Alerta no Reino Unido: ramificação da variante Delta está em alta

A sublinhagem de rápida transmissão do vírus já foi identificada em outros países. Especialistas temem que ela aumente o número de casos de covid-19 no inverno do Hemisfério Norte se a cobertura vacinal não for suficiente.

Publicado 4 de nov. de 2021 14:16 BRT
Passageiros em trem subterrâneo de Londres utilizam máscaras para ajudar a prevenir a disseminação do novo ...

Passageiros em trem subterrâneo de Londres utilizam máscaras para ajudar a prevenir a disseminação do novo coronavírus, em 20 de outubro de 2021. Líderes da área da saúde insistiram que o governo britânico restabelecesse algumas restrições contra o novo coronavírus para amenizar o impacto sobre os hospitais devido ao número crescente de casos de covid-19.

Foto de Tolga Akmen, AFP via Getty Images

Enquanto a onda de covid-19 que assolou os Estados Unidos no meio do ano diminui, uma versão mais transmissível da variante Delta está se disseminando no Reino Unido desde julho.

Os contágios contínuos pela variante Delta geraram um novo subtipo do vírus, chamado AY.4.2, que carrega duas mutações adicionais. Embora a variante Delta original ainda predomine no Reino Unido, esse nova mutação é responsável por mais de 12% das infecções, mas representava menos de 4% no início do mês de setembro. O aspecto mais preocupante é que o novo subtipo do vírus está superando cada vez mais as outras linhagens de variante Delta. A evidência preliminar sugere que o AY.4.2 possui uma capacidade de 12% a 15% maior de transmissão entre pessoas que moram juntas do que os outros vírus da variante Delta.

No dia 20 de outubro, receosa com o rápido aumento da mutação AY.4.2, a Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido a classificou  como uma variante de interesse, um nível abaixo das variantes de preocupação.

“A nova subvariante da cepa Delta, AY.4.2, continuou se espalhando proporcionalmente no Reino Unido. Se fosse apenas um caso isolado, o esperado seria que a transmissão simplesmente fosse interrompida”, diz Cornelius Römer, bioinformático do departamento de pesquisa The Biozentrum da Universidade de Basileia, na Suíça, que descobriu a AY.4.2. “Isso indica claramente que essa variante possui uma vantagem real de transmissão.”

Até o momento, 96% de todos os casos relacionados à subvariante AY.4.2 foram registrados no Reino Unido, mas já foi identificada em outros 42 países. Nos Estados Unidos, a AY.4.2 é responsável por menos de 0,5% de todas os sequenciamentos identificados até agora — mas já foi identificada em 33 estados.

“Essa característica da subvariante AY.4.2 tornará o próximo inverno do Hemisfério Norte um pouco mais difícil no Reino Unido, porque cada medida que tomarmos será um pouco menos eficaz”, salienta Jeffrey Barrett, diretor da Covid-19 Genomics Initiative (Iniciativa de Genoma da covid-19, em tradução livre) do Instituto Wellcome Sanger. “Mas a diferença entre essa subvariante e a variante Delta é modesta em relação às diferenças entre as variantes Delta e Alfa, ou Alfa e outras variantes mais antigas. Portanto, não será um divisor de águas como aconteceu das outras vezes.”

Onde a subvariante AY.4.2 se enquadra?

Todos os ramos da árvore evolutiva do Sars-CoV-2 compartilham mutações comuns, mas quanto mais um ramo variante cresce, a variante mais recente se diferencia ainda mais da original. As variantes de preocupação — Alfa, Beta, Gama e Delta — divergem significativamente entre si e possuem características diferentes. Se a variante Delta fosse representada como um galho mais espesso na árvore do Sars-CoV-2, a AY.4.2 seria um novo ramo. A AY.4.2 não está distante o suficiente da variante Delta para apresentar um comportamento muito diferente, portanto, não se classifica como uma variante de preocupação e não pode ser nomeada com alguma letra do alfabeto grego.

Os cientistas consideram a AY.4.2 uma sublinhagem da variante Delta, o que significa que ainda é Delta, mas com algumas novas mutações. O Sars-CoV-2 acumula, em média, cerca de duas mutações por mês e existem mais de 100 sublinhagens da variante Delta.

“Eu identifiquei essa subvariante, cerca de um mês atrás, por causa das duas mutações da proteína de espícula que ela possui; isso me pareceu interessante”, afirma Römer, que sugeriu o nome: AY.4.2.

“Novas mutações [do Sars-CoV-2] continuam a surgir, a maioria das quais pode não ter nenhuma consequência para o comportamento biológico do vírus”, diz Evans Rono, biólogo molecular, que trabalhou no Instituto Max Planck de Infectologia, em Berlim. No entanto, algumas variantes têm características que as tornam mais transmissíveis, mais infecciosas e mais resistentes aos tratamentos ou à resposta imunológica humana. Essas variantes tornam-se sublinhagens distintas, diz Rono, que catalogou sublinhagens emergentes da variante Delta em um estudo ainda não revisado por pares.

