A instável ciência por trás do uso de ivermectina no tratamento da covid-19

Os estudos são inconclusivos e a desinformação é exorbitante, mas muitas pessoas veem esse medicamento contra vermes como um remédio comum para prevenir e combater a variante Delta.

Publicado 12 de set. de 2021 07:00 BRT
A ivermectina é administrada no tratamento de vermes em animais, como neste gado de uma fazenda ...

A ivermectina é administrada no tratamento de vermes em animais, como neste gado de uma fazenda no estado de Wyoming, nos Estados Unidos.

Foto de Charlie Hamilton James, Nat Geo Image Collection

No mês passado, Frank Wallmeyer e vários outros proprietários de lojas de suprimentos agrícolas, em algumas regiões dos Estados Unidos, perceberam que houve um aumento na procura de um medicamento antiparasitário chamado ivermectina. Na loja de Wallmeyer, na cidade de Jacksonville, na Flórida, as vendas de ivermectina quase triplicaram e o telefone toca pelo menos dez vezes mais com pessoas perguntando sobre o medicamento, conta Wallmeyer.

Mas muitos dos clientes não desejavam tratar vermes nos intestinos de bovinos e cavalos, por exemplo. Na realidade, eles queriam tomar o medicamento ou dar a familiares para prevenir e tratar a covid-19. Considerada uma cura milagrosa para covid-19 por alguns médicos e ativistas, apesar de não haver respaldo científico, a procura pela ivermectina parece estar em alta entre norte-americanos não vacinados.

À medida que a variante Delta se espalha rapidamente e assola o país, a busca por medicamentos alternativos levou pessoas antivacina a buscar a ivermectina. Embora a Agência de Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) tenha aprovado a ivermectina para tratar certas doenças parasitárias em humanos e animais, seu uso contra a covid-19 não é autorizado.

Uma caixa de ivermectina de uso veterinário. A África do Sul autorizou o uso limitado de ivermectina para tratar a covid-19, embora as autoridades regulatórias reconheçam que não há evidências suficientes de que funcione ou seja seguro para essa finalidade. O Zimbábue, país vizinho da África do Sul, também autorizou o uso do medicamento.

Foto de Denis Farrell, AP Photo

Centros de controle de envenenamento de diversos estados, como Flórida, Mississippi e Texas, relataram um aumento recente de casos envolvendo uso indevido ou overdose de ivermectina. Além disso, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) relataram que, na semana do dia 13 de agosto deste ano, foram feitas mais de 88 mil prescrições para ivermectina, o que representa um aumento de 24 vezes em relação às 3,6 mil prescrições por semana antes da pandemia. Isso significa que alguns médicos estavam prescrevendo o medicamento para tratar covid-19 apesar da regulamentação da FDA.

“Isso dificulta muito o trabalho de conscientização com os pacientes [de covid-19], porque há muitos que fazem o uso da ivermectina e existe muita desinformação”, diz John Sinnott, epidemiologista da Faculdade de Medicina Morsani, da Universidade do Sul da Flórida, e membro do Hospital Geral de Tampa.

Além disso, as composições e dosagens de ivermectina são diferentes para animais e humanos. A FDA alertou as pessoas sobre os possíveis danos causados ao ingerir o medicamento concentrado para uso veterinário, que contém ingredientes inativos não testados para uso em humanos.

Em um tuíte de 21 de agosto a FDA deixou um alerta: “Você não é um cavalo. Você não é uma vaca. Sério, pessoal. Parem com isso.”

Até mesmo a ivermectina indicada para uso em humanos, considerada segura para fins aprovados — uso contra vermes, piolhos e doenças da pele, como rosácea — pode causar efeitos colaterais, como dores de cabeça, náuseas, diarreia, erupções cutâneas e picos de pressão alta. E o consumo em altas doses pode causar convulsões e internação.

O que a ciência diz

Embora alguns estudos sugiram que o uso de ivermectina em estágios iniciais da infecção por covid-19 tenha reduzido o risco de morte e ainda outros indiquem que menos pacientes progrediram para quadros graves, existem poucas evidências. “Não sabemos se a ivermectina é útil ou não na luta contra a covid-19”, afirma Stephanie Weibel, bióloga da Universidade de Wuerzburg, na Alemanha. A confiabilidade do conjunto de estudos disponíveis é limitada.”

