Cultura

Conheça a primeira mulher a estabelecer contato com uma das tribos mais isoladas do mundo

A antropóloga Madhumala Chattopadhyay ofereceu cocos pela água aos sentineleses, interagindo de forma estranhamente amigável com essa tribo que trata os intrusos com hostilidade. Sábado, 29 Dezembro

Por Fehmida Zakeer

A recente morte de uma missionária norte-americana na Ilha Sentinela do Norte fez com que a remota ilha situada no Golfo de Bengala, oficialmente fora do alcance da maioria dos intrusos há décadas, voltasse aos noticiários, e levantou questões sobre o futuro dos sentineleses, os residentes caçadores e coletores da ilha que resistiram em estabelecer contato com grupos externos durante boa parte do que se conhece de sua história.

No final do século 20, o governo indiano, que administra o arquipélago das ilhas Andaman e Nicobar, ao qual pertence Sentinela do Norte, tentou fazer contato com o sentineleses—tentativas essas que normalmente resultaram em uma torrente de projéteis disparados pelos residentes da ilha a partir da praia. (Em um evento, na década de 1970, o diretor de um documentário da National Geographic sobre os moradores de Andaman foi atingido por uma lança enquanto filmava). Ao passo que a maioria das tentativas tenha sido infrutífera, dois encontros no começo da década de 1990 foram notáveis pelo fato de os sentineleses terem aceitado cocos de uma equipe que incluía antropólogos da Pesquisa Antropológica da Índia (AnSI).

Entre os antropólogos, estava a única mulher da equipe, Madhumala Chattopadhyay. Ela desejava estudar as tribos das ilhas Andaman e Nicobar desde a infância e, depois de adulta, como antropóloga, passou seis anos pesquisando esses grupos, tendo publicado 20 artigos sobre o assunto além de um livro intitulado Tribes of Car Nicobar ("As Tribos de Car Nicobar" em uma tradução livre).

Como membro pesquisadora da AnSI em janeiro de 1991, Chattopadhyay teve a primeira chance de se juntar à equipe que ia à Sentinela do Norte. Porém, havia um senão: mulheres não eram incluídas nos grupos que viajavam para estabelecer contato com as tribos "hostis" das ilhas. "Tive que fazer uma declaração por escrito dizendo que estava ciente dos riscos envolvidos e que não solicitaria indenização do governo em caso de lesão ou morte", lembra Chattopadhyay. "Os meus pais também precisaram fazer uma declaração parecida".

Com as devidas autorizações, Chattopadhyay partiu para se tornar a primeira antropóloga mulher a fazer contato com os sentineleses. Vinte e sete anos depois, em uma entrevista à National Geographic, ela relembra os encontros que teve em primeira mão.

Cocos flutuantes

"Todos nós estávamos um pouco apreensivos [durante a expedição de janeiro de 1991] porque alguns meses antes a equipe enviada pela administração havia enfrentado a hostilidade de sempre", conta Chattopadhyay. Seu grupo se aproximou da ilha em um pequeno barco, manobrando a embarcação ao longo de uma praia vazia em direção a um anel de fumaça. Alguns homens sentineleses, quatro deles armados com arcos e flechas, avançaram para a praia. "Começamos a colocar cocos na água para eles. Para a nossa surpresa, alguns dos sentineleses vieram até a água para coletar os cocos".

Nas duas a três horas que se seguiram, os homens sentineleses foram até a água repetidamente para coletar os cocos—um produto novo que não é cultivado na ilha—ao passo que as mulheres e crianças assistiam de longe. Mesmo assim, a ameaça de um ataque aos antropólogos continuava presente, lembra Chattopadhyay. "Um jovem de cerca de 19 ou 20 anos estava com uma mulher na praia. Ele de repente levantou o arco. Com palavras tribais que havia aprendido durante expedições com outras tribos da região, eu os chamei para que viessem e coletassem os cocos. A mulher deu uma cotovelada no garoto e sua flecha caiu na água. A pedido da mulher, ele também entrou na água e começou a pegar os cocos", conta ela. "Algum tempo depois, alguns homens da tribo vieram e tocaram no barco. O gesto, acreditamos, indicou que eles não estavam com medo da gente naquele momento". A equipe da AnSI foi até a praia, mas a tribo não os levou até sua aldeia.

Chattopadhyay retornou com uma equipe maior um mês depois. "Dessa vez, a nossa equipe era maior porque a administração queria que os sentineleses conhecessem todos os membros da equipe", lembra ela. "Eles observaram a gente se aproximar e vieram nos encontrar sem as armas". Não satisfeitos em apenas pegar cocos na água dessa vez, os sentineleses subiram no barco da equipe para levar um saco inteiro de cocos. "Eles ainda tentaram levar o rifle da polícia, pensando que era um pedaço de metal", complementa Chattopadhyay. Um dos membros da equipe então tentou pegar um ornamento feito de folhas usado por um nativo. "O homem ficou bravo e puxou sua faca. Ele fez um gesto para que partíssemos imediatamente e assim o fizemos", afirma ela.

O mau tempo estragou a terceira viagem, realizada alguns meses depois. "Não havia ninguém na praia e voltamos sem ter visto nenhum membro da tribo", recorda ela. Depois disso, a administração decidiu reduzir a frequência de visitas à Ilha Sentinela do Norte para impedir que os residentes fossem expostos a doenças para as quais possivelmente não tinham defesa.

Chattopadhyay, que agora trabalha no Ministério da Justiça Social e Empoderamento da Índia, não retorna às ilhas Andaman e Nicobar há 19 anos e não tem interesse em voltar à Sentinela do Norte. "As tribos vivem nas ilhas há séculos sem nenhum problema. Seus problemas começaram depois que entraram em contato com estranhos", diz a antropóloga. "As tribos das ilhas não precisam de pessoas externas para os protegerem, o que eles precisam é serem deixados em paz".

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