Subvariante Ômicron ‘furtiva’ se alastra, preocupando especialistas

Veja o que se sabe até agora sobre a capacidade de transmissão do vírus BA.2 e de seu comportamento em vacinados.

Publicado 4 de fev. de 2022 16:07 BRT
Profissional de saúde coleta amostra para teste de Covid-19 na Cidade do México, em janeiro de ...

Profissional de saúde coleta amostra para teste de Covid-19 na Cidade do México, em janeiro de 2022.

Foto de Edgard Garrido, Reuters

Os casos da variante Ômicron estão em declínio nos Estados Unidos e em todo o mundo, mas uma versão diferente da Ômicron vem ganhando força. Chamada oficialmente de BA.2, essa variante furtiva possui um potencial de transmissão ainda maior e talvez uma grande capacidade de evadir a resposta imune do que a Ômicron original – o que pode, segundo especialistas, prolongar ainda mais a pandemia de Covid-19.

A Organização Mundial da Saúde ainda não considera a BA.2 uma “variante de preocupação” distinta, mas continua monitorando sua transmissão. A BA.2 está começando a substituir a cepa Ômicron original em diversos países. Já é a variante predominante na Dinamarca, que registrou mais de 50 mil novos contágios em um único dia na semana passada. A BA.2 também parece ser a linhagem principal de Ômicron em regiões da Índia e das Filipinas. Já causou cerca de 250 casos nos Estados Unidos e foi identificada em mais da metade dos estados do país.

A subvariante BA.2 surgiu, provavelmente, de uma ancestral comum na mesma época da Ômicron original, também conhecida como BA.1. Ela não é uma descendente da original, e sim uma irmã, afirma Cornelius Römer, especialista em bioinformática do instituto Biozentrum da Universidade da Basileia na Suíça.

“Suponho que a BA.1 foi a primeira a predominar simplesmente porque começou a se espalhar antes, e agora a BA.2 a está alcançando”, afirma Jesse Bloom, virologista evolucionário do Centro de Pesquisa do Câncer Fred Hutchinson e pesquisador do Instituto Médico Howard Hughes.

No entanto, a BA.2 vem sendo chamada de variante furtiva devido à ausência de mutações importantes em sua proteína spike. Essas mutações são necessárias aos testes rápidos de PCR para distingui-la das variantes anteriores, como a Delta. Essa diferença também pode explicar por que a BA.2 não foi detectada anteriormente.

Aliás, as duas linhagens da Ômicron possuem divergências evolutivas entre si que são maiores do que as diferenças entre o vírus original e a Alpha, a primeira variante de preocupação. “A BA.2 compartilha mais de 30 mutações em comum com a BA.1, mas também apresenta 28 mutações únicas”, observa Shay Fleishon, geneticista evolucionário e consultor do Laboratório Central de Virologia em Israel.

Isso sugere que a ancestral comum de ambas as subvariantes Ômicron se espalhou por algum tempo e evoluiu para subvariantes distintas antes que a BA.1 fosse detectada por um detalhe do acaso: duas mutações eliminaram dois aminoácidos de sua proteína de espícula, facilitando a distinção entre a BA.1 e a Delta em testes rápidos.

Ainda assim, a BA.2 é “tão detectável por PCR quanto qualquer outra variante”, ressalta Römer, referindo-se aos testes considerados padrões de referência, os quais dependem de técnicas genéticas demoradas, mas bastante precisas.

O que diferencia a BA.2 e a BA.1?

A maioria das diferenças entre a BA.2 e a BA.1 está na proteína spike do vírus, utilizada para invadir e se fixar às células humanas. A BA.2 também apresenta um grande número de mutações em outras seções de sua sequência viral, ainda pouco compreendidas.

Estimativas iniciais do Instituto Sorológico Estadual da Dinamarca sugerem que a BA.2 seja cerca de 50% mais transmissível do que a cepa BA.1. O estudo dinamarquês, ainda não revisado por pares, analisou a forma de contágio da Covid-19 em mais de 8,5 mil residências entre o fim de dezembro e o início de janeiro. Cerca de um quarto dos casos se tratavam da BA.2, e os dados revelaram que até mesmo pessoas totalmente vacinadas são mais suscetíveis a contrair a BA.2 do que a BA.1.

A Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido também estima que a BA.2 seja mais contagiosa, embora preveja que sua transmissão possa ser aproximadamente 30% maior do que a da BA.1.

A base genética responsável por essa maior transmissibilidade da BA.2 ainda é pouco compreendida, afirma Bloom, que combinou métodos computacionais e experimentais para estudar a evolução do vírus Sars-CoV-2 e entender como mutações específicas influenciam a infecção. A boa notícia é que os especialistas consideram improvável que a BA.2 cause um aumento nos casos graves da doença.

Outro estudo, também não revisado por pares, reforça a hipótese de que a versão BA.1 da Ômicron provoque casos menos graves da doença do que as variantes anteriores, sobretudo a Delta; apenas 0,5% dentre mais de 52 mil casos de Ômicron no sul da Califórnia, nos Estados Unidos, necessitaram de internações hospitalares. Da mesma forma, no Reino Unido, até 19 de janeiro de 2022, quando os dados mais recentes foram divulgados, a maioria das internações na unidade de terapia intensiva foi provocada pela Delta.

Embora a BA.2 pareça bastante diferente da Ômicron original, ainda não há evidências de que seja mais grave do que a variante anterior. Nem os dados dinamarqueses nem os dados do Reino Unido indicam haver uma discrepância nas internações hospitalares entre as variantes BA.1 e BA.2. Em outros países onde a BA.2 vem se alastrando, a OMS informa que as internações não estão aumentando a um ritmo mais rápido do que seria esperado.

“Existe uma expectativa de que os anticorpos induzidos pela BA.1 neutralizem muito bem a BA.2, já que os vírus são relativamente semelhantes em suas regiões de ligação”, destaca Bloom. Por esse motivo, Bloom acredita ser improvável que surjam grandes ondas da BA.2 em regiões que apresentaram picos da Ômicron.

As vacinas são eficazes contra a BA.2?

No entanto, ainda não há dados suficientes para determinar se as vacinas atuais serão mais ou menos eficazes contra a BA.2 se comparada com a BA.1, o que deixou especialistas preocupados com possíveis infecções em vacinados. Para contextualizar mais, a BA.1 já é bastante eficiente em se esquivar da imunidade pré-existente. Também reduz a eficácia de duas doses da vacina de RNAm da Pfizer-BioNtech, embora uma terceira dose restaure essa eficácia ao menos parcialmente.

A Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido estima que as vacinas existentes são igualmente eficazes na prevenção de doenças sintomáticas causadas pela BA.2 e pela BA.1, embora esses dados sejam baseados em um número relativamente reduzido de casos. Os dados do Reino Unido demonstraram que uma dose de reforço aplicada duas semanas após a segunda dose de uma vacina foi 63% eficaz na prevenção de casos sintomáticos da BA.1 e 70% eficaz contra casos sintomáticos da BA.2.

Estudos preliminares com versões do novo coronavírus sintetizadas em laboratório também sugerem que anticorpos neutralizantes coletados do sangue de pessoas vacinadas são igualmente capazes de bloquear tanto a BA.1 quanto a BA.2. E Jesse Bloom, do Centro de Pesquisa do Câncer Fred Hutchinson, e outros desenvolveram modelos baseados em mutações específicas da subvariante, e previram que a BA.2 não conseguirá evadir anticorpos induzidos por vacinas tanto quanto a BA.1.

Por outro lado, dados do estudo dinamarquês, cuja amostra de casos é maior, sugerem que a subvariante BA.2 é ainda melhor em burlar a proteção imunológica induzida pelas vacinas do que a versão original.

Por ora, é difícil chegar a uma conclusão categórica antes que tenhamos mais dados do mundo real. “Obviamente, ainda não existem mensurações experimentais diretas em relação à BA.2”, observa Bloom, “então teremos mais informações em breve.”

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