Em uma revisão recente de 14 estudos sobre a ivermectina, Weibel e seus colegas descobriram que muitas vezes os ensaios clínicos contavam com poucos pacientes ou não haviam sido bem planejados, e em alguns dos estudos os pesquisadores superestimaram os efeitos da ivermectina. Weibel recomenda a realização de ensaios clínicos mais robustos, como o que está em andamento na Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Até mesmo a Merck, uma das empresas fabricantes de ivermectina, declarou, em fevereiro de 2021, que sua própria análise da literatura científica não corrobora com a administração desse medicamento para tratamento de covid-19. No entanto, um dos argumentos dos ativistas que apoiam o uso da ivermectina é que, mesmo que seu uso não ofereça benefícios, não causará danos.

“Se não houver evidências de que o produto funciona, então qualquer risco que ele possa trazer é inaceitável”, diz Peter Lurie, presidente do Centro de Ciência no Interesse Público e ex-comissário associado da FDA. “Temos pessoas que ficaram doentes por causa da ivermectina, que desperdiçaram muito dinheiro sem nenhum benefício comprovado; outra preocupação é que a ivermectina desestimula as pessoas a tomarem as medidas que realmente funcionam: vacina, uso de máscara e distanciamento social.”

Além disso, os adeptos do uso da ivermectina, que não conseguem a prescrição do medicamento por seus médicos, podem recorrer à versão veterinária em lojas de suprimentos agrícolas, sem saber que existe diferença. A dose recomendada para animais é muito mais alta e, se as pessoas ingerirem uma superdosagem de ivermectina, provavelmente serão envenenadas, observa Michael Teng, virologista da Universidade do Sul da Flórida.

Os antivacina também recorrem à ivermectina para prevenir a covid-19, embora não existam evidências científicas suficientes que justifiquem esse uso. Além disso, os médicos alertam contra o uso de ivermectina por períodos prolongados. A partir de agora, a FDA declara que a ivermectina só deve ser utilizada ou prescrita para tratamento da covid-19 em ensaios clínicos, que geralmente envolve acompanhamento e monitoramento de saúde para os participantes inscritos.

O que desencadeou o surto do uso de ivermectina

A ivermectina foi descoberta e desenvolvida na década de 1970. Na busca por compostos antiparasitários, cientistas identificaram uma nova espécie de bactéria — Streptomyces avermitilis — no solo, próximo a um campo de golfe no Japão, que erradicou vermes no organismo de ratos. Os micróbios produziram moléculas terapêuticas chamadas avermectinas, que eram responsáveis pela desparasitação e que mais tarde levaram à criação e comercialização de um medicamento veterinário, chamado ivermectina. Em 1987, depois que ensaios clínicos em humanos mostraram sua eficácia contra a oncocercose, causada pelo verme parasita Onchocerca volvulus, a FDA aprovou o medicamento para uso em humanos em 1996, sob o nome comercial Stromectol.

Desde então, a ivermectina passou a ser reconhecida como um tratamento seguro para diversas doenças tropicais causadas por parasitas, que podem variar de ácaros a lombrigas.

Portanto, quando os cientistas estavam testando medicamentos genéricos seguros que pudessem ser utilizados para o tratamento da covid-19, a ivermectina entrou na lista.

Entre as primeiras pesquisas estava um estudo publicado on-line em abril do ano passado que demonstrou como altas doses de ivermectina impediram a replicação do Sars-COV-2, o vírus causador da covid-19, em tubos de ensaio. Embora os pesquisadores não tenham testado o medicamento para tratar ou prevenir a covid-19 em humanos ou animais, o estudo ganhou as manchetes e despertou o interesse da população pela ivermectina. A FDA rapidamente emitiu um aviso contra seu uso no tratamento de covid-19. Duas cartas enviadas ao editor do jornal expressavam preocupação sobre a alta dose de ivermectina usada nos experimentos.

Na mesma época, um artigo polêmico que ainda não havia sido revisado por pares e posteriormente não foi aceito para publicação, alegou grande redução na mortalidade entre os pacientes com covid-19 que fizeram tratamento com ivermectina. Embora o estudo não tenha sido publicado em nenhum periódico, ele ajudou a popularizar a ivermectina na América Latina.

Como a eficácia e a segurança da ivermectina continuaram a ser testadas em ensaios clínicos em todo o mundo, os resultados de uma publicação de novembro de 2020, liderada pelo cientista egípcio Ahmed Elgazzar, fez com que o interesse no potencial do medicamento ressurgisse. O estudo pré-publicação alegou a possibilidade de recuperação substancial entre os pacientes com covid-19 que receberam ivermectina nos estágios iniciais da infecção e uma redução na mortalidade superior a 90%. Mas, em julho deste ano, o artigo foi retirado do periódico por questões éticas.

“É preocupante que as pessoas estejam acreditando em um medicamento que não tem eficácia comprovada contra a covid-19”, lamenta Teng. “Eu gostaria apenas que as pessoas tomassem a vacina.”

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