperança de que as doses sejam doadas.

Mas, na realidade, nos Estados Unidos, se for recusada uma dose de reforço que já esteja disponível em uma farmácia ou consultório médico, “é mais provável que, apesar das boas intenções, a dose será desperdiçada, não será utilizada”, alerta Gandhi.

A Covax dificilmente aceitará doses já distribuídas pelos Estados Unidos, explica ele, pois precisa garantir a qualidade e a segurança do produto desde sua fabricação.

As vacinas contra a covid-19 requerem controle de temperatura. Se as vacinas ficarem fora de suas temperaturas indicadas, sua qualidade pode ser comprometida. “Existe o risco de perda de eficácia do produto”, comenta Gandhi. “Pode ser um risco infinitamente pequeno, mas existe e nos impede, na maioria das vezes, de aceitar doações de imunizantes que já foram retirados” de seus locais de produção.

Mas “isso não significa que desistimos”, acrescenta. Nancy Jecker, professora de bioética e ciências humanas da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, concorda: “acredito que é uma responsabilidade pessoal de cada indivíduo ser um bom cidadão global”, afirma ela.

Nos Estados Unidos, em vez de recusar uma dose de reforço, é possível enviar um e-mail a deputados locais, pedindo que o país aumente suas iniciativas de doação. O Unicef oferece um formulário de e-mail que pode ser preenchido e enviado imediatamente.

Outra alternativa é fazer uma doação ao Unicef para ajudar na distribuição de futuras doses de vacinas.

“Não se trata apenas de igualdade global, como já dissemos muitas vezes”, reitera Gandhi. Ao deixar pessoas desprotegidas e permitir que o vírus continue em circulação e sofra mutações, “cumpre-se a profecia autorrealizável de que serão necessárias cada vez mais de doses de reforço em países de alta renda, pois não será resolvida, em parte, a causa-raiz do problema em outras regiões do mundo”, explica ele.

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