Cientistas questionam eficácia de medicamento para perda de peso que faz sucesso no TikTok

Os cientistas alertam que, para perda de peso, a segurança e a eficácia do medicamento para diabetes não estão estabelecidas. Porém, isso não impede os influenciadores de divulgá-lo.

Por Allie Yang
Publicado 4 de nov. de 2022 10:03 BRT
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Desde que ganhou popularidade on-line, o medicamento para diabetes Ozempic (semaglutida) tem sido cada vez mais usado off-label para controlar o peso. Agora, há uma escassez que está afetando os pacientes com diabetes tipo 2.

Foto de imyskin Getty Images

O bilionário Elon Musk o creditou por sua dramática perda de peso. Sites alegam que muito mais celebridades o estão usando para se manter em forma. E o TikTok está cheio de influenciadores com fotos surpreendentes de antes e depois, mostrando perda de peso depois de usá-lo.

O que é isso? Um medicamento chamado semaglutida, que é vendido sob diferentes marcas, incluindo Ozempic e Wegovy. O burburinho sobre esses medicamentos criou uma escassez de ambos, de acordo com a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA, que deve durar vários meses – causando alarme entre os pacientes com diabetes que dependem do Ozempic para ajudar a controlar o açúcar no sangue. Os especialistas alertam que é importante entender que eles não são medicamentos milagrosos – e que há riscos em tomá-los fora do uso pretendido.

Aqui está o que você precisa saber sobre a semaglutida, incluindo como ela funciona e os riscos. 

Qual é a ciência por trás da droga?

A semaglutida ajuda a baixar o açúcar no sangue imitando um hormônio que é naturalmente secretado quando os alimentos são consumidos, diz Ariana Chao, diretora médica do Centro de Peso e Distúrbios Alimentares da Universidade da Pensilvânia. Este medicamento, administrado por injeção, ajuda as pessoas a se sentirem satisfeitas por mais tempo, regula o apetite e reduz a fome e os desejos. 

Há uma demanda significativa para a droga. Em 2019, mais de 11% da população foi diagnosticada com diabetes nos Estados Unidos, enquanto mais de quatro em cada dez adultos foram qualificados como obesos em 2020.

Em 2017, a FDA dos EUA aprovou o Ozempic para uso em indivíduos com diabetes tipo 2. Esses pacientes geralmente têm baixos níveis de insulina, um hormônio que ajuda a quebrar os alimentos e convertê-los em combustível que o corpo pode usar, explica Chao. 

Ozempic sinaliza ao pâncreas para criar mais insulina, o que ajuda a controlar os níveis de açúcar no sangue e também reduz o glucagon, um hormônio que aumenta os níveis de açúcar. Isso pode resultar em perda de peso, mas os especialistas apontam que o Ozempic não foi aprovado para esse fim.

O Wegovy foi aprovado no ano passado para pacientes obesos ou com sobrepeso, o primeiro medicamento desde 2014 a ser aprovado para controle de peso crônico. A diferença entre as duas drogas é que Wegovy é administrado em uma dose mais alta de semaglutida do que Ozempic; ensaios clínicos mostraram mais perda de peso, mas apenas melhorias modestas no controle glicêmico com essa dose mais alta, diz Chao.

Quais são os riscos?

Como todo medicamento, pode haver desvantagens. Os efeitos colaterais mais comuns são problemas gastrointestinais, como náusea, constipação e diarreia, cita Chao – e, mais raramente, pancreatite, doença da vesícula biliar e retinopatia diabética.

Esses medicamentos foram amplamente estudados, mas sua aprovação relativamente recente significa que os pesquisadores ainda não sabem quais podem ser os efeitos de tomá-los a longo prazo. Também há poucos dados sobre o que acontece quando as pessoas param de tomá-los de repente – o que muitos podem ser forçados a fazer em meio à escassez atual.

A pesquisa sugere que a interrupção do uso deste medicamento pode fazer com que os pacientes recuperem o peso, especialmente se não fizerem nenhuma mudança no estilo de vida.