O que torna a AY.4.2 diferente?

Todas as proteínas, incluindo a proteína de espícula do novo coronavírus, são compostas de uma série de aminoácidos, como contas de um colar. A AY.4.2 se ramificou de uma cepa altamente prevalente, a variante Delta (AY.4), na qual surgem novas mutações nas posições de aminoácidos 145 e 222 da proteína de espícula. O Sars-CoV-2 usa a proteína de espícula em sua superfície externa para infectar células humanas ligando-se primeiro a uma proteína chamada receptor ECA2, que está presente na superfície do pulmão e em outras células.

As duas mutações ramificadas da AY.4.2 não são encontradas juntas em outras variantes de preocupação, mas já foram observadas antes em outras variantes potencialmente problemáticas.

Uma mutação — na posição 222 da AY.4.2 — também foi observada na variante B.1.177, que “também pode ter apresentado uma pequena vantagem de crescimento”, explica Tom Wenseleers, biólogo evolucionista e bioestatístico da Universidade Católica de Leuven, na Bélgica.

Mutações na posição 145 podem ser encontradas nas variantes Mu e Alfa. Essa localização está dentro de uma região da proteína de espícula que muitos anticorpos reconhecem e têm como alvo de destruição. Essa mutação pode facilitar a entrada do vírus na célula humana ou “permitir que a variante consiga driblar os anticorpos”, diz Olivier Schwartz, chefe da Unidade de Vírus e Imunidade do Institut Pasteur, na França.

Ainda não está claro se algum desses cenários procede. Até o momento, não há estudos que comprovem que essas duas mutações afetam a infectividade viral e a ligação do ECA2, observa Kei Sato, virologista da Universidade de Tóquio.

Mesmo que a AY.4.2 tenha se adequado melhor em relação à Delta, ela não apresentou a ascensão meteórica observada quando a variante Delta se tornou dominante sobre a Alfa em abril e maio de 2021; ou quando a variante Alfa sobrepôs o vírus Sars-CoV-2 original. “A AY.4.2 tem apenas uma vantagem moderada sobre a Delta”, declara Christina Pagel, diretora da Unidade de Pesquisa Operacional Clínica da University College London.

Wenseleers concorda que a vantagem de transmissão da AY.4.2 possui uma magnitude muito menor do que a vantagem de 40% a 70% que as variantes Alfa e Delta tinham em relação às suas respectivas variantes precedentes do Sars-CoV-2.

A subvariante AY.4.2 é uma ameaça?

A razão pela qual a AY.4.2 se espalhou no Reino Unido é um mistério, especialmente porque sua prevalência diminuiu em outros países europeus.

“É possível que a AY.4.2 tenha uma pequena vantagem de transmissão sobre a Delta, da ordem de 10% a 15%, mas esse fator, em conjunto com mudanças mínimas de sequenciamento, não representa uma ameaça significativa nem explica a situação do Reino Unido”, disse Eric Topol, fundador e diretor do Instituto Translacional de Pesquisa Scripps.

Ravi Gupta, microbiólogo clínico da Universidade de Cambridge, responsabiliza o governo do Reino Unido pelo surgimento dessa nova variante por ter promovido a flexibilização das medidas de saúde pública cedo demais. “A situação no Reino Unido é o resultado da falta de medidas de contenção, como uso de máscaras e não vacinação de adolescentes e controle da transmissão viral escolar”, reitera ele.

Essas questões, aliadas à diminuição da imunidade das pessoas que já completaram o esquema vacinal há muitos meses e ao clima mais frio, que fará com que as pessoas passem mais tempo em ambientes fechados, poderão desempenhar um papel importante no aumento do número de casos de covid-19 no Reino Unido.

A boa notícia é que, até o momento, a variante AY.4.2 não parece causar quadros mais graves ou tornar as vacinas atuais menos eficazes, de acordo com a Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido.

“As taxas de hospitalização e mortalidade são relativamente estáveis [no Reino Unido]. Isso indicaria que a vacina é eficaz até mesmo contra a AY.4.2”, declarou Sato.

Embora a AY.4.2 tenha chamado muita atenção, existem muitas sublinhagens Delta que se tornaram mais prevalentes do que a própria Delta. Por exemplo, as sublinhagens AY.23 e AY.23.1, originárias de Singapura, são predominantes desde julho. Com isso, a variante Delta original passou a representar apenas 2% das amostras nos últimos 60 dias.

“A variante Delta continua a sofrer mutações em diversos subtipos. As persistentes altas taxas de casos no Reino Unido oferecem muitas oportunidades para que isso ocorra”, diz Pagel.

Os especialistas concordam que, quando mais pessoas forem vacinadas, o surgimento de novas variantes será menos provável. “As vacinas salvariam nossas vidas de muitas variantes do Sars-CoV-2”, afirma Sato.

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