“Em quase todos os estudos de perda de peso, isso realmente depende da sua base”, diz o endocrinologista de Stanford Sun Kim. “Seus esforços no estilo de vida determinarão quanto peso você perde. Se você tem seus fundamentos como comida, exercício e sono, você vai se sair bem. Caso contrário, você pode recuperar até 20% do peso perdido por ano”, complementa. 

Esses medicamentos também podem ser incrivelmente caros, especialmente sem seguro. Kim diz que uma caneta de injeção pode custar mais de US$ 1000.

O que significa usar este medicamento off-label?

Usar um medicamento off-label significa usá-lo de uma maneira diferente da pretendida e aprovada pela FDA, que pode não ser segura ou eficaz. Ozempic foi aprovado apenas para diabéticos tipo 2, e Wegovy foi aprovado apenas para pacientes com IMC acima de 30 ou 27 se tiverem uma comorbidade relacionada ao peso, como pressão alta. 

“Não há evidências científicas para mostrar se este medicamento será eficaz ou benéfico para aqueles que não se enquadram nos critérios das indicações do rótulo aprovadas pela FDA”, alerta Chao. “Também não conhecemos os efeitos colaterais ou riscos nessas populações – pode haver reações medicamentosas desconhecidas. A obesidade é uma doença crônica. Esses medicamentos não devem ser uma solução rápida”.

Mesmo se você atender aos critérios, os especialistas alertam contra a tentativa de obter o medicamento sem receita médica viajando para países que não os exigem.

“Quando o medicamento não é usado sob a supervisão de um profissional de saúde, eles podem entrar em uso indevido”, pontua Chao. “Pode haver eventos adversos mais graves que podem acontecer.”

Os especialistas também argumentam que, com o Ozempic se tornando difícil de encontrar, os pacientes com diabetes devem ser os primeiros da fila.

“O que me preocupa, e espero que seja apenas temporário, é a questão da cadeia de suprimentos”, diz Kim. “Se eu tivesse que fazer a triagem e priorizar, talvez favorecesse alguém que está controlando o diabetes para obtê-lo – prefiro que esteja disponível para as pessoas que precisam.”

Robert Gabbay, diretor científico e médico da American Diabetes Association, diz que a organização está “muito preocupada” com a escassez de Ozempic.

“A medicação tem sido uma ferramenta importante para as pessoas com diabetes”, destaca. “Não apenas reduz a glicose no sangue e o peso, mas também diminui os eventos cardiovasculares – ataques cardíacos – uma das principais causas de morte para aqueles que vivem com diabetes”. 

Um último recurso?

Ainda assim, Kim diz que prescrever medicamentos como Ozempic e Wegovy para pacientes desesperados por uma nova abordagem para perda de peso pode fazê-la se sentir “como uma super-heroína”. Quando os pacientes chegam a ela, eles costumam tentar métodos como Vigilantes do Peso e seguir o conselho de nutricionistas. Nesse caso, diz ela, medicamentos como Ozempic e Wegovy podem ser uma ótima opção.

“O que eu acho é que, às vezes, quando eles estão se tornando bem sucedidos na perda de peso, isso realmente alimenta seu estilo de vida, então, eles podem ser mais ativos”, acredita Kim. “É difícil perder peso. Setenta e cinco por cento da população dos EUA está acima do peso ou obesa. Eu sinto que não devemos segurar isso se isso puder ajudar.”

Chao concorda que esses medicamentos são uma boa alternativa para aqueles que não conseguem perder 5% do peso corporal em cerca de três meses após as mudanças no estilo de vida. Ainda assim, ela recomenda tentar essas abordagens antes de recorrer à medicação.

Os pacientes devem “certificar-se de que estão se concentrando em um padrão alimentar saudável, reduzindo calorias e aumentando a atividade física como uma espécie de primeira linha”, recomenda. “É importante que eles saibam que, mesmo que estejam tomando a medicação, não é uma saída fácil: eles ainda terão que fazer mudanças no estilo de vida.”

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